Tal como o Sam The Kid relata no final deste vídeo (captado numa actuação ao vivo), a música "Pois é" andou - embora camuflada pela net - a salivar nos fãs de Hip Hop que a ouviam e prontamente se questionavam donde é que esta relíquia teria saído e em que circunstâncias ela se deu. As interrogações desvaneceram-se quando se soube que ela constituía uma das 17 faixas do novo disco do cantor, compositor (de Ana Moura, por exemplo) e poeta Jorge Fernando, que dá pelo nome de "Vida". O fadista acumula 34 anos de carreira, marcada aos vinte pela sua iniciação como guitarrista de Amália Rodrigues.
Esta relação - que se saúda- de rap com fado está longe de ser fresca. Não é novidade nenhuma ouvir-se em produções nacionais a guitarra portuguesa lado a lado com o instrumental. Este assunto, aliás, já o abordamos num post escrito nos primeiros dias de vida do blog. Para recordar aqui.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Jorge Fernando e Sam The Kid - Pois é
quarta-feira, 25 de março de 2009
Hip Hop + Fado = Excelência
O Hip Hop é um corpo insaciável e curioso. Em tudo bebe, em tudo arrisca e mexe, para se tornar maior e melhor. A experimentação sonora desenvolvida no Hip Hop é bastante saudável, pois a capacidade que ele adquire em absorver os vários géneros musicais oferece-lhe soluções ilimitadas. Não há barreiras, a liberdade é a palavra de ordem. A influência do Funk, do Jazz, da Soul, passando pelos Blues, Rock, música brasileira, música indiana, entre outras, é por demais evidente no Hip Hop, a nível global. Mas então e o Fado, estilo musical marcadamente português, poderá apaixonar-se ou deixar-se arrebatar definitivamente pelo Hip Hop?
Ousando responder, eu diria que sim. A mescla entre o Fado e o Hip Hop tem-se vindo a intensificar nos últimos tempos. Quando os mágicos das batidas dotam o Fado de uma nova vida, o resultado é sempre surpreendente. Inicialmente, à novidade, poder-se-ia chamar “Estranha Forma de Vida”. Porém, tal como diz o poeta, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. O que acontece é que a música transpira originalidade. Deste cruzamento, o Hip Hop sai reforçado em portugalidade, devido aos condimentos únicos emprestados pelo Fado.
Há quem diga que a alma lusitana se encontra na guitarra portuguesa e não nas vozes do Fado. Sem querer enveredar por essa discussão, subscrevo apenas que a fusão quer entre as batidas e as vozes dos fadistas, quer entre as batidas e o choro das guitarras do Fado, fica sempre muito bem. Solta-se uma frescura ímpar. Nesta feliz parceria, há exemplos de canções em que a simbiose é plena. É o caso de Sam The Kid que nos emociona na fenomenal canção “Que Estranha Forma de Vida”. Samuel Mira encantou-nos ainda com o excelente tema “Viva!”, em homenagem a Carlos Paredes, e na colaboração que materializou com Jorge Fernando em “Pois é”. Recentemente, Boss AC e Mariza brilharam em conjunto no poderoso tema “Alguém Me Ouviu (Mantém-te Firme)”. Estes são apenas alguns exemplos, talvez os mais conhecidos, da união entre o Fado e o Hip Hop. O que ressalta em todos é a agradável sintonia e a excelência do resultado final.
Em Portugal, o Fado é claramente um rico e belo filão para os criadores de batidas. No exterior, o Fado, para além de continuar a ser admirado, já despertou a curiosidade de Exile, que usou um sample de Mariza, no tema “The Sound is God”. Sabe-se igualmente que DJ Premier já tomou contacto com o Fado, pois numa visita a Portugal foi presenteado com um disco de Amália Rodrigues, uma cortesia de D-Mars. Espera-se pois ouvir, um dia, um instrumental de Preemo com o Fado como elemento principal. De mãos dadas, Fado e Hip Hop, um matrimónio para vida. Com certeza.