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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Electro rap português de... 1984!!!



Descobri esta canção de Rui de Castro & O Grupo Português de Piratas há pouco tempo no blog do Sr. Rui Miguel Abreu e nunca se deu a possibilidade de abordar este assunto aqui no blog. Pois bem, há cerca de uma semana foi disponibilizado no youtube um vídeo, ao que julgo recentemente produzido, da canção de Rui de Castro. Altura ideal, portanto, para lhe dedicar umas palavras. Rui de Castro habitou em Londres na década de 70, desenvolvendo as actividades de músico (The Warm) e editor (Warm Records, 1976). Nos anos 80, deu-se o regresso a Portugal, que não podia ter sido mais frustrante devido à tentativa gorada de fundar no país uma editora independente, impossibilitada por causa das forças de bloqueio do sistema fonográfico da época. Para escalpelizar todo esse desânimo, Rui de Castro seguiu pela via da música e surgiu a feitura do single “O Pirata (Pirate Rap Attack)”, em Lisboa, no ano de 1984 e que conheceria edição em 1985. O disco é um marco na música portuguesa pelo pioneirismo ao nível do electro rap! Com um discurso satírico, impregnado de revolução, Rui de Castro faz a apologia da diferença e da auto-determinação. Em 1984, quantos dos nomes de ouro do rap americano já davam cartas? No entanto, o “pequeno português” já fazia isto! Recorde-se que em Portugal as primeiras manifestações de rap conhecidas datam dos anos 90. Isso mesmo! Com Rui de Castro há uma nova História para contar do Hip Hop em Portugal. Ya! Meu! Tá fixe! Meu!

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Pedaço de Saudade: Black Company - Nadar

Parece que foi ontem, não é? Quem não se lembra de trautear este clássico do rap português vezes sem conta? Black Company conseguiu realizar um êxito que contagiou Portugal inteiro, adensando entusiásticas expectativas em relação àquilo que poderia ser o rap no nosso país. Nem tudo correu pelo melhor no período pós-Rapública mas o que é certo é que o tema foi um marco do rap lusitano. Volvidos quinze anos, é com muito gosto que aqui o recordamos.

sábado, 30 de maio de 2009

Biofonia: General D

General D – nome artístico de Sérgio Matsinhe – nasceu em Moçambique, na antiga Lourenço Marques que conta hoje com a designação de Maputo. Saiu do ventre de sua mãe no dia 28 de Outubro de 1971, experimentando a potência das suas cordas vocais pela primeira vez neste mundo. Quando sorvia há dois anos apenas os perfumes do país da marrabenta, a sua família decidiu viajar para Portugal. Assim, foi nos arredores de Lisboa, capital portuguesa, que o pequeno Sérgio Matsinhe cresceu. A sua juventude foi bastante activa. Na escola, a performance de Matsinhe foi francamente boa. A aptidão escolar estendeu-se ao desporto, constando-se que coleccionou algumas meritórias distinções no atletismo.

A sua sede por África levou-o a vasculhar as suas origens. Ao interesse e à inspiração que lhe provinha dos costumes africanos, General D acrescentou-lhe o ritmo e a essência do rap. Nele encontrou uma forma de se exprimir individualmente mas também era um veículo privilegiado para afirmar a sua africanidade. As preocupações de ordem social e política iriam conduzi-lo ao vínculo com movimentos ligados aos direitos das minorias e ao racismo, sendo inclusive candidato a deputado para o Parlamento Europeu pelo antigo partido “Política XXI”.

Nos alvores da década de 90, General D é já um dos grandes dinamizadores e pioneiros, pois claro, do rap em solo luso. Em 1990, organiza mesmo o primeiro festival de rap em Portugal. Tal acontecimento teve lugar na “Incrível Almadense”, na cidade do Cristo-Rei. De entre o leque de convidados para este evento destacaram-se Black Company, African Power e o próprio General D. Em 1993, tornar-se-ia o primeiro rapper nacional a assinar um contrato discográfico. General D afiliou-se à EMI-Valentim de Carvalho. Passado um ano, saía o EP “Portukkkal é um Erro”. Devido à novidade e ao carácter explícito das letras, Portugal recebeu mal o trabalho do artista. Todavia, a implantação do rap em Portugal estava feita e o nome de General D figuraria para sempre no livro de honra do rap em Portugal, em virtude do seu pioneirismo. O abalo que General D provocou extravasou mesmo as fronteiras de Portugal.



Em 1995, General D inicia um périplo de concertos cujos momentos altos foram a actuação no Festival Imperial, na cerimónia de entrega dos prémios do ainda jornal “Blitz” e na Festa do Avante. Ainda nesse ano, é editado o seu álbum “Pé na Tchôn, Karapinha na Céu”, gravado por General D & Os Karapinhas, contando com a produção de Jonathan Miller. Derivando pela pop e pelos sons afro, o rap de General D foi agora bem recebido pela crítica, particularmente o tema “Black Magic Woman”. Com África sempre no pensamento, a música de General D obrigatoriamente teria de emanar essa estética continental, como se cada nota musical contivesse os sabores e exalasse os cheiros de África. Deste modo, tornava-se claro que o rapper pretendia partir do tambor africano até ao rap. Afro-rap, naturalmente. O ano de 95 foi de tal forma fértil para General D que ainda teve tempo para participar com os temas “Intro”, “Olhar para Dentro” e “Timor” no álbum «Timor Livre». Disco este que foi resultado de um espectáculo no Centro Cultural de Belém em que se prestou tributo e se demonstrou solidariedade em relação ao povo timorense.


Chegou 1997 e General D, após concertos dados dentro e fora de portas, edita “Kanimambo”, cuja produção esteve a cargo de Joe Fossard. Daqui para a frente as aparições de General D foram esporádicas. Participações com Ithaka (“Erase the Slate of Hate”), com Fernando Cunha, membro dos Delfins, (“Pensamento Circular”), e nas colectâneas “Sons de Todas as Cores” e “Onda Sonora”. Foi tudo o que General D nos deu a ouvir. Não sei se se retirou definitivamente, se está a fazer uma longa pausa ou sequer se pensa regressar ao rap. O que sei é que é uma pena que não se tenha mais ouvido falar dele.



General D afirmou em várias entrevistas que não gostava que lhe colocassem o rótulo de pai do rap português. Tal recusa devia-se ao facto de General D pretender que o movimento, que dava os primeiros passos no nosso país, fosse unido. Assim, recusava liminarmente hierarquias, preferindo que se sentisse um clima de “irmandade” – palavra usada pelo próprio General D. Precursor, activista do movimento, General D deu-nos uma óptima lição sobre como viver a música. Pela africanidade que tanto prezava, nada melhor do que lhe agradecer em Ronga, idioma originário de Maputo: Kanimambo (obrigado) General D!

sexta-feira, 13 de março de 2009

Era Uma Vez...

... O Hip Hop, que se deu a conhecer em Portugal sob os auspícios do breakdance. Recuando nas folhas do calendário, foi com o raiar dos primeiros anos da década de 80 que se terá mostrado em terras lusas. Remontando a essa época, portanto aos 80’s, o breakdance em Portugal aparenta ter surgido como uma espécie de moda celebrizada por alguns filmes e concursos de televisão dedicados a essa temática. Esgotado o período da descoberta e da adesão de vários jovens lusos ao breakdance, num período curto compreendido mais ou menos entre 1983 e 1985, conclui-se que se tratou efectivamente de uma moda que, como o próprio nome indica, foi passageira. Apesar da confirmação da sua presença em Portugal, existe uma certa relutância em determinar o breakdance como a primeira manifestação do Hip Hop em Portugal, visto que os breakdancers moviam-se não ao ritmo do rap mas sim ao som do break-beat. Em suma, o desgaste rápido a que foi sujeito o breakdance, nesse tempo, não lhe terá permitido atingir, por cá, o âmago daquilo que é o movimento Hip Hop, tendo-se ficado somente por uma mera manifestação isolada, que não englobou todas as outras vertentes da cultura Hip Hop. O breakdance apareceu e desapareceu com a mesma velocidade, sem possibilidades de deixar as sementes necessárias, nesta terra lusitana, para que o Hip Hop, enquanto movimento aglutinador de formas várias, começasse a brotar.

As primeiras colunas em Portugal, quer as das aparelhagens quer as dos corpos, a mexerem-se em virtude do ritmo e poesia, vulgo rap, foram invariavelmente alimentadas por cassetes importadas de artistas norte-americanos. Os nomes de Public Enemy ou Run DMC trouxeram a novidade a Portugal. Com eles, passou a existir quem pronunciasse a palavra “rap” entre nós, particularmente nos subúrbios de Lisboa. Exactamente, na zona geográfica do país onde, em finais dos anos 80, viviam mais imigrantes oriundos de África, em especial dos PALOP’s. O paralelismo que pode ser feito entre as situações dos negros da América e a dos negros em Portugal terá contribuído decisivamente para que o rap surgisse primeiro nesse ponto do país, nomeadamente no Miratejo. A discriminação, a exploração laboral, as miseráveis condições habitacionais, a deficiente integração em Portugal, a imputação do fenómeno crescente da violência juvenil, terá levado a que os jovens luso-africanos vissem no rap a forma ideal para contestarem as injustiças de que eram vítimas e a defenderem-se dos ataques de que eram alvo.

Se Guimarães é o berço da nacionalidade, foi no Miratejo que teve início a RAPública portuguesa. O Miratejo é a capital, o sítio emblemático, do rap nacional, tal como o Bronx o é nos Estados Unidos da América. A identificação com a mensagem dos rappers americanos fazia prever que os futuros rappers portugueses abordassem alguns dos tópicos desenvolvidos pelos naturais da América e encontrassem pontos comuns entre as suas vidas, apesar dos países serem diferentes e não se situarem sequer no mesmo continente. Era a prova de que o Hip Hip estava predestinado a ser universal.

Os rappers lusos não esmoreceram perante as dificuldades em serem ouvidos nem, ao depararem-se com os parcos recursos, perderam o sonho de tornar real esse fenómeno que vinha dos States. A improvisação não acontecia só nas rimas. Ela também se fazia sentir no suporte às palavras, em que preferencialmente se recorria ao beatboxing. O Hip Hop nascia em Portugal, sem uma data precisa mas com lugar determinado, o Miratejo; com gente que encontrou empatia e inspiração lá longe e pôs isso aqui em prática; gente que foi alimentado esse pouco até ele se formar numa base segura, de modo a que, mais tarde, se pudessem projectar outros sonhos.

O caminho prosseguiu. Arranjaram-se meios para se passar a mensagem, que se queria crua e forte para entrar de rompante nos ouvidos dos distraídos. O calão é introduzido nas letras de rap, palavras de origem africana também. A mensagem tinha de ser simples, directa, produzida de forma original. Sucede-se a difusão do rap através dos primeiros programas de rádio que cobriam o que os repórteres das ruas tinham para contar. Surgem os primeiros trabalhos: Da Weasel apresentam o EP “More Than 30 Motherfuckers” (1992) e General D, por seu turno, lança igualmente um EP intitulado “Portukkkal” (1994). As gargantas não mais se calariam.

Proveniente dos Estados Unidos da América, o rap inaugurou-se naturalmente com a língua inglesa. Em Portugal, inicialmente, esboçou-se o recurso a um certo hibridismo entre o inglês e o português nas letras de rap. Até se fizeram letras exclusivamente em inglês. Pese a estranheza inicial de se adaptar o rap à língua mãe, o rap em português teve o seu atestado de competência com um MC proveniente também das Américas, mas este vinha do Sul. Brasil, mais concretamente. Gabriel «O Pensador» invadiu Portugal com as suas rimas feitas em português brasileiro. O nosso país confrontava-se com uma mensagem perfeitamente credível, efectuada em pleno com o recurso à língua portuguesa. As rimas no idioma de Camões possuíam o mesmo poderio que as suas irmãs americanas e tinham a vantagem de serem perfeitamente inteligíveis por todos os portugueses. Quebravam-se barreiras, expandiam-se possibilidades. O movimento consolidava-se, ganhava cada vez mais adeptos, o assédio mediático aumentava.

Desta história, ainda fica bastante por contar. O HIPHOPulsação tentará aprofundar mais sobre esta matéria noutras oportunidades. Por agora, quisemos assinalar que desde os primórdios até hoje o Hip Hop foi-se estabelecendo, com um trajecto que teve os seus altos e baixos mas que contemporaneamente frutifica graças aos bravos que heroicamente o ousaram introduzir neste país e que se mantiveram irredutíveis na preservação da sua essência e existência. Para eles, a nossa vénia!

terça-feira, 10 de março de 2009

BIOFONIA: Black Company

A poesia negra

Considerados por muitos os avós do rap nacional (tal como sucede com Kool Herc e Afrika Bambaataa em relação ao movimento hip hop nos EUA, hoje universal), os Black Company nasceram com o movimento em Portugal, retiraram-se aquando do seu crescimento e regressaram com um estilo adequado à época.

Voltando duas dezenas de anos atrás... Foi nas ruas que Maddnigga aka Bambino, Bantú aka Guto e companhia começaram por fazer o que na altura por cá não se ouvia na língua de Camões: rimas faladas em cima de batidas. Obviamente ainda embrião, o rap que inicialmente se apresentava em concertos por esse país fora era sobretudo um jogo de palavras tão puro quanto o mais natural possível. E (naturalmente) ainda pouco compreendido, conhecido e até respeitado em Portugal, o rap dos Black Company sofreu um revés quando, após três anos do seu nascimento, o grupo separou-se. Mas tão rápido quanto o seu desaparecimento foi o regresso de Guto, Bambino e Tucha como Machine Gun Poetry. Desse grupo só restaram mesmo os três elementos, até porque o nome viria a ser mudado definitivamente para Black Company. Makkas e KGB juntaram-se então à formação.

A Rapúblicação de uma Geração Rasca

Depois do primeiro concerto, o grupo da Margem Sul conseguiu espalhar a sua mensagem até chegarem à tv. Daí a virar gravação passou um ano. Em 1994, os Black Company juntaram-se a Boss Ac, Zona Dread, Family, entre outros, numa compilação que marcou tanto uma geração de mc's como uma época de apreciadores da arte que actualmente já apaixona milhões por esse mundo inteiro. A colectânea 'Rapública' ainda hoje é dos álbuns mais vendidos de rap em português. Com esse estrondoso e (talvez) inesperado sucesso, lucraram os rappers que nela deixaram o seu testemunho, lucrou o hip hop nacional e lucraram os Black Company, obviamente. A faixa 'um' ('Nadar') retirada desse cd acomodou-se nos nossos ouvidos e de lá não mais saiu. A não ser quando a letra andou de boca em boca até se consolidar como o primeiro grande clássico do nosso rap. Um ano após esse verão escaldante, ninguém ficou admirado que Bambino e seus manos imortalizassem em disco as suas rimas e batidas. 'Geração Rasca' surgiu com muita expectativa mas desapareceu com falta de reconhecimento. Mesmo assim ficaram faixas como 'Abreu' e 'Geração Rasca'.

Os Filhos fora de série!

Apostados em voltar a retribuir solidamente tudo que de bom o hip hop lhes proporcionava, e depois de três anos em rotação nacional, os Black Company reuniram tropas pra bombardearem-nos com o segundo disco oficial do grupo. 'Os Filhos da rua' saiu directamente para as prateleiras dos críticos e adeptos do movimento. Temas como 'Gina', 'Chico Dread' ou 'Genuíno' ajudaram definitivamente o grupo a marcar o seu território no rap tuga. O hip hop era escutado, era reconhecido, mas, sobretudo, era respeitado!

Sem razão aparente, os Black Company desapareceram do activo. Pelo menos colectivamente, já que continuaram a participar em vários projectos, quer a nível de produção, quer a nível de pequenas participações. Guto abrilhantou o seu caminho a solo com uma parceria discográfica com Boss AC. 'Private Show' foi a contribuição do duo para uma nova abordagem no rap português que passava pelo R&B e a Soul. Seguiram-se 'Chokolate' e 'Corpo e Alma' no repertório de Guto, projectos notoriamente influenciados pelo lado mais soft do rap.

Durante os últimos anos, o rap vem fazendo-se ouvir cada vez mais. E é notório que o movimento hip hop vem sendo cultivado e progressivamente consumido por um número cada vez maior de pessoas, embora nem sempre pelos motivos mais endógenos. Aproveitando este 'boom' da atenção e propaganda dada a este estilo, os Black Company regressaram o ano passado com 'Fora de Série'. Já sem KJB (actualmente na Holanda), os 'filhos da rua' apresentam-se agora num estilo menos old school e mais na onda party. 'Só Malucos' foi single de apresentação e teve direito a participação de Adelaide Ferreira.

Pode-se dizer que os Black Company cultivaram a semente do movimento hip hop em terras lusas, viram crescer o produto (quase) por fora, e voltaram para colher os seus frutos. Nada mais justo.