Mostrar mensagens com a etiqueta Sagas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sagas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Maze e Terrorismo Sónico @ Porto-Rio (08/10/2011)

8 de Outubro de 2011. Foi este o dia, ou melhor, a noite, que cravou o ressurgimento discográfico de Terrorismo Sónico nas ruas do Porto (isto depois de uma primeira aparição no dia anterior, em Santo Tirso). Mundo e Ex-Peão são os dois rostos e vozes deste projecto que até este ano de 2011 tinha gerado apenas um trabalho há precisamente dez anos atrás, o álbum “1º Assalto”. A festa do último sábado no Porto-Rio serviu de apresentação ao segundo registo desta dupla história do rap tripeiro com um título que dispensa justificações: “2º Assalto”. Para o seu lançamento foram convidados: Maze, Sagaz, DJ Guze e DJ A.C. (ACTS). Chullage seria certamente outra ilustre presença caso não lhe tivesse surgido, para a mesma noite, outro compromisso inadiável.

Como é hábito em qualquer festa hiphopiana, foi um dos DJ’s de serviço que abriu as hostes, neste caso DJ Guze. Guze estendeu o seu set até por volta da 1h30, altura em que se iniciou o primeiro round, que é como quem diz, a primeira actuação. Maze, novamente em missão a solo (ou quase), surgiu com a descrição e segurança que lhe são reconhecidas e com alguma dose de bom-humor, anunciando a cada passagem de tema o novo álbum de Dealema (com lançamento público assinalado para Dezembro). No piso inferior do barco mais festivo da margem portuense do Douro, Maze jogou pelo seguro, com as faixas de cunho pessoal que o público melhor conhece. Exemplo disso, “Lágrimas de Gratidão” (da compilação “Roka Forte Vol.1”) ou “Brilhantes Diamantes”. Por outro lado, também foi buscar ao baú Dealemático dois êxitos, “Sonhar Acordado”, com a colaboração de Mundo, e mais tarde também Ex-Peão se juntaria a Maze para o eclodir de “Bofiafobia”. Pouco depois terminaria o showcase de cerca de 30 minutos, sem falhas, com boa disposição e uma boa empatia com a plateia presente que esteve, contudo, longe de encher a sala.

A rondar as 2h15, Mundo e Ex-Peão subiram ao ringue (leia-se palco) para o despontar do “2º Assalto”. De logótipo “terrorista” estampado no peito e sem ninguém nos pratos, os dois MC’s embarcaram no Porto-Rio com a lição bem estudada. Antes de trilharem o segundo disco fizeram questão de invocar o primeiro. Invadimos o palco/Ponham já as mãos no alto/Isto é um assalto. O grito de guerra elevado por dezenas de pulmões pôs desde logo o barco em polvorosa. Após o tema de abertura, entrou então em rotação o “2º Assalto”. Num primeiro contacto, este segundo trabalho de Terrorismo Sónico revela-se mais consciente e maduro (como seria de esperar) e menos cru. “Calão Distinto” foi provavelmente o som do novo repertório que maior receptividade recolheu.

Sagaz foi convidado de honra na performance de Terrorismo Sónico. Com uma bela participação na faixa “Desliguei a Máquina” (responsável por 16 barras e refrão), Sagaz claudicou um par de vezes na letra, falhas que Mundo e Ex-Peão prontamente colmataram, mas que não impediram o lisboeta de sair cabisbaixo do palco. À parte dos dois “Assaltos”, Mundo e Ex-Peão trouxeram sons a solo para loucura (literalmente) da audiência e ainda remisturaram o clássico “Bairro” de Ex-Peão com “Eles Andam Ao Cheiro” de Mundo. Para fechar em beleza, ou melhor, em histeria, marcaram um encore com “Lei da Ruas”, talvez o tema mais hardcore com selo Terrorismo Sónico. Não tivesse o barco atracado à margem e nessa altura teria certamente se deslocado dali com a agitação humana que se gerou no piso inferior. Findadas as actuações, DJ A.C. fechou o tasco.

Em suma, foi uma noite onde todas as boas previsões se cumpriram, exceptuando talvez o facto de a plateia ter sido um pouco menos numerosa do que se esperaria. Maze cumpriu as perspectivas, numa altura em que começa a ser evidente a falta de temas novos que dêem uma lufada de ar fresco nos seus concertos de cariz pessoal, isto apesar do MC ter normalmente poucas actuações sozinho. O duo Terrorismo Sónico abriu e fechou o show com as duas malhas mais pesadas do primeiro disco, desvendou o novo como se já se tratasse de um clássico e ainda teve a feliz ideia de juntar sons que marcaram o percurso de ambos a solo. Perfeito.

Texto: Sempei
Fotos: Ana Mendes



quarta-feira, 8 de junho de 2011

15 anos de Micro @ 23 Junho, Hard Club

D-Mars, Sagas e DJ Nel'Assassin formaram nos meandros dos anos 90 um dos projectos precursores do rap nacional que contribuiu bastante para a solidificação do mesmo. Embora nos últimos tempos se tenham debruçado em trabalhos a solo, os Micro estão a festejar 15 anos de vida, tendo já soprado as primeiras velas no Musicbox, em Lisboa, no passado sábado. Mas a trindade de Microlandeses também vai trazer o bolo e o champagne para o Hard Club, no próximo dia 23 de Junho, precisamente dia de São João na Invicta, numa festa que contará igualmente com a presença de Fuse, Sensy e Ruas.

"Respeito" é um dos temas que mais marcou a carreira de Micro e é, no fundo, respeito que se exige perante estes três pioneiros do rap português.



Em Lisboa foi assim (04/06/2011):

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Reportagem: 1ª "Hard Club Hip Hop Sessions" (22/10/2010)

Nos finais da década de 90 – considerada a época dourada do Hip Hop – surgia em Portugal a primeira versão das então denominadas “Nova Gaia Hip Hop Sessions”, muito graças à intervenção decisiva de Mundo Segundo (um dos grandes impulsionadores da cultura Hip Hop no nosso país). Ao longo de cerca de dez anos, o Hard Club foi um importante berço para inúmeros artistas, numa altura em que grande parte deles ainda gatinhava no rap. O espaço foi, com o passar do tempo, adquirindo o simbolismo de uma espécie de Meca do Hip Hop nacional situada a norte, numa época em que o Hip Hop português ia também ele ganhando notoriedade no panorama musical.

Porém, as festas que se tornaram míticas na promoção da cultura (até porque não só abrangiam o MC'ing, como também as restantes vertentes) teriam a sua última sessão em 2006. Desde aí, as “Nova Gaia Hip Hop Sessions” passaram a ter vida apenas na memória de todos aqueles que as testemunharam e que dificilmente esquecerão o fervor daquelas noites. O Hard Club, esse, por muito que aguardasse por novas edições, acabaria destruído (por razões que o tempo apagou) e abandonado, restando-lhe a bela paisagem do Rio Douro como consolo. Com o edifício não só se ruíram momentos históricos do Hip Hop português como também de outras faunas musicais, fruto do enorme ecletismo do espaço.

Na última sexta-feira, dia 22 de Outubro de 2010, o Hard Club voltou a abraçar uma "Hip Hop Session", não só refeito no nome das novas festas, como também na sua localização, que o dista das velhas instalações pouco mais de uma ponte. Gaia já faz parte do passado, tal como o Mercado Ferreira Borges, edifício histórico do Porto que mantinha as prácticas de animação cultural após o término do dito mercado e que continuará com os mesmos pretéritos agora como Hard Club. A mudança do espaço físico será mesmo a única alteração desejada, esperando-se que o HC marque as noites portuenses tal como marcou as de Gaia. Desejo esse que se estende, obviamente, ao Hip Hop, que até já teve a sua primeira grande festa há cerca de duas semanas, na memorável noite de sexta-feira, dia 8 de Outubro.

E que tal estrear o primeiro capítulo das "Hard Club Hip Hop Sessions" com velhos conhecidos dos antigos serões? Dito e feito. Body Rock Crew (DJ D-One, Deck'97 e Maze), M7, Barrako 27 (com DJ Guze), Sagas (com DJ Nel'Assassin) e Terrorismo Sónico (Mundo e Ex-Peão). Todos estes elementos conheceram de perto (uns mais que outros) o palco de Gaia, e todos eles esperariam, por certo, entrar com o pé direito na nova casa. Dito e feito, novamente. Na pista esteve ainda o colectivo de B-Boys Zoo Gang e, num palco exterior à sala, Mr.Dheo representou as cores do graffiti.

Com o despertar marcado para depois da meia-noite, a festa começou algo fria. Na tentativa de aquecer o ambiente, esteve o trio Body Rock Crew que, como vem sendo recorrente, foi chamado para agitar o início, os intervalos e o fim do espectáculo com as suas malhas carregadas do bom gosto que o caracteriza. Poucos eram os presentes no interior da sala 1 e já Mr.Dheo coloria no exterior três telas alinhadas para o efeito. Verdade seja dita: o primeiro impacto de quem entrava no edifício era da performance do writer de Gaia, no entanto, a mesma parecia simultaneamente algo distante da festa devido à localização do palco de actuação. Quem lá se dirigiu pôde atestar bem de perto um pouco da habilidade de um dos mais simbólicos writers de Portugal.

Com a sala principal ainda pouco povoada, os Body Rock Crew deixaram os pratos para DJ Nel'Assassin, que veio para acompanhar Sagas mas também para riscar discos a solo. Maze foi o host da noite, e foi ele a chamar M7 ao palco. Pode-se dizer que a actuação da MC foi mais do mesmo. E isso é mau? Não necessariamente. Com M7 esteve a companheira do costume (Capicua) e das colunas saíram os temas do costume, da mixtape do costume ("Martataca"). E porque é que a performance não foi aborrecida? Porque M7 não é aborrecida, tem tudo menos falta de força e genica, é capaz de atrair a atenção de uma sala inteira e revela boa escolha de instrumentais.

Foi com "Rainha" que se deu a primeira trinca nas palavras apimentadas de Marta Isabel a.k.a. M7. Se havia alguém na plateia que nunca tinha provado o sabor das suas rimas, por certo se alarmou num instante. Insurrecta como sempre, M7 não é mulher de falinhas mansas, bem pelo contrário, facto que pode agradar a gregos mas não a troianos. Já a colega Capicua é o oposto, o que acaba por servir como complemento. Mais cuidadosa naquilo que diz, Capicua também exibiu, por exemplo, a faixa "7 Dias", da sua mixtape "produzida" por DJ Premier. Numa actuação conjunta que teve os seus altos e baixos a nível de correspondência do público, M7 e Capicua contaram com DJ D-One nos pratos e acabaram em clima de festa ao som de "Ooh Wee" de Mark Ronson.

Intervalo no palco, início de show na pista. A plateia agita-se, forma num ápice uma roda onde os elementos do Zoo Gang se posicionam. Ao longo de largos minutos os B-Boys acariciaram o solo da forma menos ortodoxa possível, pois é daí que provém o espectáculo. Ao som de batidas que nos relegaram aos tempos primórdios do Hip Hop, a exibição de Zoo Gang foi um regalo nesta noite de cerimónia, embora a actuação não fosse visível a todos os presentes (só mesmo para quem cercou de perto a roda). Verdadeiro espírito de festa de Hip Hop! Seguiu-se Barrako 27, com Speg e seus tropas. À espera deles estava uma legião de adeptos que desde o primeiro minuto se fez ouvir na sala. Com uma entrada encenada com percussionistas e uma violinista, Barrako 27 partiu para um concerto emotivo e bem acolhido em grande parte da audiência, que, a esta altura, já ultrapassava a meia lotação (que ronda as 800 pessoas).

"De Cabeça Erguida" é um dos últimos trabalhos de Barrako, em parceria com DJ Guze, mas o alinhamento não se limitou ao EP, nem podia. "Abraço Forte" foi provavelmente a passagem mais sentida de todo o show, pois teve o condor de fazer Né descer do palco até junto dos seus seguidores e, rodeado dos mesmos, debitou as rimas dessa faixa incontornável do seu repertório. Nota para a interpretação do jovem Koffy Jr. (do colectivo trofense TRF) em "No Fundo (Do Túnel)" e para o êxtase e interacção constantes com o público em outras faixas como "Bla Bla Bla". Antes da retirada de Barrako 27, eis que dispara o som que todos aguardavam ouvir naquele preciso momento: "Saudoso Hard Club", pois claro. A plateia fez Né sentir-se verdadeiramente em casa, o que o deixou visivelmente feliz e emocionado e com o ego elevado. A prová-lo está a tirada a dada altura do concerto: "Depois de Dealema, eu fiz o melhor álbum português!".

De Carcavelos até à Invicta, Sagas veio trazer uma nova fragrância ao Hard Club, sem sotaque tripeiro mas com uma mistela de português e crioulo. Nada que fizesse confusão aos presentes. A sintonia entre o rapper e Nel'Assassin é evidente e reflecte-se na performance de ambos. Não foi um show só de Sagas mas também de DJ Assassino. Este último pôde dar a conhecer algumas malhas da mixtape "Mike Phelps" que, garantia do próprio, estará (finalmente) para sair em breve. Nela, o DJ e produtor irá revelar uma outra faceta: a de MC. Compelido por uma batida de Alchemist, Nel'Assassin rimou mesmo no Hard Club. O seu talento para as rimas pode ser imberbe mas nem isso o acanhou.

Sagas não trouxe alguns clássicos do seu primeiro álbum a solo, como "Anjo de Luz" ou "Quem És Tu?", mas também desvendou músicas novas. Uma delas, com base instrumental de DJ Ride, conta com um refrão que foi particularmente bem acolhido pelo público. Todo o concerto de Sagas foi pautado por uma animação constante, tendo o MC caído nas graças da plateia pela energia e boas vibrações disseminadas pelas suas canções. No rap de Sagas não mora a rima de teor sexual nem de estímulo à violência, reina antes a mensagem positiva e alegre. Mundo Segundo foi o convidado de honra de Sagas Demolidor para uma breve participação. Já o Sr. Alfaiate foi "obrigado" a participar numa batalha (aparentemente ensaiada) com o percussionista. Bom concerto de Sagas que atingiu um dos pontos altos com a malha "Som Pesado" (do álbum de Assassino "Reconstrução").

A última exibição da noite estava reservada para o duo Terrorismo Sónico. E Mundo e Ex-Peão conseguiram provocar o caos no Hard Club apesar do adiantado da hora e do previsível cansaço dos presentes. Cansaço? Puro engano! Os dois MC's dealemáticos gozam de uma popularidade e respeito na Invicta consolidados ao longo dos anos e, quer a solo, em duo ou em grupo como Dealema, contam sempre com uma fervorosa massa adepta na plateia. Esta tem as letras na ponta da língua e a empatia flui naturalmente. O primeiro álbum de Terrorismo Sónico, "1º Assalto", foi revisitado, mas também foi dado um cheirinho do seu sucessor, "Antes do Atentado". Os clássicos que marcam o repertório a solo de Mundo e Ex-Peão são sempre recebidos com grande impacto. "Pombas Brancas da Cidade" e "Real e Verdadeiro" de Ex-Peão ou "Puro Prazer" de Mundo, todas elas foram cantaloradas em uníssono. Especial foi o enlace de "Eles Andam Ao Cheiro" a meio do beat de "Bairro".

Por muito que se diga que o concerto foi inebriante, enérgico e empolgante, faltarão palavras para descrever a parte final do mesmo. Mundo e Ex-Peão tinham dado por terminado o alinhamento, mas a plateia não queria arredar pé do recinto, muito menos deixar de ouvir a dupla. Ora o desejo de um grupo de ferrenhos adeptos parecia só um: "Lei das Ruas". Desejo concedido, a música foi, não cantada, mas sim berrada a plenos pulmões: "Esta é a lei das ruas, filhos das p*tas!" Este ambiente escaldante deu azo a um endiabrado moche na frente do palco. E foi assim, em brasas, que terminaram as actuações. Daí em adiante a música voltou a rodar nos discos de Body Rock Crew.

Mais uma noite histórica no mês de Outubro que o Hard Club terá para contar mais tarde, isto precisamente quatro anos após o anúncio do encerramento do espaço de Gaia. As "Hip Hop Sessions" começaram oficialmente a agitar de novo a cidade do Porto e o Hip Hop nacional. Ao longo das próximas sessões é de aguardar o desfilar de novos e velhos talentos da nossa cultura, quer do MC'ing, DJ'ing, BBoy'ing ou do Graffiti. Zoo Gang e Mr.Dheo foram os primeiros representantes destas duas últimas vertentes. Body Rock Crew tomou conta dos pratos e dos momentos mortos da festa, que teve Maze como apresentador. Barrako 27 e Terrorismo Sónico foram os nomes mais aplaudidos da noite. Sagas teve uma actuação meritória e M7, apesar de não ter agarrado o público como os restantes, fez o que lhe competia. A sala 1 não esteve lotada mas contou com uma boa afluência. Ainda sem cartaz revelado, o próximo capítulo, diz-se, está para breve. As velhas festas no Hard Club estão mesmo para ficar.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Festival Às 3 Pancadas, Barcelos (20/8/2010) 1º dia

Fomos até à mítica terra do Galo – Barcelos – para vivenciarmos a experiência de um evento que vai na sua terceira edição: Festival «Às 3 Pancadas». Esta cerimónia dirigida aos entusiastas do Hip Hop contemplava sessões de batalha nas modalidades de Beatbox e Mcing, para além de concertos de gente conceituada. Quando chegámos a Barcelos, na noite de Sexta, o relógio ainda não tinha badalado as 23 horas. Numa espécie de antigo anfiteatro grego, DJ Casca fazia circular discos de rap clássico ao mesmo tempo que mostrava toda a sua técnica ao público que ia chegando e se distribuía pelo imenso espaço que subia a pique para quem estivesse em palco.

Pode afirmar-se que no início do espectáculo estava um bom número de pessoas a engrandecer o evento, tendo em conta a imensidão do espaço – ao ar livre e na zona ribeirinha – e contando também com a dimensão da cena Hip Hop barcelense que, apesar de dar mostras de estar em crescimento, está naturalmente ainda longe do enraizamento da cultura nos grandes centros urbanos. No entanto, viu-se público muito jovem, maioritariamente sub-21, pelo que o futuro do movimento deverá estar garantido naquelas terras.

Vamos ao que interessa. Primeiro, a batalha de Beatbox que abriu o festival. Pese embora o atraso do início das actividades, o público aguentou bem e estava com água na boca para o que poderia acontecer. Algumas caras conhecidas do Beatbox nacional, que até já figuraram em programas de TV, foram a concurso e previa-se que a luta talvez fosse desigual a favor destes. Nada mais errado! As exibições e as batalhas de Beatbox revelaram uma super qualidade e um super equilíbrio que, confessamos, muito nos surpreendeu. Terá sido custoso para o júri composto por Woyza, Mundo Segundo e Rui Miguel Abreu nomear aqueles que mereciam seguir em frente. Impossível decorar todos os nomes que participaram (inclusive o júri teve essa dificuldade, já que a organização não providenciou atempadamente o nome, que por vezes era nickname, o que suscitou alguma confusão e demora). Os apresentadores de serviço engonharam muito e não permitiram uma boa fluência do show dos beatboxers, havendo muitas quebras. Após as exibições dos concorrentes, o júri escolheu os melhores para a final (a realizar no dia seguinte) e que nos pareceu ter sido uma decisão correcta e justa, apesar de ter sido certamente árduo decidir. Passaram à final Fubu, Pedro Alexandre, Rizumik, Beats, Robinho e Vítor Hugo. Portanto, nota bastante alta para o Beatbox que teve momentos de grande criatividade, técnica, potência e sobretudo muito equilíbrio.

Seguia-se a batalha de MC’s. Talvez esta gerasse a maior das expectativas. Todos pretendiam destronar o campeão Zeka e sabe-se que na hora de afiar as palavras as coisas podem aquecer muito. Com os candidatos perfilados e apresentados, notava-se a grande jovialidade da maior parte. Ou teríamos ali grandes promessas ou gente com bastante caminho para percorrer. Confirmou-se o segundo caso. Nem a boa prestação de abertura a cargo de Zeka fez com que os outros candidatos se inspirassem e tivessem o seu golpe de asa, esmerando-se na qualidade das palavras debitadas. Com excepção do referido Zeka e de Cálculo, todos os outros candidatos apresentaram-se num patamar bastante fraco. Houve uma batalha em que não sabíamos se havíamos de chorar ou rir com o absurdo do que foi dito! A imaturidade, com excepção de Zeka (ou Zekinha), resvalou para o puro insulto, para a pobreza de vocabulário, para o mero vernáculo e questionamentos de cariz sexual. Foi uma desilusão o nível da batalha de MCing. Previa-se que Zekinha na final não teria dificuldades em ganhá-la.

Já passava das duas horas da manhã, o frio começava a querer estalar os ossos, algumas pessoas debandaram mas ainda havia Woyza e Sagas. A viguense subiu ao palco e pronto: os corações aqueceram, esqueceu-se o frio e partilhou-se o enamoramento desta artista espanhola com o público português. Com uma tribo de indefectíveis a cantar em conjunto com Woyza, esta mostrou-se encantada. Percorrendo os sons do seu último disco, entregou-se com toda a alma possível, deu o seu calor aos presentes e estes retribuíram na mesma moeda. Destaque para a aparição de El Puto Coke que entrou com um freestyle (?) de arrepiar! Muito bom. Woyza esteve igual a si mesma: encantadora na música, afável no trato, espalhando simpatia e admiração por Barcelos.

Após mais ou menos uma hora de concerto de Woyza, Sagas ainda tinha de actuar. Cada vez havia menos público no recinto. O que se compreendia, devido ao clima gélido (relembramos que era ao ar livre) e a hora também já era das mais adiantadas. No entanto, aquelas pessoas que ficaram entregaram-se completamente ao concerto de Sagas e à sua energia. Primeiro, DJ Nel’Assassin desbundou como só ele sabe, a solo, e depois sim Sagas entrou com grande humildade, soube juntar as pessoas e fez um final de festa bem quente como não se pensava que ainda pudesse ser feito. Para isso, contribuiu o leque de temas escolhidos, alguns mais antigos, outros que fez com Nel’Assassin, relembrou Micro e na companhia de mais dois elementos que se juntaram nos batuques e na voz prendeu as pessoas com as boas vibrações difundidas, naquela mistura de português e crioulo e de vários sabores musicais. Certamente que todos os que esperaram pelo concerto de Sagas não se arrependeram.

Em suma, uma boa noite de Hip Hop, com dois grandes concertos, com muitas revelações ao nível do beatbox, com a constatação da fragilidade de muitos MC’s que estão ainda a gatinhar na competição de batalha (esteve-se ali muito distante duma «Liga dos MC’s» brasileira, por exemplo) e alguns reparos para a organização pelo atraso e fraca desenvoltura que deu principalmente na batalha de Beatbox, pois impossibilitou que houvesse maior dinâmica, interesse e ânimo do público.

Cinco e trinta da matina, chegada finalmente à Invicta. No dia seguinte, haveria mais Barcelos para galgar, desfrutar e narrar.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Um dos álbuns do ano em Portugal

É verdade, DJ Ride ainda não tinha passado pelo HIPHOPulsação, mas é um facto inegável que assinou um dos discos do ano na música portuguesa. Justiça seja feita agora, pela nossa parte. Quanto aos apreciadores de boa música, façam o favor de escutar "Beat Journey" de DJ Ride, que tem descarregamento grátis na plataforma Optimus Discos. Ver aqui. Para os mais apressados, sigam esta via. Vejam o vídeo de apresentação do EP de DJ Ride:



"Turntable Food" é o disco de estreia e o que anteceu Beat Journey na discografia de DJ Ride. Fica o vídeo do single desse álbum de 2007, que contou com o convidado Sagas:

terça-feira, 23 de junho de 2009

Cacique'97

Anunciado como sendo o primeiro disco tuga de afrobeat, "Cacique'97" apadrinha a estreia do grupo com o mesmo nome nas edições discográficas (Footmovin'). Isto enquanto Cacique'97, porque os elementos que o completam estão "fartos" de música. Philharmonic Weed, Cool Hipnoise e Most Wanted são alguns dos dadores na formação deste colectivo.
Amparadas pelas teclas de João Gomes ou pelo alto gabarito de Francisco Rebelo no baixo, as vozes dos irmãos Gulli (Milton e Marisa) elevam as raízes luso-africanas dos Cacique'97 até à reivindicação e consciencialização social.
O primeiro vídeo reivindicativo já se passeia (literalmente) pelas ruas e está visível "pra toda a gente" mais abaixo. Outro dos nove singles do álbum também já se chegou à frente, embora por um meio mais discreto, mas arrastou consigo Ikonoklasta, Sagas, Bob da Rage Sense e Sir Scratch.
A SóHipHop constitui, mais uma vez, o caminho mais confortável de chegar a um álbum de edição nacional.

A Fnac do Colombo (4 de Julho às 22h) será a próxima paragem dos Cacique'97.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Se eles são incendiários... (Parte III)


Escaldante

Sagas passeou-se lindamente em cima do instrumental e abrilhantou sem margem para dúvidas esta mixtape. Ora rappando ora canto, quer em crioulo quer em português, Sagas mostrou a sua valia, transmitindo a maturidade e a qualidade que atingiu no seio do Hip Hop lusitano.

Logo no início, Blasph revela que a sua participação será bombástica, pelo facto de referir Médio Oriente. Só isso é meio caminho andado para se pulsar os tremores que bombas provocam e sentir-se o cheiro a queimado. Mas Blasph não faz só isso. Ou seja, construiu habilmente uma história, metendo-se na pele de um bombista. Blasph faz o relato dos momentos que antecedem a sua auto-explosão. Se o assunto da mixtape é o elogio da destruição, Blasph instituiu-se da arte e do engenho para fazer um tema que aborda a realidade dos bombistas-suicidas. É cheio de coragem, de fé, de força, que Blasph tal como qualquer bombista se entrega à sua causa, no seu caso a de rimar. E Blasph honra plenamente a sua missão, construindo seguramente algumas das melhores rimas desta mixtape.

Pródigo, tal como Blasph, artilhou-se completamente para triunfar na missão. Assumiu-se como soldado e disposto a pôr quem quer que seja “a mijar morfina”, Pródigo não tem problemas em referir que a guerra é uma paragem da racionalidade. Mais, faz questão de focar o drama das pessoas inocentes, com especial incidência no caso das crianças. Ora vítimas ora contadoras do tempo que falta para se tornarem a ignição da destruição alheia. Pródigo inteligentemente reforça a banalização da guerra, da violência, da martirização. Já se sucedem acontecimentos que não chocam porque são frequentes. O repúdio e a contestação relativamente a determinadas situações são menorizados. Já ninguém liga, ninguém se importa. Interioriza-se que é normal e que nada pode ser feito. Pródigo mete o dedo na ferida: a resolução dos conflitos faz-se pela lei da bomba. Deliciosa a visão de Pródigo que concebe que se o Diabo veste Prada, nesta moda belicista e de malfeitoria, então os Anjos já inovaram no guarda-roupa e têm seguramente os seus trapinhos a condizer com C-4. Pródigo relata uma página de tantas outras que apelida de “macabras”. E se a chuva não apaga o lume do ódio, então muitas outras regiões navegarão no “vale de lágrimas” que Pródigo vislumbra em Israel e no Líbano. Se só Blasph e Pródigo tivessem participado nesta canção ela seria automaticamente considerada a melhor de todas as que integram a mixtape. Scratch queimou-os.

Capicua foi talvez a grande surpresa desta mixtape. Num elenco onde figuram tantos nomes de proa, poucos esperariam que Capicua conseguisse alastrar muito a sua chama. Nada mais enganador! Capicua conseguiu fazer um dos melhores temas, fruto de uma grande entrega e energia no mic. A fluência e a boa-disposição que perpassa para os nossos ouvidos foram garantes importantes para nos prenderem às rimas de Capicua. A “estrófe-molotov” caiu que nem ginjas. Num ambiente de certo modo pesado e hostil, Capicua apresentou-se divertida e com isso conseguiu certamente atrair todos aqueles que ouviram a canção. Capicua veio para esta mixtape, parece-me, como alguns daqueles manifestantes vão contestar as cimeiras do G-8 ou G-20. Participou fundamentalmente para se divertir e mandar a sua “estrófe-molotov”, importando-se pouco com a causa da iniciativa. Parece-me que gozou à brava. A todos os pirómanos que não conseguem produzir os “beat-dinamite” resta-lhes a anuência e o envio dos seus ficheiros para a reciclagem, adverte Capicua. E ela se não fez a linha mais abusada (no bom sentido) da mixtape parem imediatamente de ler o que escrevo: “Já não compito o meu sonho(*) fintou o Deco”. Fantástico! A pronúncia de Capicua vinca-lhe ainda mais as suas qualidades e diferencia-a. Dá-nos “lição de pirotécnica”, sem ter que necessariamente foguear alguém em particular e sem ter que se socorrer do insulto fácil e de palavras broncas. A cena de Capicua é tão quente que em pouco tempo se percebe que é uma questão de segundos para que o alarme de incêndio ecoe na sua métrica. Deixa arder, Capi!

Se queriam que se botasse fogo, então teriam de chamar Eva. Ela não rappa, cospe lume, qual boca de dragão. Eva no final da gravação deste tema deixou por certo o microfone em brasas, assim como as orelhas de alguns ferveram! Eva mais uma vez rimou em frente ao espelho, demonstrando toda a sua apetência para a exaltação do ego e para a batalha vocabular. Sim, mais uma vez, faz-se uma viagem ao pensamento de Eva, com as mesmas doses de dureza e crueza verbal. Eva admite que está no passeio dos ilustres do rap português por já ter perpetrado ataques vocabulares mais violentos que uma qualquer chaimite de guerra. Com uma agressividade sem limites, dizima quaisquer rimadores que se lhe atravessem no caminho. Sem rival à altura nesta batalha de estilos, Eva dá-se ao luxo de sugerir a colocação de uma pausa no rap para que a consigam alcançar. E isso de “pombas na garganta” é apenas um bluff de Eva, pois o arsenal dela parece ser interminável. Eva acredita já ser um peso-pesado no Hip Hop nacional, por isso aconselha veementemente Dama Bete a encorpar as suas rimas. E se havia dúvidas, Eva esclarece: “venho só e forte para queimar os rappers da tuga”. Incendiários? Pois. Sem papas na língua, “mais quente que o fogo” e para isso nem precisa de pôr um pé na rua! Qualquer contacto com Eva é favor carregar no “rec” e dizer o que lhe vai na alma. Ela certamente responderá cuspindo lume. Ou não fosse ela Eva, a dracena de Benfica.

Conclusão:

A “Incendiários Mixtape” não trouxe a qualidade que se esperaria dado o elenco que se apresentava. Esteve longe do patamar de valia sentida noutros álbuns de rap português. A este défice, juntou-se ainda o móbil do trabalho. O formato mixtape leva sempre a que alguns mc’s ensaiem novas abordagens e apresentem uma menor exigência relativamente ao produto final. Ainda assim, houve gente que se empenhou e fez grandes rimas. Porém, em virtude da presença de alguns rappers importantes da nossa praça, aguardava-se um álbum bem mais sólido, ambicioso e fundamentalmente bem mais adulto.
(*) Onde está "sonho" deveria estar, na verdade, swing.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Primeira vez na posse de rimas de Xeg?

Naaa... "Outros Tempos" é já o quarto álbum de Xeg e começa a morder os calcanhares ao vigésimo quinto dia deste mês. Entretanto, mais dois sons chegaram-nos aos ouvidos e prometem de lá não sair. Na 'Primeira Vez' (vídeo em cima) as rimas do MC lisboeta vêm acompanhadas pelas vozes sempre marcantes de Sagas e Valete. Enquanto que Shortsize, Sam the Kid e Sir Scratch surgem sonoricamente 'Na Posse de Rimas'. Podem ouvi-los no myspace de Xeg.