J-K - "Aperitivos"
Mixtape "Armadura Brilhante" (2011)
Realização vídeo: Tiago Lessa e Pedro "Stray" Tavares
PULSO – “Gillettes, Papéis e Outros Objectos Cortantes”
J-K – “Armadura Brilhante”
O rap de J-K é o habitáculo dos proscritos. A sua música é o elogio do sociopatismo que borbulha em cada um de nós. À deriva no mundo, aborta a missão de nele se integrar. Periférico que prefere orbitar num planeta ao lado. O seu. Livre do compromisso social, não tece afinidades com a hipocrisia, a falsidade ou a formatação. O mundo, a vida, para J-K não é nada mais nada menos do que um circo, um parque de diversões, o palco dum mágico, uma mesa de poker, mesmo a preceito para um valente bluff! É disso que se trata: o brilho ilusório que nos encandeia.
Tempestade verbal. Salpicos de soturnidade ecoam nas rimas, apesar do revestimento sonoro maioritariamente positivista. Talvez porque em J-K nem só a instrumentalização viva de esperança. Jota atira rimas como quem lança “bolas de fogo”, incandescentes jactos de impetuosidade, contra a cara de quem ouse zombar das suas... meias com raquetes. Mas ele é também o recém-adulto que – arrisco – guarda ainda as cinzas do seu caderno de “puto revoltado”. Ou seja, a rebeldia adolescente incorporada num corpo de adulto, ainda que sustentada em resíduos cremados, pode simbolizar as tais “duas sementes brancas” que renascerão como a esperança de se ser alguém melhor, com um «propósito maior». Para isso, basta activar-se o “íman” que cada um carrega no seu coração para que se facilite o encontro com o outro lado, viveiro de humanidade quente onde está instaurado o não-tempo.
O sonho hiberna. Pensar dói. Se alguém fizer uma oferta financeira maior, já não se compra nem o sol nem a lua. Como respirar então? Viver mais um minuto é perder mais 60 segundos de vida. Vêm as visões lúgubres, desfiadas, as intermitências da morte, o regresso à tona pelo vómito da alma... e da cachaça. Adia-se o inevitável. J-K atravessa por tudo isto e sabe como são estéreis os auxílios médicos perante todas as ausências. A solução é organizar, com Stray, um festim trágico-cómico e dar-se o K.O. definitivo na vida. A não ser que o Amor atenda o telefone, não é?
Até que era uma boa ideia matar-se o tédio assassinando o prédio. Mas depois seria inevitável a culpa. É certo que a incansável vigilância da consciência, que traça radiografias, pode reprimir o indivíduo. Mas mesmo aí tem de se avaliar a “perspectiva”. E ela tem de flutuar de acordo com a nossa conveniência. Ora, não beneficiava nada o Jota Kapa ser preso por matar o prédio (e não o pai, atenção!) se nele emergem qualidades que o tornam importante. «Rasgar batidas com frases imperfeitas/ Até o mundo respeitar as nossas caras feias». Rima da semana, com pitada de humildade e determinação? “Não sou cínico, só guardo tudo cá dentro/ Fiz uma barreira de cimento entre a expressão e o pensamento”. Rima do mês, com brilhantismo em potência, inventividade e qualidade certificadas? Sem focar a ironia, a densidade, a intensidade, as alucinações saudáveis, catárticas, a coragem, a profundidade. Tudo explanado por J-K, sob batidas de muito bom gosto e que bem complementaram e desafiaram até o rapper. Refiro-me à luminosidade de alguns instrumentais que assim contrastaram com o tom nublado de J-K, resultando daí um interessante e primoroso encaixe. Maestro lírico, talvez incompreendido, mas que é simpático pelo convite que nos faz.
- Se estiveres por cá, fala comigo, toma um chá, adjectiva, relativiza, verbaliza à tua vontade, ya?! Vamos pegar nas situações e brincar com elas. Dialogar, no fundo, é abrir mais janelas.
Para estrear o site da Monster Jinx (http://www.monsterjinx.com/), nada melhor que disponibilizar um EP para download gratuito. Foi assim que pensou e consumou Jinx, o manda-chuva da etiqueta mais garrida de Portugal. J-K é assim lançado às feras (ou aos monstros?) com este "Complexo de Inferioridade". Um EP para ouvir com atenção e, claro, sem complexos. É assim que farei. Mas enquanto se processa o download e os meus ouvidos se aperaltam para receberem a música, deixo a catita nota sobre o EP de J-K, que não sei se o Jinx a terá encomendado a alguém ou se foi ele mesmo que a redigiu:
O rapper J-K é um protegido da Monster Jinx e a saída do seu EP "Complexo de Inferioridade" está em contagem decrescente. Enquanto as restantes faixas são um segredo bem guardado, oiçam o tema "Cara de Poker". Sem complexos!