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domingo, 20 de novembro de 2011

Deau e Jimmy @ Plano B, Porto (18/11/11)

Que nos últimos anos as ruas da Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade têm moldado um jovem MC cheio de talento já não deve constar novidade para (quase) ninguém, pelo menos para os mais atentos apreciadores de bom rap. Apesar de só em Janeiro de 2012 surgir o seu primeiro registo discográfico, Deau começa a dispensar o rótulo de jovem promessa, reclamando antes o título de jovem certeza. Os acontecimentos da noite da última sexta-feira, dia 18 de Novembro, sustentam qualquer palavra atrás escrita. No andar subterrâneo do Plano B, Deau teve como primeiro plano a apresentação de novos temas, que, de boca em boca, ganharam estatuto de EP. Jimmy P foi seu convidado de abertura e DJ D-One responsável pelos pratos (aventurando-se também nas dobras).

Com o habitual compasso de espera para que a sala se povoasse o mais possível, a (curta) performance de Supremo G a.k.a. Jimmy P iniciou-se quando os ponteiros já faziam cócegas às duas horas da matina. Como o próprio fez questão de frisar, a sua actuação serviu sobretudo como warm up para o cabeça de cartaz - Deau, pois claro-, e, numa das noites mais importantes da carreira deste, terá sido também, de alguma forma, uma espécie de retribuição pelo companheirismo de Jimmy ao longo do despontar de Deau no rap nacional. “Gameover” foi o primeiro som a puxar pelas gargantas dos presentes, seguido pelo muito comentado “Dope Boy”. Jimmy P esteve sozinho na frente do palco, sem MC de apoio, por isso recaía sobre ele o bom ou o mau arranque da noite. Com maior ou menor dificuldade a tarefa foi cumprida com êxito. Já depois da faixa que selou “O Regresso” às gravações depois de uma fase de ausência, Jimmy lançou “Warrior” e foi nesse instante que sentiu o maior calor da plateia e a certeza que esta já se encontrava suficientemente aquecida para Deau.

Sem intervalo, Jimmy nem saiu do palco, pois logo de seguida serviria de apoio – juntamente com Ruca – ao MC oriundo do Candal. Numa hora e um quarto de concerto, Deau fez questão de apresentar todos os 9 temas que constituem o dito EP. “Questão de Tempo” e “Diva Suburbana” foram os dois primeiros e serviram desde logo como teste à recepção da audiência. Com o espaço quase cheio, um bom grupo de apoiantes de Deau mostrou já ter as novas letras decoradas. Por várias vezes Deau fez referência ao “seu povo”, sendo bem evidente a sua felicidade por ter gente que bem conhece e com quem convive naquele espaço, naquela noite. Prova disso, as várias vezes que partilhou o microfone com alguns deles. “Cara Metade” foi um dos clássicos (juntamente com “Lamento”) que meteu Deau na boca e nos ouvidos de muita gente, e, nesta noite especial, recorda-lo era obrigatório, até porque Supremo G (a voz metade desta música) estava mesmo ali ao lado. Deau revela-se cada vez mais maduro, indócil em algumas ideias, mas sempre com opiniões bem traçadas, seja nas suas músicas ou quando encara uma plateia de mic na mão.

Uma das habilidades que também tem catapultado Deau para os cabeçalhos do rap português é o improviso. Todo e qualquer concerto de Deau tem de ter rimas geradas na hora. Isso já parece ponto assente. No Plano B não foi excepção. Embora não tenha sido tão empolgante como noutras vezes, foi o suficiente para manter a fama que arrecadou em vários palcos e ruas onde tem improvisado. A flexibilidade enquanto MC está bem patente na diversidade de abordagens nos novos sons. Dos 7 minutos do “Advogado do Diabo” à visão teatral da “Invicta” (para mim, uma das suas melhores canções) ou o meloso “Ao Pé de Ti”, num registo algo diferente de tudo que tinha feito até agora.

"Acham que ia embora sem a ‘Lamento?'", perguntou Deau perante um público mais do que convicto da resposta. À efervescência que esta faixa provoca sempre que é tocada ao vivo, juntou-se Chek, do duo Enigma. Deau acabou levado em ombros, como se de uma condecoração se tratasse. Mas ninguém queria arredar pé da sala, nem o público, nem o próprio Deau, e isso foi notório. Mais 10 minutos de improviso improvisados (passo a redundância) fecharam a actuação. De brilho nos olhos, e depois do apoio e da cumplicidade que recebeu numa noite onde, pela primeira vez, foi o centro de todas as atenções, Deau terá se sentido nas nuvens mesmo estando no subsolo do Plano B. No final, ficou o desafio lançado pelo próprio (e que poucos artistas ousariam fazer): "Quem não gostou que faça barulho". Silêncio ensurdecedor na sala. Quem cala, consente, já diz o povo.

Texto: Sempei
Fotos: Fisko





terça-feira, 8 de novembro de 2011

Mundo & Each e Pharoahe Monch @ Hard Club, Porto (05/11/2011)

Quem tinha saudades de uma grande noite festiva de Hip Hop com grandes nomes nacionais e internacionais? Foram várias as centenas que responderam afirmativamente e que quase encheram a sala 1 do Hard Club (com capacidade para albergar cerca de 800 pessoas). Havia duas boas desculpas para uma ida até ao HC apesar do frio pungente desta noite de 5 de Novembro: as apresentações ao vivo da mixtape conjunta de Mundo e Each e do álbum “W.A.R.” do americano Pharoahe Monch. O anunciado showcase de Sir Scratch em cartaz foi abortado por “questões logísticas”, segundo a editora do próprio artista. Os Dj’s D-One e SlimCutz completaram o line up. Maze foi o apresentador de serviço.

Mundo Segundo e Each entraram em cena às 3h quando muita gente ainda entrava na sala (já muito bem composta, mesmo assim). A expectativa em volta da actuação de ambos era grande, pela novidade dos sons e, sobretudo, por estes fundirem dois reconhecidos liricistas exímios em roer cacos. De Each, cara-e-voz-metade de Enigma e habitual companheiro de Mundo nas performances deste a solo, recaía talvez a maior dose de curiosidade, até porque uma coisa é acompanhar Mundo nas dobras, outra é complementa-lo (e ser complementado) em vários temas. Numa primeira auscultação geral dir-se-á que Each não desiludiu, um cenário que só lhe ajudará a colher frutos no futuro. Apesar de tudo, na festa de lançamento no Hard Club sentiu-se algum nervosismo do jovem MC (evidente sobretudo numa hesitação numa das letras), facto que não assombrou a sua boa prestação.

Tenho mais receio do medo do que daquilo que mete medo. Foi uma das novas tiradas retidas de Mundo, que se mantém (como seria de esperar) igual a si próprio, livre de qualquer tipo de apresentação. Das novas faixas destaque particular para a sarcástica “Isso é estúpido” e para “Beleza Interior” que toca na ferida de duas doenças crescentes em todo o Mundo (obesidade e anorexia), temas que, pessoalmente, não recordo terem sido abordados no rap nacional. Após a exposição da nova mixtape e da aceitação positiva da audiência, Mundo e Each despediram-se quando trouxeram a palco “Alucínio” (faixa da mixtape “2º Piso – 17 anos”).

Após a retirada da dupla portuguesa não tardou muito até Pharoahe Monch abrir a bagagem que trouxe de Nova Iorque. Antes disso, foi DJ Boogie Blind quem trouxe os primeiros laivos do talento americano, nomeadamente no que ao djing e turntablism diz respeito. De máscara na cara (fiel à capa do seu novo álbum), Pharoahe Monch surgiu com todo o gás desde o início perante toda uma sala que se incendiou ao mínimo “cheiro” de rap nova-iorquino. E Pharoahe bem cedo se mostrou deliciado com tamanho calor humano emanado pelos presentes (vindos de todo o país, diga-se). “Assassins” (do novo disco) e “Let’s Go” (do álbum “Desire”) foram os temas de uma abertura que prometeu desde logo um intenso espectáculo. Neste caso, pode-se dizer que a idade conta, e a experiência adquirida ao longo de uma carreira com mais de duas décadas reflecte-se na segurança e na normalidade com que Pharoahe contagia uma multidão.

Havia muito público juvenil na sala? Havia. Uma boa parte desconhecia os sons do americano (alguns só mesmo a “Simon Says” – ou talvez somente o get the fuck up)? Verdade. Mas convém dizer que muitos deles ficaram para conhecer as músicas de Pharoahe ou, quem sabe, somente para o dito get the fuck up. Mas ao contrário do que se sucedera com outros artistas estrangeiros que por aqui passaram noutras noites, a plateia era realmente numerosa e estava predisposta a engrandecer a festa. A forma como se viveu, por exemplo, a sequência “Fuck You“/“Desire” comprova isso mesmo. “Clap (One day)” é um dos melhores temas do álbum “W.A.R.” e ao vivo é verdadeiramente delicioso. Pharoahe Monch não trouxe nenhum MC de apoio, contando somente com o contributo de DJ Boogie Blind a partir da mesa dos pratos. Este disc-jockey do colectivo The X-Ecutioners (por onde passaram nomes como o falecido Roc Raida ou Rob Swift – que estará dia 10 no Hard Club com Dealema e Nach) teve, a certa altura, os holofotes virados unicamente para si, aproveitando para exibir todos os seus skills no turntablism. E que skills! Houve muita gente que ficou de boca e ouvidos bem abertos com o que ouviu!

Seguindo no repertório de Pharoahe, havia uma faixa, ou melhor, uma bomba prestes a rebentar no Hard Club, e por ela esperaram centenas de “suicidas” na sala 1. A expressão mais directa que se pode dar para tentar descrever o momento quando estourou “Simon Says” é que o fim do Mundo parecia ter sido antecipado para as primeiras horas do dia 6 de Novembro de 2011. Mas não, felizmente, até porque, surpreendentemente haveria mais música depois desse sonoro pesado do rap mundial que certamente deixou algumas mazelas em parte dos presentes. Já o emcee americano se despedira do público, e após uns minutos entregues a DJ Boogie Blind, Pharoahe regressa ao palco (quando já boa parte da audiência havia saído da sala convencida que a actuação tinha terminado) para encetar a sua tour europeia, precisamente na Cidade Invicta, com “The Light”, outro dos seus deliciosos clássicos. E de Pharoahe Monch foi tudo, e que tudo!

Para quem esperava voltar a sentir arrepios na pele com uma grande noite de Hip Hop isso voltou a acontecer, sem sombra de dúvidas. Casa cheia, amantes da cultura oriundos de todo o país, e artistas sérios e dedicados à sua arte. Mundo e Each aguçaram os ouvidos de quem os aprecia como dupla e corresponderam às expectativas, pese embora só terem actuado cerca de meia-hora, o que soube e saberá sempre a pouco. A expressão “monstro de palco” assenta que nem uma luva a Pharoahe Monch, e o americano pôde voltar ao seu país com a certeza que, pelo menos em Portugal (e certamente noutros cantos da Europa), arrecadou novos fãs. Ele e o seu compatriota, DJ Boogie Blind. Pharoahe Monch abriu, intermediou e fechou o seu show sem nada que se possa lamentar, a não ser a sua saída do palco...

Texto: Sempei
Fotos: Ana Mendes



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sábado, 5 de Novembro (à noite) @ Hard Club, Porto

Pharoahe Monch (Álbum "W.A.R. - We Are Renegades")



Mundo & Each (Lançamento da Mixtape conjunta)



Sir Scratch
(Showcase)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Raw Beats Vol. 001 (15/07/2011): Seada, Enigma, Jimmy P, Keso e Maze @ Plano B

Foi na sexta-feira, 15 de Julho, que, cerca de mês e meio após a última festa de Hip Hop por si engendrada, a promotora Versus voltou a delinear um cartaz de rap – sem nomes internacionais, é certo-, mas com uma bela mão cheia de artistas nacionais, todos eles nortenhos: Seada, Enigma, Jimmy, Keso e Maze (juntando-lhes os DJ’s D-One e SlimCutz). O local escolhido foi o Plano B, um espaço exíguo, impróprio para grandes multidões, mas aconchegante para um ambiente muito caloroso e vibrante em caso de casa cheia. E foi isso que se sucedeu.

Muitas caras conhecidas de outros dias festivos. É caso para dizer que há já um núcleo duro de aficionados que frequenta a maioria das grandes noites de Hip Hop no Porto. Em sentido inverso, se há artista que ultimamente não tem por hábito pisar os palcos destes shows esse dá pelo nome de Seada. O MC/produtor portuense abriu as hostes das actuações um pouco depois da uma hora da manhã, já após SlimCutz ter dado as boas-vindas com um set a seu gosto. Seada não tem muita música editada, por isso fez-se valer dos sons que mesmo assim lhe conferem algum respeito no seio da cena underground tripeira, pese embora o seu modus operandi bastante discreto.

Ao segundo tema já Seada contagiara a plateia, que se deleitou com o single “Táxi”, pertencente à compilação “Best Off”. Kayn (Caixa Toráxica) foi o braço direito de Seada, que ainda teve a certa altura outro parceiro especial: Supremo G aka Jimmy P. Um sublinhado para o momento acústico da performance do duo. “Digam a verdade às crianças” pôs os presentes embevecidos e solenemente à escuta dos acordes da guitarra nas mãos de Seada e da mensagem conjunta com Jimmy. O reverso sucedeu-se à passagem de “Cartão de visita”, canção que teve o condão de erguer muitos braços no ar, devido até à própria tónica algo revolucionária da letra. Excelente na entrega e na interactividade com o público, Seada conseguiu uma das melhores actuações da noite, e logo na abertura. Muito, muito bom!

Seguiu-se Enigma para uma curta estadia em palco. Each e Chek actuaram durante pouco tempo, cerca de um quarto de hora, e aproveitaram esses 15 minutos de mic na mão para darem a conhecer novas músicas. E a julgar pela reacção da plateia, as novas rimas da dupla deixaram muita gente a salivar. De facto, tanto Each como Chek têm crescido permanentemente e ganho com o tempo o seu espaço no rap nacional. De negativo na performance no Plano B apenas uma ou duas falhas de memória de Each que, apesar de pouco notadas, fez questão de se desculpar por isso. No final da noite viria a certeza de que conseguiram, mesmo em pouco tempo, uma das actuações mais aplaudidas.

Já passavam das duas da matina e o cartaz ia a meio, sendo que Mundo foi o host da festa que trouxe de volta Jimmy P à rotina dos shows ao vivo. De facto, Jimmy selou o regresso à actividade depois de algum tempo ausente por razões menos felizes. Mas o MC trouxe muita vontade e boas vibrações embora os novos sons não parecem ter cativado tanto o público que o admira, como por exemplo o dubplate com Celebration Sound. Jimmy fez-se acompanhar pelos seus tropas habituais, JêPê nas dobras e nos sons que partilham e Damani Van Dúnem apenas no novíssimo “Soletra”.

Sons tradicionais como “Game Over” foram revisitados, tendo o badalado single “Dope Boy” do EP que ainda está a caminho também feito parte do alinhamento, assim como “Mãe”, tema que Jimmy pôde dedicar directamente à sua progenitora que se encontrava no Plano B. Generoso como de costume, Jimmy P fez questão de dar tempo de antena a Contrabando 88. O grupo, acompanhado como é tradição por uma barulhenta camioneta humana vinda da Póvoa de Varzim, matou igualmente um hiato fora dos palcos recorrendo aos dois sons que o junta a Supremo G: “Oportunidades” (com Sandra) e “Revolu-som”. Prometido está um EP com lançamento para os próximos meses.

Keso foi o homem que seguiu. Com a sala ainda praticamente cheia, o MC e produtor tripeiro levou à letra o desígnio da festa (Raw Beats) e inovou renovando alguns instrumentais dos seus sons. Como foi o caso de“Acólito por alcoólico”, tema de abertura que surgiu com nova companheira (leia-se batida) e que por isso inicialmente causou estranheza mas foi-se entranhando nos tímpanos naturalmente. Keso apresentou-se no espaço de concertos subterrâneo do Plano B divertido como sempre, mais descontraído que nunca e em drunk style como não há memória... Mas ninguém se importou com isso, bem pelo contrário.

O seu show foi uma risota do princípio ao fim, com um excesso ou outro, mas gerindo bem a faceta de mestre de cerimónias com a de rapper. Ou seja, Keso intercalou o dom de comediante com as rimas e os beats, com os clássicos e com o KS Xaval. Foi notório que muita boa gente tem guardada no disco rígido das lembranças a época “Raios Te Partam” de Keso, ou melhor, de KS Xaval, por isso músicas como “Pintor de Interiores” foram debitadas por mais de que uma garganta. “Insólito kesone” e “2º Capítulo” foram outras faixas degustadas como autênticas guloseimas auditivas. “Eternamente em cena” foi a cereja no topo do bolo.

O último homem a pisar o palco foi Maze. Completamente sozinho em acção, Maze tinha a missão de fechar as actuações, numa altura em que a assistência já apresentava algumas clareiras e não se exibia com o mesmo fulgor. O EP em registo próprio datado de 2007 deu o mote com “Mundo Bizarro” (mais tarde “Quando o Céu Desaba” teve uma inédita aparição). Apesar do estatuto dealemático, a tarefa de Maze não foi fácil, precisando de muito suor para cativar a atenção dos presentes. Com mais ou menos dificuldade assim foi. Não é hábito ver Maze em modo one man show, até porque só conta com um trabalho em nome pessoal, por isso foi entremeando algumas acappelas de excertos seus em temas de Dealema. “Sonhar Acordado” foi excepção, rodando com beat e o contributo de Mundo. Foi sem dúvida um dos pontos de maior agitação. Outro veio com a última faixa, “Brilhantes Diamantes”. A partir das quatro horas, D-One girou discos até às 6h sempre com a sala lotada.

O rescaldo desta noite é francamente positivo, com o regresso de alguns artistas e o surgimento de outros pouco vistos em shows a solo. Seada abriu magistralmente a cortina do espectáculo; os Enigma aguçaram o apetite para futuros projectos; Jimmy matou com emoção as saudades de estar de mic na mão perante uma plateia; Keso divertiu-se e fez divertir num dos seus últimos concertos antes de rumar ao estrangeiro (confissão de Mundo) e Maze fechou o tasco com carisma e alguma sobriedade mas nada se lhe pode apontar.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

sábado, 4 de junho de 2011

Hard Club (3/6/2011): Auge, Dealema, The Beatnuts

Dizerem-nos que um grupo clássico de rap como Beatnuts vem ao Porto, é o mesmo que dizerem a uma criança que a Euro Disney lhe vem ter a casa: o contentamento não tem limites! Acrescente-se à brincadeira a distinta qualidade nacional representada por Dealema, mais o promissor Auge e ainda as cinco estrelas como marca registada do freestyle de Deau e temos um super deleite musical pela frente, qual criança embevecida a criar histórias com alguns dos seus brinquedos predilectos.

Mais uma ficha, mais uma volta. Ou seja, novo cartaz interessante, mais um retorno ao Hard Club, no Porto. Começamos a habituar-nos a ver na Invicta nomes cimeiros e históricos do rap mundial. As festas acontecem agora com mais frequência (Masta Ace e Marco Polo estiveram cá nem um mês fez ainda) e o hábito de peregrinar ao mítico espaço portuense faz-se de muito bom grado.

A hora de entrada, desta vez, fez-se mais tarde, quase perto das 3h. Quando entramos já Auge estava em posição para se esgueirar para o palco, a fim de dar início ao espectáculo. Deau foi o apresentador e era com um freestyle que dava o mote para as tropas aplaudirem os artistas. Acompanhado de D-One, Auge tirou da cartola temas novos de um futuro álbum (ainda sem data de lançamento) com que presenteou a plateia tripeira como “Sonho”, tendo ainda a companhia de Deau e a certa altura de Alpha na guitarra. “Crónica Paixão Fula” aqueceu as almas presentes, porém, e tal como seria de esperar, o seu grande momento da noite foi quando interpretou “Mambo”. Auge iniciou bem a noite, com uma prestação bastante positiva, pese embora a dificuldade de agarrar com temas novos uma plateia ainda algo frouxa.

Os corações batem mais forte quando o colectivo dealemático se presta a rebentar colunas de som, a encaixar molas nos pés de toda a malta, a quebrar pescoços mais ou menos duros, a colocar mãos apontadas ao céu. Não importa quantas vezes se veja Dealema ao vivo. Cada noite é especial e única. Há sempre uma vivência nova que se adquire. Abrindo o livro de tantas páginas clássicas, Maze, Fuse, Expeão, Mundo, sempre acompanhados por DJ Guze, proporcionaram sorrisos e abraços às almas que ali quiseram espreitar pela janela do paraíso. D’«A Cena Toda» à «Família Malícia», da «Bófiafobia» à «Sala 101», a viagem pela discografia dealemática fez-se pelas passagens mais desejadas e a correspondência das dezenas de devotos na plateia esteve efervescente como de costume. Até mesmo, ou melhor, sobretudo na última paragem do alinhamento: a inesperada «Infiéis (Ninguém Teme)». Dealema é uma banda nacional que nada fica a dever a congéneres estrangeiras no que a qualidade e adoração diz respeito. Sempre muito fortes, sempre a manter os bons velhos valores do Hip Hop na ordem do dia.

Deau foi improvisando até a dupla The Beatnuts entrar em cena, tendo até arrancado de alguns dos presentes junto ao palco parte da letra de “Lamento” em acappela. JuJu e Psycho Les apareceram discretamente diante do público do Hard Club já passava das 5h30 da matina. Ainda havia energia para o bailado rítmico da dupla latina-americana? Apesar de algum esvaziamento da sala, a resposta é nim. Não é todos os dias que se pode ver ao vivo Beatnuts, mas a hora a que iniciaram a actuação e o natural desgaste causado pela frenética presença Dealemática esfriou a temperatura do espaço. Contudo, parte da plateia mantinha-se bem acordada, até porque, nem que já fosse dia (a claridade já coloria as janelas da sala 1 do Hard Club), via-se de bom grado a actuação de um dos duos mais importantes da História do rap de terras do Tio Sam.

As razões para esse “sacríficio” são bastantes claras: poder ouvir «Do You Believe», «Get Funky», «Duck Season», «No Escapin This», «We Got The Funk», «Watch Out Now», eram motivos de sobra para se pôr palitos nos olhos, limpar bem os ouvidos, agarrarmos-nos à deusa (na melhor das hipóteses!) ao nosso lado para não cairmos e ficar-se colado naquele palco. É certo que a hora tardia e consequente cansaço geral tiraram um pouco do ambiente que se esperaria mais quente, mas dadas as circunstâncias foi, sem dúvida, uma excelente experiência assistir ao vivo a um concerto de Beatnuts. Quanto a JuJu e Psycho Les, pode-se dizer que começaram algo mornos (eles próprios sentiram o resfriar na pele) mas foram sempre tentando agitar a festa com um cardápio sonoro que tinha tudo para ser melhor degustado servido umas horas antes.

Em resumo, foi mais uma boa noite. Houve música de qualidade, freestyle, as pessoas divertiram-se, o ambiente esteve animado... Se algo se podia pedir era que tivesse começado um pouco mais cedo, mas há sempre situações que não se podem controlar, além de que este hábito já está bem enraizado, é cultural mesmo. Mais uma vez, agradecemos à Versus por continuar a organizar estas festas e a trazer a Portugal grandes nomes da cena rap americana, realizando os nossos sonhos de menino (ou nem tanto) de vê-los ao vivo.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

quarta-feira, 9 de março de 2011

Reportagem: Nocas, Regula & Reks @ Hard Club (5 de Março)

Mais uma noite de grande rap em perspectiva, mais uma ida ao Hard Club. Saudável rotina em que se está a tornar. Desta vez, Nocas (+ Dior), Regula (+ Sam The Kid) e Reks (+ DJ Premier... Não!!! Mentira, mas que bom que seria!!!). Dois nomes de respeito do rap nacional, mais um talento em crescendo no rap americano, que veio culminar no Porto a tour europeia de apresentação do seu mais recente disco: "R.E.K.S. (Rhythmatic Eternal King Supreme)". A noite de 5 de Março prometia.
Com apresentação de Maze, o primeiro a subir ao palco foi Nocas. Eram certamente muitos os que aguardavam pela oportunidade de ver este valoroso rapper ao vivo, depois da aclamada mixtape que lançou ("Manutenção") e da longa ausência dos palcos. Auxiliado por Dior, Nocas esteve exímio com o microfone na mão, mostrando-se sempre seguro, descontraído e comunicativo. Apesar de não ser um artista que se exiba regularmente (muito pelo contrário), o rapper de Aldoar é portador de uma acentuada admiração no seio dos aficionados de rap nortenho e prova disso foi o caloroso acolhimento por parte da plateia (embora esta tenha esmorecido em certos períodos) que compunha muito bem a sala (algo distante da lotação máxima, mesmo assim). O grande momento da actuação de Nocas foi guardado para o fim, com o clássico "Expansão Suspeita" a ser interpretado em dois beats diferentes, acabando acompanhado pelas acrobacias do b-boy matosinhense Aiam (ele que até à altura assumira o comando da mesa dos pratos)

Seguiu-se Regula, com o seu estilo muito particular e a lírica que o caracteriza. Apresentando temas quer dos seus álbuns quer das suas mixtapes, Gula fez-se acompanhar por Holly-Hood e Short Size (Show No Love) e ainda DJ Kronic e não desiludiu os seus fãs, ávidos por o ouvir cuspir no microfone. Deu um concerto talvez demasiado longo, mas entregou-se a fundo. Com ele, trazia um trunfo que sozinho era gerador de compensar qualquer desastre em palco de todos aqueles que estavam em cartaz: Sam The Kid! E como o povo se mostrou feliz quando ele entrou em cena... STK surgiu para pôr em práctica sons de projectos alheios onde participou juntamente com Regula, como a mixtape de Xeg, o álbum de New Max ou "Kara Davis" do próprio Bellini. Escusado será dizer que as rimas de Sam (sobretudo) foram acompanhadas por inúmeras vozes entusiastas, tendo a faixa de "Kara Davis" posto o Hard Club em polvorosa como nenhuma outra naquela noite. Regula sentiu o calor tripeiro pela segunda vez em 2011 e foi ele (e Sam the kid, claro!) quem gerou maior êxtase no público na noite de 5 de Março.

Finalmente, Reks punha a casa em alvoroço. Quer dizer, punha alegres aqueles que esperaram para o ver. De facto, muita gente se retirou assim que acabaram as actuações lusas. Convenhamos que os concertos começaram às 2h50. Reks começou quase às 5h da matina. É só fazer as contas e pensar se vale mesmo a pena começar tão tarde e depois o cabeça de cartaz, vindo dos States, entrar em palco, olhar o público e ver grandes clareiras. Não obstante este facto, Reks mostrou ânimo e derramou paixão sobre aquele mic. A sua exibição no Hard Club foi a confirmação de um artista de mão cheia, com grande capacidade lírica que se mostra arrasador cuspindo nos beats de Premier e Statik Selektah (sobretudo destes dois)! Do alinhamento que Reks escalou, incidência óbvia nos dois últimos álbuns, sem esquecer grandes malhas como "Say Goodnight" ou "The One". De sublinhar a (dizemos nós) surpreendentemente fria recepção a "This or That", a contrastar com a boa reacção a "25th Hour", um dos novos sons de Reks, que acabou por ceder ao pedido de vários dos presentes e repetiu o tema antes de se retirar do palco.

O seu respeito pelo show, pelo público, o seu carácter e humildade, ficaram impressos quando ofereceu o seu chapéu a um fã que lhe clamou por esse gesto (também o relógio que trouxe no pulso voou para a plateia). Reks fê-lo prontamente (note-se que o MC americano se exibiu sozinho em palco, tendo sido somente acompanhado atrás dos pratos por D-One)! É muito bom ver estes nomes americanos de grande qualidade a passarem pelo Porto, mas melhor seria que o público mostrasse maior entusiasmo e não abandonasse a sala assim que terminam as actuações portuguesas.

Resumindo, foi mais uma bela noite, sem dúvida, apesar da debandada que antecedeu a entrada de Reks, o que acabou por esfriar naturalmente as hostes. Todavia, todos se empenharam ao máximo em palco para proporcionarem um momento bem passado aos presentes. Isso é meio caminho andado para um espectáculo ter êxito. Que venha a próxima noite no Hard Club, com bons artistas nacionais e com grandes rappers/grupos internacionais. Só nós sabemos porque não ficamos em casa!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ex-Peão & Os Infiltrados, Gangrene @ Hard Club (04/02/2011)

Na primeira grande festa de Hip Hop do ano no Hard Club (a última havia sido em Dezembro, aquando da visita de M.O.P., entre outros) voltou a haver correria ao antigo Mercado Ferreira Borges, onde se perfilavam as performances de Ex-Peão & Os Infiltrados e o nome maior da noite Gangrene (que junta The Alchemist a Oh No). Os DJ´s para os tempos mortos foram, mais uma vez, D-One e SlimCutz. Ao contrário do que constava inicialmente do cartaz do evento (entretanto modificado), Rey, Rato54 e Ortega não pisaram o palco da maior sala do Hard Club.

Da abertura das portas até ao começo das actuações distaram mais de duas horas. Foi esse o tempo que durou o warm up da festa, altura em que DJ SlimCutz manuseou o aquecedor sonoro a.k.a. mesa dos pratos e bafejou pelas colunas um set por si delineado (com uma sequência de sons reconhecível de outras noites). Perto das duas e meia da manhã, com a casa já bem povoada (embora algo distante da lotação máxima), Mundo Segundo (o host da noite) fez uso da palavra para convocar Ex-Peão & Os Infiltrados. Havia alguma curiosidade à volta da exibição de Ex-Peão muito por culpa dos denominados "Os Infiltrados". Em palco dispuseram-se dois guitarristas, um baixista e um baterista, complementados por DJ Guze (Dealema). Na verdade, este é um registo ao qual Ex-Peão está acostumado, visto que, apesar de ser reconhecido como MC/produtor Dealemático, desde cedo se incorporou em grupos de rock/metal. Agora imagine-se o repertório de Ex-Peão derramado ao vivo por uma banda com forte tendência para o rock...

O primeiro tema a escutar-se foi "Máscara". Estava dado o mote para um espectáculo interessante de Ex-Peão, que fluiu naturalmente (foi visível o à vontade do portuense como vocalista do grupo) e com aparente agrado no público. Palpando faixas como "Real e Verdadeiro" ou "Pombas Brancas da Cidade", Ex-Peão teve em "Bairro" uma das passagens mais fervorosas do show. Fuse surgiu a certa altura em cena mas apenas para participar num único som ("Sente o Impacto"). A terminar, Ex-Peão arriscaria ainda uma incursão pela faixa "Expulso da Discoteca", do seu disco "Máscara". A performance do MC de Dealema não foi muito longa mas valeu por ter empregue uma sonoridade mais tocada, orgânica e crua nos seus sons. Fica a sugestão para que repita mais vezes este registo de live band.

Pausa nas actuações, DJ-One tomou de assalto a mesa dos discos e, à semelhança de SlimCutz, também ele se encarregou de manter a sala animada enquanto se aguardou a entrada de Alchemist e Oh No. Os dois MC's/produtores americanos avistaram-se pouco antes das quatro da matina quando surgiram de lanternas na mão, irrompendo pela escuridão que entretanto se instalara propositadamente no palco. Desde o primeiro minuto a dupla Gangrene primou por uma enorme comunicação com a plateia, com particular destaque para Alchemist, que se mostrou sempre mais interventivo e efusivo do que o irmão do lendário Madlib. Do alinhamento que apresentaram há muito para contar. Desde logo as faixas do disco que os trouxeram em tour pela Europa e consequentemente até ao Hard Club. De "Gutter Watter" realce-se a recepção calorosa ao single "Not High Enough" e a forte interpretação em temas como "From Another Orbit" ou "Take Drugs". Antes, já "Under Siege" (do segundo álbum de ALC) se escutara bem no começo do concerto.

Mas Alchemist e Oh No tinham muito mais para mostrar fora do âmbito de Gangrene. Alchemist, por exemplo, fez questão de invocar Evidence a partir do som "All Said & Done". Mais à frente, Jay Dilla também mereceria uma menção honrosa com uma sequência de instrumentais de sua autoria, entre os quais "Fuck The Police". Para além de se exercitarem no mic, Alchemist e Oh No partilham igualmente o gosto pela produção. Ora a certa altura desencadeou-se uma espécie de battle. O processo era simples e estava mais do que estudado: alternadamente, e a pedido de ambos, DJ Mishaps solta uma série de beats produzidos pelos dois. Oh No tinha em carteira temas de "Dr. No's Oxperiment", enquanto que ALC desembrulhou clássicos produzidos para Dilated Peoples, por exemplo. Se tivesse de se eleger um vencedor nessa batalha instrumental em termos de reacção no público ele teria sido, sem dúvida, Alchemist.

Todo o show foi pautado por uma atmosfera enérgica formidável, tendo ambos os MC's se esmerado por contagia-la a todos os presentes. Antes da retirada do palco, dois dos momentos altos da noite, na hora de se ouvirem dois dos temas que mais moldaram o sucesso de Alchemist em toda a sua carreira. Primeiro a grande malha que fabricou para Prodigy, "Keep It Thoro", que surgiu após vários gritos de "Free P" em uníssono. De seguida, "Hold You Down" (o maior hit da discografia pessoal do carismático produtor da Califórnia) incendiou completamente o Hard Club. Após uma breve saída de cena, Alchemist e Oh No regressaram para um encore esperado, trazendo mais algumas faixas como "So Fresh" (do projecto Step Brothers - parelha de ALC com Evidence) para gáudio da plateia. Não se estranhe que a maioria do concerto tenha sido dedicado ao material pertencente a Alchemist, visto que este tem mais anos de actividade do que Oh No. Nova fuga para o backstage... novo regresso. Desta vez, já com mais de metade do público na rua, Oh No ocupou o lugar de DJ enquanto que ALC, sozinho na frente do palco, se encarregou de manter as hostes despertas com mais uma panóplia de canções com o seu cunho pessoal ou de Oh No. Pouco depois retiraram-se em definitivo deixando DJ Mishaps dominar os pratos até às 6h00.

As noites de Hip Hop no Hard Club já (re)começaram a ser uma rotina saudável na Cidade Invicta. Na sexta-feira, dia 4 de Fevereiro, Ex-Peão começou por protagonizar um concerto diferente do habitual mas de longe satisfatório. Gangrene é um nome que pretende paulatinamente vincar uma posição no rap contemporâneo. Alchemist e Oh No serão mais reconhecidos pelo talento para os beats do que para os microfones, mas arriscaram surgir com um disco com parâmetros nem sempre fáceis de digerir. Talvez por isso (mas não só), a esmagadora maioria das pessoas que se deslocaram à sala 1 do Hard Club fê-lo com pretensões de ouvir os grandes sons da discografia de Alchemist (sobretudo) e de Oh No e não propriamente as músicas com a rubrica Gangrene. De qualquer maneira, no fim das contas, saldo extremamente positivo para todo o elenco desta noite fria de Fevereiro.

Um último apontamento para dizer que Alchemist & Oh No foram apenas mais dois nomes internacionais que ultimamente visitaram Portugal, e nomeadamente o Porto, pelas mãos da Versus Eventos, que se vem posicionando na vanguarda no que a grandes cartazes de Hip Hop diz respeito. O próximo evento desta promotora está selado para 5 de Março. E Alchemist tem já regresso previsto para este ano de 2011...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Eles vão passar por cá! (parte V) [Editado]

The Alchemist + Oh No (Gangrene):
Hard Club, Porto - 4 de Fevereiro

sábado, 8 de janeiro de 2011

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Reportagem dia 17 de Dezembro @ Hard Club

Os Reys do Hardcore

Uma das noites mais frias do ano na cidade do Porto acabou por se tornar (muito provavelmente) na noite mais quente de 2010. Estranho? Só mesmo para quem não se deslocou à sala 1 do Hard Club na última sexta-feira, dia 17 de Dezembro.

As ruas da Invicta sopravam uma aragem realmente gélida, cortante até, nada convidativa a grandes voltas ao relento portanto. Se houve quem optasse pela recolha no respectivo lar, cedendo à calorosa (e reconfortante, admita-se) companhia da lareira, muitos foram aqueles que arriscaram uma ida ao Hard Club, sem que este necessitasse de emitir qualquer sinal de fogo. Na verdade, o cartaz continha nomes capazes de garantir um espectáculo fumegante do início ao fim, com promessa de um desfecho em labaredas, ou não fosse "Ante Up" a partícula do programa mais ansiada pela maioria da plateia e previsivelmente o momento mais marcante de toda a noite. Mas comecemos pelo... início.

Quando os ponteiros apontavam para a uma da manhã já SlimCutz riscava pratos e cuspia autênticos bafos cálidos pelas colunas que serviam como descongeladores dos corpos algo enregelados que entravam pela maior sala do Hard Club. A selecção musical escolhida pelo DJ de Monstro Robot foi mortífera, sacando sucessivas malhas que garantiam a satisfação geral. Contudo, com o ambiente ainda algo tépido, a dupla Each/Chek foi chamada a palco por Maze, o host do evento. O grupo portuense, sabido da importância do espaço e da própria noite festiva, esmerou-se por proporcionar ao público presente um serão animado. Foi notório da parte dos dois Mc's uma constante preocupação em contagiar a plateia com algumas das rimas mais puxadas de ambos. Os muitos admiradores de Enigma aderiram e vibraram bastantes vezes, o que indicia que saíram satisfeitos com a actuação de Each e Chek. Deixando de fora do alinhamento alguns dos temas mais conhecidos do seu repertório, o duo tocou faixas mais recentes, simulou um assalto de Chek à casa de Each e ainda convidou Kayn (Caixa Toráxica) e Asek a fazerem parte do show. Na hora de recolher ao backstage ficou a ideia de dever cumprido.

Seguiu-se um momento particularmente especial, tanto para os aficcionados de rap tripeiro como para o próprio interveniente dos minutos que se seguiram. Rey, MC bastante querido entre a massa adepta da Invicta, trocou por instantes os States para marcar presença nesta cerimónia no Hard Club. E foi assente numa bicicleta caracteristicamente norte-americana que Rey irrompeu pelo palco, para gáudio do povo. A expectativa quanto à performance do rapper era evidente, sobretudo pela longa ausência dos grandes palcos. Rey esteve descontraído, bem humorado q.b. e com um à vontade perante a plateia arrebatador. E não se pense que essa descontracção foi sinal de menos entrega, bem pelo contrário! O rapper de Gaia afastou qualquer pressão que pudesse sentir e fez da sua actuação uma verdadeira festa. Pegou em sons mais velhos para os desenferrujar, aproveitando também a estadia para colocar em práctica as suas últimas participações em trabalhos alheios, contando para isso com a ajuda de Birro e Rato 54. À postura acutilante, Rey fez-se valer de um discurso assertivo, com mensagens fortes e mostrando sempre uma fácil interacção com a plateia.

A dada altura pediu silêncio ao público (a quem ironicamente chamou de “chato”) para contar uma história. História essa que se desenrolou em modo acapella, bombeada pela sua “língua de veneno”. Para quem tinha saudades de Rey, o mínimo que se pode dizer é que a prestação do rapper foi contagiante, num regresso a uma casa onde actuou várias vezes (na outra margem do Rio Douro, obviamente). Para desfecho da performance, soltou-se o tema obrigatório para um regresso mais que perfeito: “Foda na Moda”. No palco surgiram os camaradas habituais de Rey, entre eles, Mundo, Ex-Peão, Ace, Birro, Boinas e Rato 54. A actuação de Rey mereceu justamente todos os aplausos que recolheu. Posto isto, não há como fugir ao trocadilho fácil: Rey foi... rei na noite de 17 de Dezembro.

Dono dos tempos mortos, DJ SlimCutz ia contemplando a plateia com uma série de clássicos que nem dava tempo para respirar fundo (pareciam bombas a cair no meio da multidão). O intervalo entre a saída de Rey e a entrada de Mundo Segundo foi um pouco mais prolongado devido a Deau. Ao contrário do previsto, o jovem rapper só actuou depois de Mundo e Rey, isto porque tanto ele como os americanos M.O.P. haviam constado na versão lisboeta do cartaz da mesma noite, o que os obrigou, naturalmente, a um esforço extra. Nada incomodado com isso, Mundo surgiu pouco depois das 3h30 para mais um show no Hard Club. Acompanhado (como é hábito) por Each, o MC dealemático com o currículo mais preenchido apresentou-se igual a si próprio, com a habitual comunicação com o público e os sons que todos conhecem na algibeira, intercalados com alguns temas novos. A presença de Rey na casa foi aproveitada para exercitar ao vivo a faixa conjunta pertencente à mixtape “Mike Phelps” - com Rato 54 também no grupo, o mesmo sucedendo-se com os sons “VNG” e “Rudes”. Foi um concerto em que Mundo esteve mais acompanhado do que nas suas últimas actuações, tendo a seu lado amigos de longa data do Segundo Piso, acabando numa acapella com rimas ao seu bom estilo.

Cerca de cinco horas depois do showcase em Lisboa e da (consequente) viagem de regresso ao Porto, Deau apresentou-se no antigo Mercado Ferreira Borges para uma sessão de improviso. Estabelecendo-se cada vez mais como um dos pesos pesados da improvisação em Portugal, Deau mostrou novamente argumentos que fomentam esse mesmo rótulo. Não foi uma sessão longa (não ultrapassou a meia-hora) mas a entrega do jovem rapper manteve-se linear com o que vem mostrando em cada show. Dêem-lhe um microfone, soltem um beat e o resto é com ele. Arguto como poucos, foram escassas as vezes que hesitou na rima, sinal de que se sente como peixe na água no improviso. Para surpresa dos presentes, os minutos finais foram guardados para novos temas que irão, ao que tudo indica, fazer parte do primeiro álbum a solo de Deau. Com mais ou menos fervor, a sua prestação foi positiva e bem correspondida pelo público. “Soube a pouco”, dirão alguns.

Pouco mais de dez minutos para as cinco da madrugada e entra DJ Laze E Laze para a mesa dos pratos. Afinada a maquinaria, Laze E Laze começa desde logo a disparar instrumentais de DJ Premier (a quem o duo Mash Out Posse deve muitas das suas batidas). A sala mantém-se praticamente cheia. Apesar disso, as primeiras palavras de incentivo do disck-jokey oficial de M.O.P. não têm a resposta esperada. Poucos minutos depois solta-se “Cold As Ice” e avista-se a dupla de MC’s mais desejada da noite. Ao contrário do título do tema, Billy Danze e Lil’Fame (com a bandeira das quinas na cabeça) são presenteados com uma calorosa recepção e a faixa caiu como lume num rastilho que incendiou uma plateia nada preocupada com o aumento dos graus Celsius no espaço (houve mesmo quem sentisse no corpo a falta de tensão).

Qualquer descrição do concerto dos M.O.P. neste texto poderá ser escassa tendo em conta o que verdadeiramente se viveu naquela sala! Momentos de pura loucura, de histerismo, de prazer e satisfação absoluto! A entrega do duo foi sublime, assim como a correspondência da plateia, num diálogo que se pode considerar perfeito para qualquer artista. Os sons foram-se desenrolando, tendo sido percorrida a rica discografia do grupo de Nova Iorque e os sons mais célebres da mesma, intercalados por alguns hits de outros artistas como Jay-Z ou Bob Marley. Tal como se disse atrás, a comunicação dos M.O.P. foi exemplar, puxando recorrentemente pelo público, brincando com este, mas não deixando porém de transmitir algumas opiniões sérias acerca do Hip Hop e dos problemas gerais do Mundo. George Bush teve direito a ser “mimado” em uníssono, assim como DJ Premier e Guru. Depressa se ouviu a faixa “Who Got Gunz”, seguida de “Calm Down”. A pedido dos emcees ergueram-se dezenas de isqueiros para a passagem fervorosa de “Fire”.

As músicas de M.O.P. são duras e o estilo é mesmo hardcore. Os beats, esses, parecem morteiros carregados de granadas que incendeiam qualquer sistema sonoro. E foi isso que se sucedeu no Hard Club. Uma noite inflamada por dois respeitados rappers americanos que mesmo com uma performance poucas horas antes na capital conseguiram contagiar toda uma plateia e implementar um verdadeiro clima de festa. Como complemento, DJ Laze E Laze largou a sua mesa, pegou no mic e fez-se um mestre de cerimónias improvisado, encarnando outros artistas como Fat Joe, Busta Rhymes ou até mesmo Eve. Com o espectáculo ao rubro já se fazia a contagem decrescente para a malha das malhas, o beat dos beats, o final de todos os finais. "Ante Up" acordou perto das 6h da matina com o público ainda bem desperto e com a pujança suficiente para instalar um verdadeiro pandemónio na sala com epicentro na frente do palco. Impressionante!! Parecia que o fim do mundo tinha chegado com dois anos de antecedência! Um desfecho impetuoso mas nada que ninguém não esperasse. Já depois das actuações, DJ D-One encarregou-se da música até ao fecho das portas.

A última grande festa do ano de Hip Hop no Porto pode muito bem reclamar para si todos os holofotes pois foi responsável pelo momento de maior clímax dos últimos anos! "Ante Up" e todo o resto do concerto de M.O.P. será por certo recordado por muito tempo. Billy Danze e Lil' Fame chegaram sobrecarregados com a actuação de Lisboa mas no Hard Club ninguém deu por isso. A atitude e entrega de ambos não merece o mínimo reparo e o alinhamento foi programado de forma a manter o entusiasmo elevado. Esta passagem de M.O.P. por Portugal foi um marco de relevo no que a concertos diz respeito. Para início de espectáculo, os Enigma estiveram certinhos e não claudicaram. Rey foi imperial no mic, patrão no palco e líder das actuações nacionais. Mundo manteve as hostes sintonizadas e quentes, já Deau exercitou o improviso a meias com a apresentação de novos sons. Luzes apagadas e trancas à porta, que 2011 traga muitas noites de Hip Hop como a de 17 de Dezembro de 2010.