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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Mixtape Praso "Otempo" Jones

Praso acaba de lançar uma mixtape totalmente gratuita no seu novíssimo site. Tive o prazer de fazer uma biografia deste rapper e produtor de Sines. Quem não conhecer Praso, tem aqui a chance de saber um pouco mais sobre o seu percurso artístico:

Em 1983, ano em que Michael Jackson apresenta “Billie Jean” e o famoso passo de dança Moonwalk, chora pela primeira vez de alegria neste mundo Daniel Jones. Vila Nova de Milfontes serviu-lhe de berço, de pátio para brincar e de escola para se tornar homem. Contemporaneamente, Daniel Jones é mais conhecido na pátria lusitana pelo pseudónimo de Praso, que usa para assinar as suas composições artísticas no seio do movimento e património cultural que é o Hip Hop.

Foram os pixels, que se vidraram na sua retina, e o banzé emitido pelas colunas da sua TV, que se infiltraram nos seus canais auditivos até lhe subirem ao cérebro, a destinarem-lhe a perda da virgindade com o Hip Hop, nos idos anos de 1990. Porém, como a MTV não era uma namorada confiável, Praso perdeu o interesse em continuar a vê-la e a ligar-se afectivamente a ela, mas manteve, contudo, as memórias das boas sensações que lhe havia causado. Ali, sentiu ineditamente o prazer que o Hip Hop pode pulsar na carne e no espírito. Dali para frente, não lhe bastava o hedonismo, Praso queria sentir o amor verdadeiro.

Se o Cupido nos acerta de forma fulgurante e quando não estamos à espera, o disco “Rapública” foi a flecha encharcada de vício que injectou as primeiras gotas de amor na corrente sanguínea de Praso. Seguiram-se as descobertas, o entendimento desse sentimento, a cada vez mais provável certeza de que o Hip Hop seria um amor para toda a vida. Um amor que ainda só lhe falava ao ouvido. Todavia, algures em 1997, apresentou-se a ele pessoalmente. Carlos Drummond de Andrade, escritor brasileiro, escreveu que se alguma vez na vida o nosso coração parar por instantes temos a prova de que contemplamos algo que amaremos. Assim foi com Praso, numa festa de escola, em que DJ’s, Writters, B-Boys e MC’s o fizeram deixar de viver por uns segundos elevando-o às nuvens para a consumação do pedido de permissão a Deus para verdadeiramente amar algo terreno. Feito, dito e consentido.

A avidez em alimentar o sentimento levou-o a forrar as paredes da sua casa com o som de Sam The Kid, 7PM, Guardiões do Subsolo, Dealema, Terrorismo Sónico... Percebeu que em qualquer lado se fazia Hip Hop, que qualquer um se podia unir a ele. Praso tinha as suas paixões, tinha os seus ídolos, tinha a sua afeição ao Hip Hop, que continuadamente explorava. No entanto, começou a sentir o apelo para viver a plenitude desse amor. Um impulso do ânimo levou-o a querer pegar na caneta, a querer ter batidas, a expressar a sua pessoalidade. Praso quis conhecer-se por inteiro através dum espelho que deixa sermos o que quisermos. Espelho esse o Hip Hop, pois claro.

Apetrechando-se de material e empolgado pela força que lhe atravessava todo o corpo, Praso meteu mãos-à-obra e foi esculpindo na imaginação aquilo que depois os nossos ouvidos sentiram. Em 2002, surge a maquete “Praso – Prelúdio”, que serviu de primeiro tubo de ensaio e um ano depois seguiram-se mais dois trabalhos no mesmo formato – “3D – 3D” e «Praso – Assistência Vol.1». Fazendo correr o seu nome e burilando as suas capacidades, iniciam-se os convites para integrar projectos alheios a nível nacional, a saber: “Compilação Alemdotejo”, com edição da Covil, “Música de Palavra” de DJ Gijoe, “Beats e Rimas”, colectânea de sons com selo da Chocolate Bars, e finalmente a compilação “De Norte a Sul do País”. Pelo meio, mais uma edição independente de Praso, o EP “Cofre Nocturno” com vinte temas feitos entre 2002 e 2004. A provar a independência, o poder de iniciativa e a capacidade de trabalho deste nómada que actualmente reside em Sines, 2007 conhece “Focus 360º”. Todavia, a obra-prima de Praso, aspirante a plantador de trevos de quatro folhas, é o seu disco “Alma&Perfil”, desvendado ao mundo em 2009 e de forma totalmente gratuita. Ali, tudo é uma harmoniosa composição de finas e clássicas linhas, vibrando de essência e elegância e emolduradas em vértices de profundo bom gosto. Nota para a apresentação deste álbum em Itália, num festival em Cantanzaro.

Se um guarda-redes atinge a maturidade para o desempenho da sua actividade aos trinta anos, Praso com mais jovialidade encaixa tipo Lego na parede de talentos do Hip Hop português. Com ele, não sentimos as “palavras gastas” como anunciava Eugénio de Andrade. A sua música, tal como a sua alma, tacteia-se, «sente-se como braille». É ponto de honra a criatividade, a consciência, a versatilidade nas valências de MC e produtor e o destemor por desafiar os seus próprios limites, baseado-se na firme convicção de que é urgente realizar o impossível. Obriga-se a satisfazer os sonhos que lhe são poeira no subconsciente mas que ele deseja transformar em matéria. Definitivamente, a sua história está longe de acabar. Tudo o que aqui não foi escrito, Praso encarregar-se-á de musicar. Para júbilo de todos aqueles que apreciam a qualidade do seu trabalho e que querem um Hip Hop português progressivamente mais saudável. A vida costuma dar muitas voltas e quem sabe se o próprio não encontra respostas e soluções para as perguntas que formula: «Deus, posso ser eu a julgar-Te?/ Por que é que não posso fazer da minha vida só arte?». Praso – eternizando a validade da cultura Hip Hop portuguesa.


quarta-feira, 9 de junho de 2010

Mega informação e novidades sobre LT a.k.a. Philly Gonzalez

Nascido em Matosinhos, Portugal, com 25 anos de idade, LT AKA Philly Gonzalez começa a entrar no 'mundo' do hip-hop e na musica em geral em 1998, membro do colectivo de Rap “Governo Sombra” e assinado pela Label “GOVSOM”, Iniciou a sua carreira no mundo musical como produtor de batidas com um grupo de amigos e só mais tarde comeca a fazer rimas e participar em projectos com uma outra projecção para alem de edições de autor amadoras.Considerado um artista, auto-didacta, amante de batidas graves e espectáculo, LT brinda-nos com musicas que nos remetem a diversos estados de espírito e momentos da nossa vida apelando á consciência como também nos influência com a sua confiança, com uma mensagem de força juntamente com um lado carpe diem onde não há barreiras nem fronteiras para a mentalidade e capacidades humanas. Livre e independente para voar, presenteia-nos com estilos como o hip-hop, r&b, crunk, latino e club. Apesar de hoje em dia as influências sejam um pouco diferentes e mais actuais, as suas influências principais no inicio da referida carreira vão desde: BodyCount, Wu Tang Clan, Triângulo Dourado, MobbDeep, A Tribe Called Quest, Mind da Gap, Bustah Rhymes, Snoop Dogg, Xzibit e Cypress Hill entre outras influencias maioritariamente norte e sul americanas.
A partir de 2001 começa a "rebentar" pistas de clubs, festas underground e festivais de Hip Hop de norte ao sul de Portugal nos quais tem participado em álbuns de hip hop e mixtapes promocionais como por exemplo. (ver após as ultimas novidades)

Ultimas Novidades:





MIXTAPE LT PRIMEIRO VOL.1

Conta com participações de:
Governo Sombra, Sound Killaz(Jamaica), Burns, Massas, Yannick(Tropas de Morte), Xpress(BigBigFamily), Gigi Carapia e Ydr(Barcelona).
Contém também shout outs de muitos outros sócios a dar cartas no rap em Portugal... 12temas com instrumentais excepcionais com grande qualidade, maior parte deles produzidos em 2009!!
A aguardar uma boa adesão por parte do publico e com os olhos em vista do segundo volume das Mixtapes LT1º novamente com um variado leque de artistas em colaboração provenientes de Portugal, Jamaica, Espanha, França, Angola, Suécia entre outros.
Em breve estará também disponível no blog pessoal dentro do qual haverá uma votação para escolher qual o tema para criar um Videoclip podendo assim satisfazer o desejo de todos o publico em geral.
Obrigado a toda a gente que esteve directa ou indirectamente envolvida na produção da mixtape!
R.I.P. Yann R.I.P. Imune R.I.P. Raptor
Dedico também este trabalho a vocês... Inspiração... BLESS.

Agenciamento:
Joana Almeida [+351 91 329 74 56] ou através do e-mail: [baimaloja@gmail.com]
ENCOMENDEM JÁ! É A NOTA MÍNIMA DE EURO! (5€ Unid.)

Participou nos Projectos:
(Sangue Puro (EP)(2001)) [Edição de Autor] (Raios te Partam KSX(2004)) [Participação 1 tema] (Vinho Drogas e Preservativo (2004)) [Participação 5 temas] [Edição de Autor] (Plano B (Burns)(2006)) [Participação 3 temas] [Edição de Autor] (Compilação União,Rap,Paz (2006)) [Participação tema “Frente Maritima”] (Compilação Invicta Rap (2006)) [Participação tema “Para os Espaço”] (Compilação Espiritos Livres (2007)) [Produção tema “Cidade Enfeitiçada”] (Politicamente Incorrectos (2007)) [Video 'Mais Uma Bomba' MTV Portugal] (Férias no Algarve – Wuser Mixtape (2008)) [Produção tema “Um Dedo no Ar”] (Produto Interno Bruto (2009)) [Video 'Mc's da Primeira Liga' MTV Portugal] (Mixtape Sério Style Barcelona (2010)) [Participação tema “Gira Com os Patrões”] (Mixtape LT1º Vol. I (2010)) [Produção total do projecto]
Com nomes sonantes como os Governo Sombra(PT), SoundKillaz(JA), Mentes Criminosas(ODC), Supremo G(DH), Wuser(SM8125), Simple(LDP), Nigga Mop(MONGBLOCK), Stevie Culture(JA), Gigi Carapia(BCN), B'er (Paris92),Keso(PT), entre outros.

Tocou ao vivo nos seguintes locais:

Porto-Rio – Porto; Festival 3870 Jovem – Praia da Torreira, Murtosa; Summer Night Sounds – Murtosa; Calada Caffe – Praia da Torreira, Murtosa; A Tenda (Espaço oficial do Carnaval de Ovar) – Ovar; Café das Artes – Porto; Festival TrofaPosta 2008 – Trofa; Centro Histórico – Guimarães; Festas da Juventude – Barcelos; FNAC Coimbra; FNAC Braga; FNAC Gaia Shopping, FNAC Santa Catarina, FNAC NorteShopping; ShotLife Bar – Matosinhos; Samat Bar – Paços de Ferreira; Teatro Aurora da Liberdade – Matosinhos; Clube da Pica – Oliveira de Azemeis; Pin Up Bar – Porto; Smile Bar – Espinho; Festarreja – Estarreja; Tertulia Castelense – Castêlo da Maia; Pede Salsa – S. João da Madeira; Espaço C.R.M. – Murtosa.

Partilhou palco com:

Chullage, Sam The Kid, Nigga Poison, Hi Fidel Cartel, Nuno Forte, Deep Niggaz, ALK, Berna, Presto (Mind Da Gap), Maze (Dealema), SoundKillaz (Jamaica), Trofa Roka Forte, Novo Mundo Ordem, Expensive Soul, Duplo Som, DJ Yur, DJ Dizzy, DJ CruzFader, DJ Tombo, Agrupamento ACTS, Guardiões do Movimento Sagrado, Código Retórico, Soldado, Simple, Duplo, Mr. Og e a BigBig Family, Supremo G.

Participações em Rádios e TV:

- Entrevista na Rádio Aveiro FM – Aveiro; (Governo Sombra) - Entrevista na Rádio Universitária do Algarve – Faro; (Governo Sombra) - Entrevista na Rádio SFM – Murtosa; (Governo Sombra) - Entrevista e Showcase no Porto Canal – Programa Aquario; (Governo Sombra) - Entrevista e LiveAct no Porto Canal – Porto Alive; (Governo Sombra) - Destaques para os VideoCLips “Mais Uma Bomba” e “MC’s da 1ª Liga” MTV YO!; - Entrevista e LiveAct no canal MVM – Programa MP4; (Governo Sombra)


Patrocinios:

- LEALTY STREETWEAR ( http://www.lealty.es/ )
- Project Store (Favela Chic Ribeira)

LINKS RELACIONADOS:

www.myspace.com/lterribletd (Oficial)

www.myspace.com/patraodocrunk (Beats disponiveis para venda)

www.myspace.com/governosombra (Colectivo)

http://www.governosombra.com/

http://www.govsom.com/

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Pedaço de Saudade: 7PM



"Directamente de gizéh"

7PM foi um colectivo de Hip Hop, proveniente da cidade da Maia, que gozou de alguma popularidade há uns anos atrás. Os 7 Pecados Mortais (7PM) eram formados por seis elementos: quatro MC's (XeX, Rodrigo a.k.a Sinistro, Fresco e Mago) e ainda dois DJ's (Overule e Madflava).

O grupo iniciou-se em 1998, na altura ainda com sete elementos (conhecidos do break e do graffiti), e começaram (já só com os seis definitivos) a participar em várias compilações e projectos alheios. O início do novo milénio eternizou o primeiro trabalho dos 7PM. Não será difícil imaginar a dificuldade da formação em editar um disco naquela época (se ainda hoje o é... - mormente para os artistas de Hip Hop). "... À última da hora" foi gravado na Associação Recreativa de um bairro maiato e lançado em edição de autor em Janeiro de 2000. Trabalho que levou progressivamente a música do grupo a vários ouvidos, até serem convidados para a primeira compilação de rap nortenho: a "Roka Forte Vol.1". Dois anos volvidos, os 7PM regressaram em formato mixtape, no registo "Das palavras aos (pr)actos". Os dois DJ's da equipa formavam paralelamente os "D'Artefaders". E foi mesmo DJ Overule juntamente com DJ Madflava a selar o ritmo deste último trabalho.

Os 7PM findaram há anos, mas deixaram um legado musical que, apesar de curto, muito satisfez quem o ouviu. Orgulhosamente da Maia, era em Nova Gaia que, segundo os próprios, recebiam alguma animosidade nos concertos que por lá realizavam. Curioso o facto de, a dada altura, se saber que a primeira maqueta do colectivo andava a ser pirateada em países africanos.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Sabotage

No passado Domingo fez 7 anos que Sabotage, ícone do rap brasileiro, morreu. Nascido em São Paulo, mais especificamente na favela do Canão, teve uma vida difícil e pereceu somente com 29 anos de idade. Conheceu a miséria, esteve envolvido no tráfico e a sua música foi o testamento da sua própria vida, onde abundam temas sobre a dificuldade, a droga, a pobreza, a violência... Todavia, o seu talento não se resumia ao rap (foi descoberto por membros de Racionais MC’s num concurso, o que daria um ímpeto decisivo na sua ascensão no rap). A apetência para as artes fez com que se tornasse também actor. O dia 24 de Janeiro de 2003 tornar-se-ia trágico para Sabotage que finou após ter sido baleado quatro vezes. Do seu legado musical fica um álbum “Rap é Compromisso!” e uma colectânea chamada “Uma Luz que Nunca Irá se Apagar”, para além evidentemente de múltiplas parcerias com rappers brasileiros. Ficará para sempre também a marca do seu talento e a inspiração que ainda hoje muitos sentem. Mais um mártir que chegou cedo demais ao Clube dos Rappers Mortos. Sabotage é nóiz!





quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Teddy Pendergrass

Teddy Pendergrass, cantor norte-americano, faleceu ontem, 13 de Janeiro, em Filadélfia. Tinha 59 anos e partiu depois de há oito meses ter feito uma operação devido a um cancro no cólon. Era considerado um ícone sexual na música nos anos 70 e 80 mercê das interpretações inflamadas de romantismo e, por certo, pelo dom da sua voz quente e sensual.

Nascido a 26 de Março de 1950, Teddy Pendergrass também conhecido como Teddy P, Teddy Bear ou simplesmente TP, tornou-se famoso como cantor e compositor em géneros musicais como o R&B, Soul, Jazz ou Gospel. Integrou o colectivo Harold Melvin & The Blue Notes de onde saíram sucessos como "Wake Up Everybody" ou "If You Don't Know Me By Now". Devido a conflitos, Teddy lança-se a solo, realizando clássicos como "The More I Get The More I Want", "Close The Door", "I Don't Love You Anymore" ou "Turn Off The Lights".

A 18 de Março de 1982, Teddy Pendergrass teve um acidente de carro que o deixou numa cadeira de rodas. Após intensos tratamentos, o cantor regressaria em 1984 com um novo trabalho musical que teve como grande sucesso "Hold Me" com Whitney Houston. Em 1985, no Live Aid em Filadélfia o cantor fez uma aparição pública que deixou todos os seus fãs extremamente contentes e sensibilizados. Por entre digressões e labor no estúdio, Teddy abandonaria a indústria da música em 2006. Ontem, com 59 anos (longe de ser velho), sucumbiu após dificuldades em recuperar da cirurgia ao cólon. Os grandes nunca morrem! Descansa em paz, Teddy!

Discografia:

1977: Teddy Pendergrass (Philadelphia International)
1978: Life Is a Song Worth Singing (Philadelphia International)
1979: Teddy (Philadelphia International)
1979: Live! Coast to Coast (Philadelphia International)
1980: TP (Philadelphia International)
1981: It's Time for Love (Philadelphia International)
1982: This One's for You (Philadelphia International)
1983: Heaven Only Knows (Philadelphia International)
1984: Love Language (Asylum)
1985: Greatest Hits (Philadelphia International)
1985: Workin' It Back (Asylum)
1988: Joy (Elektra)
1991: Truly Blessed (Elektra)
1993: A Little More Magic (Elektra)
1997: You and I (Surefire)
1998: The Best of Teddy Pendergrass (The Right Stuff)
1998: This Christmas I'd Rather Have Love (Surefire/Wind-Up)
2001: Greatest Slow Jams (The Right Stuff)
2002: From Teddy with Love (Razor & Tie)
2004: Love Songs Collection (The Right Stuff)

Alguns Êxitos:








quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O Legado de Big Punisher

O filme que retrata a vida de Big Punisher chegou ontem aos cinemas americanos. Como é habitual neste género de documentário, a película, dirigida por Vlad Yudin e intitulada “Big Pun: The Legacy”, traz imagens raras do rapper dentro e fora dos estúdios e palcos, assim como entrevistas exclusivas que relatam o Big Pun mais sensível, muito ligado à família e amigos. Prodigy, Raekwon, Redman, Keith Murray, Xzibit, Snoop Dogg e B-Real são alguns dos rappers que prestam o seu tributo.
Provavelmente não chegará a ser exibido em Portugal, mas, para quem aprecia este tipo de filmes biográficos, fica a sugestão.



Big Punisher sempre andou de mãos dadas com a controvérsia e muitos problemas familiares. Ainda em criança conviveu com o uso excessivo de drogas por parte da mãe, a saída de casa do pai, assim como os abusos de um tio. Mais tarde, abandonou os estudos, aventurou-se também ele no mundo das drogas e sobreviveu em prédios abandonados (este lado mais obscuro da vida de Big Pun é retratado noutro documentário realizado em 2002, que tem o nome de um dos seus grandes sucessos: “Still Not a Player”).
Enquanto rapper, e já a oscilar entre os 200 e 300 kg, Big Pun somou desde logo duas grandes malhas: “I'm Not A Player” e “Still Not a Player”, duas faixas que integraram o seu primeiro álbum “Capital Punishment”. O mesmo registo que o acomodou no trono de primeiro latino a amealhar uma platina discográfica. A nomeação para os Grammys surgiu logo depois, embora Jay-Z acabasse por deitar as mãos ao pequeno troféu.
Fat Joe resgatou-o para a Terror Squad, uma crew encabeçada por ele próprio. Mas dois anos após o primeiro trabalho e a dois meses do lançamento do segundo ("Yeeeah Baby"), Big Pun acaba por sucumbir devido a um ataque cardíaco, resultado do excesso de peso e de depressões. Ficou a obra de um artista latino que granjeou marcar uma era na América e que foi traído pelo seu próprio corpo ainda bastante novo.

Recordando "Still Not a Player":


sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Biofonia: Elaisa

Elaisa desde cedo se sentiu atraída como um íman pela música. Era sua crença que parte importante da sua vida iria ser dedicada à exploração desta nobilíssima arte. Apologista da máxima «querer é poder», Elaisa é dona dum currículo extenso que conta, por certo, com muitos aplausos.

Começou a desenhar o seu percurso na música em festas de família e amigos. A estreia oficial foi pela porta grande: «Eu iniciei-me como cantora em 1996 no Festival da Canção». Treze anos volvidos, Elaisa mantém-se na peugada da evolução nos domínios da Soul, do R&B e do Hip Hop. Instada a avalizar o ponto de situação e a falta de tradição da Soul e do R&B em Portugal, a cantora é clara na carência primordial para a prosperação dos géneros cá no burgo: «Temos de trabalhar muito!».

Elaisa já labutou com artistas de outros quadrantes da música, embora nos últimos anos tenha intensificado a sua ligação com o Hip Hop. Mas nem sempre foi assim: «Na época em que me iniciei, não existia em Portugal Hip Hop ou R&B com que eu me identificasse. Existia o Boss AC mas as minhas referências vinham da América. Até eu entrar no Hip Hop em Portugal eu cantei com vários cantores que não eram da área do Hip Hop». De entre o rol de artistas com que Elaisa partilhou os palcos contam-se os nomes de Marco Paulo, Sara Tavares, Blackout, Santos & Pecadores, GNR, Paulo Gonzo, Paulo de Carvalho, Kussondulola, Xutos & Pontapés, Cool Hipnoise. Dentro do Hip Hop, destacam-se as colaborações que fez com NBC, Sam The Kid e DJ Nel’Assassin. Elaisa revelou-nos quem foi o seu padrinho no Hip Hop: «O meu baptismo no Hip Hop foi quando conheci o Sam The Kid».

Pese o facto de não ter sido muito assídua, Elaisa descreve-nos assim as primeiras festas de Hip Hop em Portugal: «Na altura, não frequentava muitas festas de Hip Hop porque como já disse trabalhava noutras áreas musicais e não me identificava com o Hip Hop que existia. Mas as festas underground eram acontecimentos memoráveis». Uma das razões que aponta para o sucesso desses encontros era a existência dum «convívio salutar, familiar», concretiza.

Questionámos Elaisa sobre as companhias com quem habitualmente se dava nos primeiros anos da cultura em Portugal. A resposta foi: «Boss AC». Ainda nas coordenadas desse tempo passado e remexendo no baú das recordações, há um artista em particular que Elaisa considera que foi uma pena ter deixado o rap: «General D», afirma.

O crime e a marginalidade estarão, no entender de Elaisa, sempre associados ao Hip Hop porque «ele nasceu dessa vertente», alimentado pelo “stress do ghetto”. Porém, a cantora releva fundamentalmente que «o Hip Hop é o poder da palavra». Mas sem palavras ficou quando esteve naquele que assume ter sido o seu concerto mais entusiasmante: «Adorei um concerto de Hip Hop que houve no Pavilhão Atlântico com Fat Joe, Akon, entre outros. Amei!».

Desafiada a revelar os artistas que mais admira no rap português, Elaisa enumerou «Sam The Kid, Valete, Boss AC, Xeg». Se no início do Hip Hop português tudo era visto como uma «novidade, uma nova era», hoje ele já possui idade suficiente para nos dar «referências». Tal como muitos outros, Elaisa considera que «sem dúvida Rapública» foi o maior marco de sempre do rap em Portugal.

Admiradora de Aaliyah, Timbaland, Nas, Aretha Franklin, Stevie Wonder, Marvin Gaye, entre outros, Elaisa promete continuar a lutar pelo seu sonho no mundo da música. As novidades sobre os seus novos trabalhos não devem tardar a surgir mas como a própria fez questão de afirmar: «Esperem para ver!».

O HIPHOPulsação endereça um enorme obrigado à Elaisa pela sua contribuição e cedência das fotos.
Druco e Sempei.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Biofonia: Royalistick



Royalistick nasceu em Lisboa a 4 de Fevereiro de 1982. Ainda adolescente, quis que o rap fosse para si mais do que uma paixão. Era ambição dele tornar-se interveniente directo por via do mcing. Enveredando por esse caminho, fez parte de projectos como Eskumalha Click, DHC e Organização. Em 1999, Royalistick estreou-se na mixtape de DJ Sas chamada “2ª Vaga”. Seria ainda o mesmo DJ Sas a dar-lhe uma nova oportunidade com a mixtape “Flowmasters”.

Também conhecido como Don R1, projectou a edição de um EP - “2003 Decibéis de Escrita”. Passaram-se alguns anos após a sua estreia e a sua vontade em evoluir no rap não refreava. O desejo de rimar era latente faltavam-lhe apenas as oportunidades.

No belo ano de 2004, Royalistick recebe uma boa-nova que o entusiasmará e o fará sair definitivamente do anonimato no seio da comunidade Hip Hop em Portugal. Twism, recém-fundador da editora Chocolate Bars, teve a ideia de fazer uma compilação com vários artistas para precisamente celebrar o surgimento do seu selo discográfico. Royalistick foi então desafiado por Twism para compor um tema para “Beats & Rimas”, nome da empreitada de Twism. O mc de Almada apresentou o tema “Xlibris”, que se cotou como um dos melhores desse projecto.

Royalistick pretendia cimentar a sua posição no rap nacional através da concepção de um álbum em nome próprio. Assim, em 2005, “Visão Periférica” sai do estúdio e conhece as montras das lojas, naquele que seria o primeiro disco de Royalistick. O álbum foi fruto de uma parceria entre a Chocolate Bars de Twism e a Lucky Link Records do próprio Royalistick, contando ainda com a distribuição da SóHipHop.

As reacções a “Visão Periférica” foram de uma forma geral bastante positivas e Royalistick via-lhe ser reconhecido o mérito e confirmavam-se as expectativas daqueles que lhe auguravam um bom futuro. O disco foi-se entranhando nos ouvidos da comunidade Hip Hop portuguesa e os elogios foram-se espalhando em várias plataformas de comunicação. Chegou 2006 e com ele novidades. Royalistick mudou-se para a editora Footmovin’ Records a fim de elevar a qualidade do seu trabalho e os níveis de exposição.



Os objectivos passavam por trazer mais qualidade e mostrar a evolução que o seu trabalho sofrera. “Portfólio” saiu em 2008 e foi uma aposta forte de Royalistick. E ganha, diga-se. Com um disco assente numa linha bastante pessoal, Royalistick fez-se acompanhar dos produtores Madkutz e SP e reuniu um leque de convidados que lhe garantiram que este documento musical ficava na memória dos ouvintes de rap português. À custa de temas fortes, o rapper da Margem Sul teve a possibilidade de levar a sua música a outros públicos pois actuou em alguns programas de televisão.



Para além dos seus dois discos, Royalistick participou em trabalhos alheios como os de Madkutz, Twism, Núcleo e Vokábulo. Olhando para trás, Royalistick conseguiu revelar-se como um bom valor do nosso rap. Gostos à parte, ninguém lhe pode retirar a solidez dos vários projectos em que se envolveu. Só assisti a um concerto ao vivo de Royalistick, na Casa da Música, e gostei bastante da sua atitude durante o concerto. Curiosamente, Royalistick afirmou que essa foi uma das melhores noites que viveu em palco. Anunciada a sua retirada, espera-se que, um dia, possa regressar com o ânimo renovado, com mais energia, com mais qualidade, pois há certamente muitos fãs que deverão estar tristes com esta situação. Que isto seja uma vírgula e não um ponto final no seu percurso. Por todo o seu trabalho e dedicação, a nossa saudação a Royalistick!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Biofonia: Mr. J. Medeiros

Para quem toma contacto pela primeira vez com o artista um facto salta imediatamente à vista: o apelido Medeiros, que é tudo menos tipicamente americano. A história deste apelido está relacionada com a ascendência do rapper. A sua família paterna descende de açorianos que emigraram para os States.

Mr. J. Medeiros trocou a barriga da sua mãe por este mundo no dia 9 de Setembro de 1977. O parto foi realizado em Colorado Springs, nos Estados Unidos da América. A infância de Medeiros foi bastante activa pois viajou constantemente entre New England, Rhode Island e Colorado. New England teve um forte impacto na sua vida pois foi precisamente aí que o trovão do Hip Hop fez estremecer o corpo e a mente do jovem Medeiros. E porque as avós deixam-nos quase sempre uma marca indelével na nossa vida, a avó de Mr. J. não foi excepção. Ela ofereceu-lhe uma aparelhagem juntamente com uma cassete de Run DMC, tornando-se decisiva na paixão que o neto viria a desenvolver. Rica prenda!

A estreia musical de Mr. J. Medeiros deu-se quando ele tinha apenas 10 anos de idade em rádios locais mas com ele a interpretar canções de... Natal. Como um surfista se apaixona pelas ondas, Medeiros também adorou domar as ondas hertzianas. Com uma família intimamente ligada à música, era previsível que ele tendesse a seguir essas pisadas. Porém, foi no liceu que tudo começou a ficar mais claro para o pequeno Jason. Todo um mundo novo se formava diante dos seus olhos e lhe estendia a mão. O seu instinto levou-o a que ele acedesse a essa solicitação do... Hip Hop. Assim, Mr. J. tornar-se-ia DJ, MC, b-boy e com a sua crew T.S.F.K. dedicou-se ainda ao graffiti. Um amor arrebatador foi o que sentiu em relação ao Hip Hip e que o levou a experimentar todas as suas vertentes.

O enlace entre Medeiros e o Hip Hop estava consumado. Em 1998, tudo fica mais sério e Medeiros funda The Procussions, que editariam três álbuns: “As Iron Sharpens Iron”, "Up All Night” e “5 Sparrows for 2 Cents”. Medeiros partilhou o palco com gente como Run DMC, De La Soul, Common, The Roots, entre outros. Em 2007, inicia uma carreira a solo com o álbum “Of Gods and Girls”, cujos os temas “Constance” e “Keep Pace” se destacam.



A vertente social de Mr. J., apesar de estar impregnada na sua música, brota sob outras formas. Jason Medeiros já foi voluntário em várias organizações, tem um papel activo contra o abuso sexual de crianças e contra o tráfico de seres humanos. Nestes dois últimos casos, tem que se dar relevância ao single «Constance», que faz parte de “Of Gods and Girls”. A canção, que teve direito a vídeo, é um importante relato que chama a atenção para esses crimes, que parecem estar sempre em ascensão. São conhecidas ainda incursões de Medeiros a favor do meio ambiente.

Mr. J. é um artista intenso, sensível e responsável. Ele usa a arte para provocar a mudança nos outros. A sua mensagem eleva-o à categoria dos ilustres. Ele é o portador da tocha cívica, questionando todas as formas de poder instalado. Há quem o considere o último bastião do verdadeiro rap e a grande esperança para salvar o rap norte-americano. Principalmente porque as palavras de Medeiros estão pejadas de verdade, sinceridade e inspiração. No seu mais recente trabalho, o EP “The Art of Broken Glass”, Medeiros aliou-se ao conterrâneo Boonie Mayfield e com cinco temas apenas construiu uma constelação musical. Dicção segura, letras boas e instrumentais nota cinco.

A nível artístico, Medeiros está imerso em múltiplas influências e de várias modalidades da arte, desenvolvendo assim vários interesses. Junte-se a isso a já referida alargada actividade de causas sociais, onde o humanismo, o voluntariado, os direitos civis ou a protecção dos menores são mandamentos essenciais para si. Assim, a música de Medeiros transparece toda esta ambiência magnânima num misto de poeticidade que advém naturalmente do seu talento mas também das tais referências artísticas de outros quadrantes. A textura sonora arquitectada por Medeiros possui alma, tem consciência e conhecimento e procura entrelaçar-se definitivamente com todos os ouvintes que aguardam o profeta justiceiro com o poder de fazer a revolução que abranja todos. Cada canção de Mr. J. é um vislumbre de sagacidade, uma demonstração de habilidade, criatividade e carácter. Pura arte é assim a súmula de todo o trabalho artístico e social de Mr. J. Medeiros.

sábado, 30 de maio de 2009

Biofonia: General D

General D – nome artístico de Sérgio Matsinhe – nasceu em Moçambique, na antiga Lourenço Marques que conta hoje com a designação de Maputo. Saiu do ventre de sua mãe no dia 28 de Outubro de 1971, experimentando a potência das suas cordas vocais pela primeira vez neste mundo. Quando sorvia há dois anos apenas os perfumes do país da marrabenta, a sua família decidiu viajar para Portugal. Assim, foi nos arredores de Lisboa, capital portuguesa, que o pequeno Sérgio Matsinhe cresceu. A sua juventude foi bastante activa. Na escola, a performance de Matsinhe foi francamente boa. A aptidão escolar estendeu-se ao desporto, constando-se que coleccionou algumas meritórias distinções no atletismo.

A sua sede por África levou-o a vasculhar as suas origens. Ao interesse e à inspiração que lhe provinha dos costumes africanos, General D acrescentou-lhe o ritmo e a essência do rap. Nele encontrou uma forma de se exprimir individualmente mas também era um veículo privilegiado para afirmar a sua africanidade. As preocupações de ordem social e política iriam conduzi-lo ao vínculo com movimentos ligados aos direitos das minorias e ao racismo, sendo inclusive candidato a deputado para o Parlamento Europeu pelo antigo partido “Política XXI”.

Nos alvores da década de 90, General D é já um dos grandes dinamizadores e pioneiros, pois claro, do rap em solo luso. Em 1990, organiza mesmo o primeiro festival de rap em Portugal. Tal acontecimento teve lugar na “Incrível Almadense”, na cidade do Cristo-Rei. De entre o leque de convidados para este evento destacaram-se Black Company, African Power e o próprio General D. Em 1993, tornar-se-ia o primeiro rapper nacional a assinar um contrato discográfico. General D afiliou-se à EMI-Valentim de Carvalho. Passado um ano, saía o EP “Portukkkal é um Erro”. Devido à novidade e ao carácter explícito das letras, Portugal recebeu mal o trabalho do artista. Todavia, a implantação do rap em Portugal estava feita e o nome de General D figuraria para sempre no livro de honra do rap em Portugal, em virtude do seu pioneirismo. O abalo que General D provocou extravasou mesmo as fronteiras de Portugal.



Em 1995, General D inicia um périplo de concertos cujos momentos altos foram a actuação no Festival Imperial, na cerimónia de entrega dos prémios do ainda jornal “Blitz” e na Festa do Avante. Ainda nesse ano, é editado o seu álbum “Pé na Tchôn, Karapinha na Céu”, gravado por General D & Os Karapinhas, contando com a produção de Jonathan Miller. Derivando pela pop e pelos sons afro, o rap de General D foi agora bem recebido pela crítica, particularmente o tema “Black Magic Woman”. Com África sempre no pensamento, a música de General D obrigatoriamente teria de emanar essa estética continental, como se cada nota musical contivesse os sabores e exalasse os cheiros de África. Deste modo, tornava-se claro que o rapper pretendia partir do tambor africano até ao rap. Afro-rap, naturalmente. O ano de 95 foi de tal forma fértil para General D que ainda teve tempo para participar com os temas “Intro”, “Olhar para Dentro” e “Timor” no álbum «Timor Livre». Disco este que foi resultado de um espectáculo no Centro Cultural de Belém em que se prestou tributo e se demonstrou solidariedade em relação ao povo timorense.


Chegou 1997 e General D, após concertos dados dentro e fora de portas, edita “Kanimambo”, cuja produção esteve a cargo de Joe Fossard. Daqui para a frente as aparições de General D foram esporádicas. Participações com Ithaka (“Erase the Slate of Hate”), com Fernando Cunha, membro dos Delfins, (“Pensamento Circular”), e nas colectâneas “Sons de Todas as Cores” e “Onda Sonora”. Foi tudo o que General D nos deu a ouvir. Não sei se se retirou definitivamente, se está a fazer uma longa pausa ou sequer se pensa regressar ao rap. O que sei é que é uma pena que não se tenha mais ouvido falar dele.



General D afirmou em várias entrevistas que não gostava que lhe colocassem o rótulo de pai do rap português. Tal recusa devia-se ao facto de General D pretender que o movimento, que dava os primeiros passos no nosso país, fosse unido. Assim, recusava liminarmente hierarquias, preferindo que se sentisse um clima de “irmandade” – palavra usada pelo próprio General D. Precursor, activista do movimento, General D deu-nos uma óptima lição sobre como viver a música. Pela africanidade que tanto prezava, nada melhor do que lhe agradecer em Ronga, idioma originário de Maputo: Kanimambo (obrigado) General D!

quinta-feira, 19 de março de 2009

J Dilla Changed Our Lives

J Dilla mudou as nossas vidas. A de todos os que gostam de Hip Hop. Digo-o peremptoriamente. Poderia basear-me somente na minha pessoalidade e exprimir a admiração que nutro por J Dilla. Porém, coloco definitivamente a afirmação no plural, por ter a plena consciência de que J Dilla não tocou somente o meu coração. Ele conquistou o mundo, com o seu talento, com a sua obra extraordinária, com a sua paixão pela música e pela cultura Hip Hop. Onde quer que esteja hoje, J Dilla deve estar orgulhoso e pode descansar em paz, pois deixou na Terra pegadas intemporais, conservadas pelo estatuto de mito dentro da comunidade Hip Hop.

Natural de Detroit, J Dilla cresceu rodeado de música, por influência directa dos seus pais. Em virtude desse facto, precocemente ganhou uma forte educação e paixão musicais. Há quem diga que J Dilla só veio a este mundo para nos presentear eternamente com o seu primoroso dom. James Dewitt Yancey a.k.a. Jay Dee a.k.a. J Dilla rapidamente se notabilizou, tendo sido o mentor do aclamado grupo Slum Village. No seu currículo, são infindáveis as colaborações que fez enquanto MC e produtor. J Dilla criou batidas para gente ilustre, desde The Pharcyde, Common, passando por De La Soul, A Tribe Called Quest, até Busta Rhymes, entre muitos outros. Essas mesmas figuras do rap eram fãs de J Dilla e beneficiaram muito do toque de Midas do genial produtor. Outros arquitectos de batidas, inclusive mais bem sucedidos em termos de vendas, nunca tiveram pejo em afirmar a influência de J Dilla nos seus trabalhos.

Com uma sonoridade difícil de classificar, em virtude da sua versatilidade mas também pelo experimentalismo característico das suas produções, J Dilla fundou um estilo único, onde o extremo bom gosto impera, catapultando-nos obrigatoriamente para um outro universo sonoro. J Dilla introduziu no jogo das produções uma classe, um brilho, um requinte, um sabor, uma emoção, perfeitamente ímpares. Dominando a MPC, namorando com os instrumentos ou empunhando o microfone, Jay Dee realizou um trabalho maravilhoso e inesquecível. Envolto numa aura magnificiente, J Dilla era acarinhado pelas mais diversas celebridades musicais, tanto pelo seu génio como pela sua postura sóbria.

Então por que partiu J Dilla injustamente tão cedo, três dias depois de completar 32 anos? A vida tem mistérios insondáveis é certo, mas ainda assim Yancey teve oportunidade de deixar um vastíssimo espólio e o seu fantástico exemplo de vida. A doença que ceifou a vida de J Dilla – lúpus – corroera-lhe o corpo durante cerca de quatro anos. Desde 2002, altura em que soube do diagnóstico, até falecer, em 2006, “o produtor favorito do teu produtor favorito” foi resistindo bravamente às agruras da doença. Não deixou que a abominável maleita o afastasse da sua paixão. Assim, J Dilla continuou envolvido em projectos, como até aí tinha feito. Apenas na fase terminal, em que a doença ganhara vantagem na batalha entre a vida e a morte, é que J Dilla foi obrigado a largar definitivamente as notas musicais. Porém, já tinha preparado a sua partida, deixando três álbuns originais prontos para serem editados: “Donuts”, “The Shining” e “Jay Love Japan”.

J Dilla deveria ter vivido muito mais tempo, de modo a presenciar, in loco, a toda a aclamação que lhe devotam. Ele merecia. Todavia, J Dilla vive em cada instrumental que criou. Uma a uma, cada batida é uma gota de genialidade que lhe escorreu da alma. J Dilla faleceu mas legou à humanidade um cardápio de canções que nos faz sentir o valor da vida, que nos transmite a emergência de viver, essa dádiva celestial. Yancey, tal como Alberto Caeiro, era do tamanho do que via. Inovador, visionário, sempre empenhado na perseguição da originalidade. Foi um ser humano altruísta, predestinado a alimentar o espírito de todos os apreciadores da arte e ciência de combinar harmoniosamente os sons. Deu-nos música como quem nos dá matéria essencial para a vida. Preciosa, única, apaixonante. Por isso, é eterna a existência e obra de James Dewitt Yancey.

O exemplo de J Dilla e a sua criação despertam-nos para a vida. Lembram-nos que não há tempo a perder para nos entregarmos ao que realmente amamos. Ele, que preencheu os seus dias a fazer arte, incita-nos através desse modelo a sermos determinados, perseverantes, lutadores e corajosos. A estes predicados juntou-se o talento em J Dilla. A sua música entra-nos pelos canais auditivos, numa osmose de êxtase e de nirvana, atravessa todo o nosso corpo e infiltra-se no nosso espírito até atingirmos a satisfação plena.

O maestro James Dewitt Yancey nasceu a 7 de Fevereiro de 1974 e faleceu a 10 de Fevereiro de 2006 mas, assim como com o mestre Alberto Caeiro, entre a data do seu nascimento e a da sua morte todos os dias foram seus. O mais reconfortante de tudo é saber que os dias vindouros também serão eternamente de J Dilla, pois ele é a luz permanente que irradia, desde o céu, a inspiração!

terça-feira, 10 de março de 2009

BIOFONIA: Black Company

A poesia negra

Considerados por muitos os avós do rap nacional (tal como sucede com Kool Herc e Afrika Bambaataa em relação ao movimento hip hop nos EUA, hoje universal), os Black Company nasceram com o movimento em Portugal, retiraram-se aquando do seu crescimento e regressaram com um estilo adequado à época.

Voltando duas dezenas de anos atrás... Foi nas ruas que Maddnigga aka Bambino, Bantú aka Guto e companhia começaram por fazer o que na altura por cá não se ouvia na língua de Camões: rimas faladas em cima de batidas. Obviamente ainda embrião, o rap que inicialmente se apresentava em concertos por esse país fora era sobretudo um jogo de palavras tão puro quanto o mais natural possível. E (naturalmente) ainda pouco compreendido, conhecido e até respeitado em Portugal, o rap dos Black Company sofreu um revés quando, após três anos do seu nascimento, o grupo separou-se. Mas tão rápido quanto o seu desaparecimento foi o regresso de Guto, Bambino e Tucha como Machine Gun Poetry. Desse grupo só restaram mesmo os três elementos, até porque o nome viria a ser mudado definitivamente para Black Company. Makkas e KGB juntaram-se então à formação.

A Rapúblicação de uma Geração Rasca

Depois do primeiro concerto, o grupo da Margem Sul conseguiu espalhar a sua mensagem até chegarem à tv. Daí a virar gravação passou um ano. Em 1994, os Black Company juntaram-se a Boss Ac, Zona Dread, Family, entre outros, numa compilação que marcou tanto uma geração de mc's como uma época de apreciadores da arte que actualmente já apaixona milhões por esse mundo inteiro. A colectânea 'Rapública' ainda hoje é dos álbuns mais vendidos de rap em português. Com esse estrondoso e (talvez) inesperado sucesso, lucraram os rappers que nela deixaram o seu testemunho, lucrou o hip hop nacional e lucraram os Black Company, obviamente. A faixa 'um' ('Nadar') retirada desse cd acomodou-se nos nossos ouvidos e de lá não mais saiu. A não ser quando a letra andou de boca em boca até se consolidar como o primeiro grande clássico do nosso rap. Um ano após esse verão escaldante, ninguém ficou admirado que Bambino e seus manos imortalizassem em disco as suas rimas e batidas. 'Geração Rasca' surgiu com muita expectativa mas desapareceu com falta de reconhecimento. Mesmo assim ficaram faixas como 'Abreu' e 'Geração Rasca'.

Os Filhos fora de série!

Apostados em voltar a retribuir solidamente tudo que de bom o hip hop lhes proporcionava, e depois de três anos em rotação nacional, os Black Company reuniram tropas pra bombardearem-nos com o segundo disco oficial do grupo. 'Os Filhos da rua' saiu directamente para as prateleiras dos críticos e adeptos do movimento. Temas como 'Gina', 'Chico Dread' ou 'Genuíno' ajudaram definitivamente o grupo a marcar o seu território no rap tuga. O hip hop era escutado, era reconhecido, mas, sobretudo, era respeitado!

Sem razão aparente, os Black Company desapareceram do activo. Pelo menos colectivamente, já que continuaram a participar em vários projectos, quer a nível de produção, quer a nível de pequenas participações. Guto abrilhantou o seu caminho a solo com uma parceria discográfica com Boss AC. 'Private Show' foi a contribuição do duo para uma nova abordagem no rap português que passava pelo R&B e a Soul. Seguiram-se 'Chokolate' e 'Corpo e Alma' no repertório de Guto, projectos notoriamente influenciados pelo lado mais soft do rap.

Durante os últimos anos, o rap vem fazendo-se ouvir cada vez mais. E é notório que o movimento hip hop vem sendo cultivado e progressivamente consumido por um número cada vez maior de pessoas, embora nem sempre pelos motivos mais endógenos. Aproveitando este 'boom' da atenção e propaganda dada a este estilo, os Black Company regressaram o ano passado com 'Fora de Série'. Já sem KJB (actualmente na Holanda), os 'filhos da rua' apresentam-se agora num estilo menos old school e mais na onda party. 'Só Malucos' foi single de apresentação e teve direito a participação de Adelaide Ferreira.

Pode-se dizer que os Black Company cultivaram a semente do movimento hip hop em terras lusas, viram crescer o produto (quase) por fora, e voltaram para colher os seus frutos. Nada mais justo.