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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

L.C.R. - "Essencial" (Álbum para download)



Foram largos anos a pairar no ar da Invicta, mormente em Aldoar, sob forma de "fumo" à espera que este originasse o "fogo". "Essencial", o mais-do-que-esperado-e-pedido álbum de L.C.R. (Livre Comunidade Rimática), que junta Nocas e Berna a DJ D-One, chega finalmente às ruas do Porto, embora não da forma por que todos aguardavam.

Gratuito, sem edição física, nem masterização e mistura, o trabalho estende-se por 14 temas, entre eles alguns já virados emblemáticos, como "Criativo", "Turista" ou "Namoros". Mundo (DLM) e Presto (MDG) são convidados de honra de um álbum onde D-One se encarrega da maior fatia de instrumentais, juntando-se-lhe um beat de Mundo, Auge e outro de Xis.

Apesar de várias participações alheias como L.C.R. nos últimos anos (depois do término em 2000), Nocas e Berna têm trilhado carreiras a solo. A mixtape "Manutenção" (2009) foi o último registo de Nocas Infinito. Já Berna lançou o ano passado o EP "Como Deve ser", tendo depois regressado ao lado de Mundo e Né num EP de Sindicato Sonoro.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Reportagem: Nocas, Regula & Reks @ Hard Club (5 de Março)

Mais uma noite de grande rap em perspectiva, mais uma ida ao Hard Club. Saudável rotina em que se está a tornar. Desta vez, Nocas (+ Dior), Regula (+ Sam The Kid) e Reks (+ DJ Premier... Não!!! Mentira, mas que bom que seria!!!). Dois nomes de respeito do rap nacional, mais um talento em crescendo no rap americano, que veio culminar no Porto a tour europeia de apresentação do seu mais recente disco: "R.E.K.S. (Rhythmatic Eternal King Supreme)". A noite de 5 de Março prometia.
Com apresentação de Maze, o primeiro a subir ao palco foi Nocas. Eram certamente muitos os que aguardavam pela oportunidade de ver este valoroso rapper ao vivo, depois da aclamada mixtape que lançou ("Manutenção") e da longa ausência dos palcos. Auxiliado por Dior, Nocas esteve exímio com o microfone na mão, mostrando-se sempre seguro, descontraído e comunicativo. Apesar de não ser um artista que se exiba regularmente (muito pelo contrário), o rapper de Aldoar é portador de uma acentuada admiração no seio dos aficionados de rap nortenho e prova disso foi o caloroso acolhimento por parte da plateia (embora esta tenha esmorecido em certos períodos) que compunha muito bem a sala (algo distante da lotação máxima, mesmo assim). O grande momento da actuação de Nocas foi guardado para o fim, com o clássico "Expansão Suspeita" a ser interpretado em dois beats diferentes, acabando acompanhado pelas acrobacias do b-boy matosinhense Aiam (ele que até à altura assumira o comando da mesa dos pratos)

Seguiu-se Regula, com o seu estilo muito particular e a lírica que o caracteriza. Apresentando temas quer dos seus álbuns quer das suas mixtapes, Gula fez-se acompanhar por Holly-Hood e Short Size (Show No Love) e ainda DJ Kronic e não desiludiu os seus fãs, ávidos por o ouvir cuspir no microfone. Deu um concerto talvez demasiado longo, mas entregou-se a fundo. Com ele, trazia um trunfo que sozinho era gerador de compensar qualquer desastre em palco de todos aqueles que estavam em cartaz: Sam The Kid! E como o povo se mostrou feliz quando ele entrou em cena... STK surgiu para pôr em práctica sons de projectos alheios onde participou juntamente com Regula, como a mixtape de Xeg, o álbum de New Max ou "Kara Davis" do próprio Bellini. Escusado será dizer que as rimas de Sam (sobretudo) foram acompanhadas por inúmeras vozes entusiastas, tendo a faixa de "Kara Davis" posto o Hard Club em polvorosa como nenhuma outra naquela noite. Regula sentiu o calor tripeiro pela segunda vez em 2011 e foi ele (e Sam the kid, claro!) quem gerou maior êxtase no público na noite de 5 de Março.

Finalmente, Reks punha a casa em alvoroço. Quer dizer, punha alegres aqueles que esperaram para o ver. De facto, muita gente se retirou assim que acabaram as actuações lusas. Convenhamos que os concertos começaram às 2h50. Reks começou quase às 5h da matina. É só fazer as contas e pensar se vale mesmo a pena começar tão tarde e depois o cabeça de cartaz, vindo dos States, entrar em palco, olhar o público e ver grandes clareiras. Não obstante este facto, Reks mostrou ânimo e derramou paixão sobre aquele mic. A sua exibição no Hard Club foi a confirmação de um artista de mão cheia, com grande capacidade lírica que se mostra arrasador cuspindo nos beats de Premier e Statik Selektah (sobretudo destes dois)! Do alinhamento que Reks escalou, incidência óbvia nos dois últimos álbuns, sem esquecer grandes malhas como "Say Goodnight" ou "The One". De sublinhar a (dizemos nós) surpreendentemente fria recepção a "This or That", a contrastar com a boa reacção a "25th Hour", um dos novos sons de Reks, que acabou por ceder ao pedido de vários dos presentes e repetiu o tema antes de se retirar do palco.

O seu respeito pelo show, pelo público, o seu carácter e humildade, ficaram impressos quando ofereceu o seu chapéu a um fã que lhe clamou por esse gesto (também o relógio que trouxe no pulso voou para a plateia). Reks fê-lo prontamente (note-se que o MC americano se exibiu sozinho em palco, tendo sido somente acompanhado atrás dos pratos por D-One)! É muito bom ver estes nomes americanos de grande qualidade a passarem pelo Porto, mas melhor seria que o público mostrasse maior entusiasmo e não abandonasse a sala assim que terminam as actuações portuguesas.

Resumindo, foi mais uma bela noite, sem dúvida, apesar da debandada que antecedeu a entrada de Reks, o que acabou por esfriar naturalmente as hostes. Todavia, todos se empenharam ao máximo em palco para proporcionarem um momento bem passado aos presentes. Isso é meio caminho andado para um espectáculo ter êxito. Que venha a próxima noite no Hard Club, com bons artistas nacionais e com grandes rappers/grupos internacionais. Só nós sabemos porque não ficamos em casa!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Melhores do Hip Hop em 2009 (Portugal)

Melhor álbum de Hip Hop em 2009:

Monstro Robot com o seu álbum homónimo arrecada, para mim, o galardão de melhor disco de Hip Hop português de 2009. Pelas rimas de Stray, pela produção de DarkSunn, pelo scratch de DJ SlimCutz, Monstro Robot combinou o melhor de 3 individualidades num registo único, resultando num trabalho surpreendente. Já escrevi exaustivamente sobre este projecto aqui no blog. Portanto, acho que já justifiquei, na altura, o porquê de considerar agora Monstro Robot como o melhor grupo de rap português no ano de 2009.

Melhor vídeo de Hip Hop em 2009:



Portugal inteiro tem feito uma vénia ao trabalho de Macacos do Chinês. A audácia musical do grupo tem rendido elogios dos mais variados quadrantes da música portuguesa. O vídeo de “Rolling na Reboleira” é bastante simples, divertido e ilustra perfeitamente o bom espírito inscrito no tema. Além disso, o vídeo processa-se fundamentalmente na rua, algo que de se fala muito no rap português, mas que quando toca a fazer um vídeo foge-se bem do sol, da chuva, do frio, do calor, das pedras da calçada, do alcatrão, enfim (e vá lá saber-se porquê!). Este vídeo conta igualmente com a preciosa colaboração do famoso Chato e ganha naturalmente pontos com isso.

Melhor(es) mixtape(s) de Hip Hop em 2009:

Nesta premiação, deveria apenas destacar uma mixtape. Todavia, foi-me completamente impossível escolher uma só. Gostei de ambas, embora cada uma tenha particularidades próprias que as tornam distintas. Talvez tenha sido isso a impedir-me de eleger uma como a melhor. São diferentes no conceito, na abordagem, uma conta com um DJ a tempo inteiro, a outra era um regresso há muito aguardado, uma tem um veterano a rimar que conta com múltiplos trabalhos editados, a outra é de alguém que raramente edita a sua música... Por tudo isto e certamente por mais alguma coisa, Pioneiros de DJ NelAssassin e Mundo Segundo e "Manutenção" de Infinito Nocas são, para mim, essenciais para o rap português, neste ano de 2009.

Algumas menções: Salvaguardo que as referências seguintes não obedecem a nenhuma ordem qualitativa, a qualquer espécie de top, quero deixar isso bem claro. Sublinho apenas alguns trabalhos de que também gostei no rap português para além dos grandes destaques que fiz em cima. Acho que 2009 foi um ano relativamente bom em termos de trabalhos que conheceram edição. Gostei de algumas participações da Compilação Best Off, assim como a prestação de alguns artistas na mixtape do DJ Cruzfader (talvez ainda venha a fazer a crítica a esta mixtape), senti bastante o rap do Supremo G na “Live on Stage”, embora me tenha parecido que muitos convidados estavam claramente desfasados da qualidade patenteada pelo Supremo. Apreciei o trabalho do Madkutz com o Nga; de Berna; Roulote Rockers surgiram com uma vibe muito boa; J-K é um rapper de elevado potencial (muita atenção nele); Bob da Rage Sense também surgiu com um trabalho forte (embora eu ache “M.P.L.A.” um disco melhor do que este). Depois, Suarez fez uma inovação ao apresentar um disco de rap acústico, com bons resultados; Praso também voltou às lides com uma sonoridade interessante. Destaque para o regresso em grande de Xeg, que se tivesse preterido algumas faixas do seu último CD talvez tivesse tido melhores argumentos para poder questionar Monstro Robot como o meu trabalho preferido de 2009. Ainda assim, reforço: muito bom regresso de Xeg. DJ Ride é já uma certeza não só no Hip Hop nacional mas na música portuguesa e New Max também marcou posição com o seu disco. Por último, refiro No Pity que é um projecto fora do âmbito do Hip Hop mas que tem dois protagonistas ligados ao rap: Geny e Xizini. Deixo, para acabar, a nota de que houve alguns discos de rap português que ainda não consegui ouvir como o de Fizz, o de Zero e o de Sr. Alfaiate. Portanto, a minha análise é baseada somente naquilo que ouvi em 2009 e apresento a minha penitência por deixar aqueles discos de fora, não porque não tenham valor para serem mencionados, mas unicamente porque ainda não os ouvi.

sábado, 25 de julho de 2009

Mixtape Manutenção de Infinito Nocas

É com muito gosto que escrevo hoje, anunciando a mixtape “Manutenção” de Nocas. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que ouvi Nocas. Foi com o tema “Expansão Suspeita”. Uma canção muito forte, considerada por NBC na Hip Hop Nation nº6 como uma das melhores do ano 2003. Fiquei entusiasmado com o potencial deste rapper natural do Porto e aguardei sempre com expectativa novas cenas dele. Agora que, para gáudio dos seus fãs, lançou “Manutenção”, após ouvirmos a mixtape, ficamos sintonizados nas razões que levam Nocas a dar tão poucas canções ao rap nacional.

Como uma casta do Douro necessita de tempo para se tornar excelente, Nocas tem a perfeita consciência de que o passar dos anos é fundamental para existir uma maturação humana e artística. Natural de Aldoar, começou a ouvir rap em 1994 e quatro anos mais tarde dedicou-se a fazê-lo. Passou pelo graffiti e pelo breakdance. Estabeleceu a crew L.C.R. que se extinguiu por volta de 2000. De lá para cá, Nocas tem dado o seu contributo em trabalhos de alguns camaradas seus como Mundo, Berna, Barrako 27, Syzygy, entre outros. Com “Manutenção”, Nocas, que pretende dar-se a conhecer também como Infinito, apresenta seis temas, recorrendo a instrumentais do exterior.

“Não quero vender, prefiro me conhecer”. Uma das mais profundas ambições que temos enquanto seres humanos é conhecermo-nos a nós mesmos. Nocas não é a excepção à regra e abre-nos, em “Manutenção”, as páginas que já conhece do livro da sua vida. Se há algo de intransigente que emerge do seu aglomerado de folhas isso é a liberdade! Nocas assume-se como um autodidacta, que em cada experiência quotidiana encontra as coordenadas para seguir avante. Crê que é responsabilidade nossa construir hoje mesmo o paraíso, caso contrário, “o inferno espera-te lá fora”. Embrenha-se na espiritualidade, seu tesouro, para alcançar a calma, para palpar o pensamento, saboreando a vida e sustentando com músculo os seus ideais. A solidão é a terapia que lhe desintoxica a mente, que a natureza faz voar. Quer professar o êxodo citadino pois é defensor da equação cidade igual a lugar limitativo. Nocas tem noção de que não quer pertencer a uma sociedade boçal, em que uma pessoa não é mais do que uma plasticina ridícula. O tripeiro empenha-se na procura dos instintos que a vida actual faz adormecer. Anseia pela elevação e revolta humanas, pela total liberdade, porto de abrigo por excelência, pelo alastramento da arte e gnose e fidelidade aos mandamentos do nosso coração: “faz amor com a tua deusa e serás abençoado”. Todos nós somos uma súmula de muitas coisas. Em “Influências”, Nocas verte os nomes de todos aqueles em que se inspira e que tem como modelos. Através dessas referências, Nocas explica-se a si mesmo.

Através de “Pacto”, fica expresso que independentemente do que se possa suceder, haverá sempre uma corrente inquebrável entre Nocas e o Hip Hop. Aliás, é na música que suga motivação e energia. Ela é a sua medicina alternativa. No tema “Espiritualidade e Êxodo”, Nocas reforça que a música é o atalho mais certeiro para se atingir o espírito e proporcionar que um sol brilhante raie em nós. Uma das belezas do Universo, considera, é o acontecimento mágico da eclosão da arte, em que um minúsculo estímulo pode desencadear o clique transformista. Nocas aconselha que se tenha calma e persistência pois criar um clássico na música requer muito tempo investido nesse objectivo. Isso não se faz da noite para o dia. Em “Não Preciso”, Nocas conclui que tem uma “carreira refunda”. Por outras palavras, mais do que o mcing, o portuense preza sobretudo a escrita, que lhe é essencial pelo prazer que dela retira. E só a morte lhe pode roubar a paz que uma caneta na mão lhe garante. Nocas admite que é lento na redacção pois tem a paciência necessária para procurar a melhor frase no sentido de se exprimir lapidarmente.


Nocas assinala em “Manutenção” uma afiada crítica à cultura Hip Hop em Portugal. Acusa gente de fugir da essência do Hip Hop como o diabo foge da cruz. O pior é que nadam à deriva porque não conhecem a cultura e sem isso não podem senti-la e muito menos preconizar os seus valores. “Que se foda o movimento, ele já morreu há muito tempo” – causas, segundo Nocas: a má-língua e a ignorância. Já se sabe que mc’s precisam de mudar as atitudes e deixarem-se de zangas e ataques pessoais. Mas lá está, como bem diz Nocas, o que move muitos rappers é a competição e não a criação, que logicamente deveria ser primordial. Salienta ainda a falta de diversidade no nosso meio. Nocas é desprendido. Dispensa tudo aquilo que um artista usualmente quer. Acredita no Hip Hop mas a impressão que lhe dá é a de que existem quatro movimentos para cada vertente do Hip Hop! Se com “Expansão Suspeita” assumia as suas dúvidas quanto à saudável progressão do Hip Hop luso, Nocas hoje concretiza dizendo que já não tem ilusões. De poses, rudeza, contos e ditos, boatos, Nocas não precisa. Nem nós!

“Loucura?” é um exercício a que Nocas procede, sugerindo que todas as pessoas que pensem ou ajam de forma diferente, estão sujeitas a que a sociedade as recomende para tratamento. Nocas é um rebelde. Viajamos à sua infância. O seu crescimento é-nos explicado com minúcia, o seu processo de transformação, auto-educação, autonomia, até que deixou de se encaixar na sociedade esquematizada. Simplesmente não lhe acredita, nem nas suas instituições. Abomina a educação formatada e a TV. Repele com nojo o consumismo, a ignorância, a moda, que motiva a comprar-se o que não se necessita.

Na sua mixtape, Nocas evoca ainda os tempos em que nas festas circulavam as maquetas. Presta igualmente uma homenagem aos pioneiros nortenhos que davam (dão!) uma lição a todos os que amam esta cultura. Não se coíbe em referir Dealema, Mind da Gap e MatoZoo. Classifica o ambiente daqueles tempos como “contagiante, consciente e inteligente”. No seu entender, esses grupos foram os guardiões da autenticidade do Hip Hop, solidificaram-no a Norte e fizeram-no seguir pelo rumo certo.

“Manutenção” de Infinito Nocas é o trabalho de alguém com bastantes anos de cultura Hip Hop mas que se encontra actualmente desgostoso com ela. Noutra componente, esta mixtape é a afirmação da filosofia de vida que escolheu e o explanar de razões que o levaram a atingir o limite mental e a desdenhar as normas que regem a sociedade. Nocas partilha connosco passos da sua vida e as suas influências. Para além das juras de amor que faz ao Hip Hop, Nocas apresenta-se como um profundo conhecedor e observador do nosso movimento, não se abstendo – e bem – de fazer todos os reparos que entende. Em “Manutenção”, está expresso o pensamento do artista, do crítico, do cidadão, do hiphopper. Neste ponto, ele não se arrepende das horas que dedicou ao Hip Hop. Se nunca teve álbuns ou os seus projectos foram curtos, considera que a sua evolução pessoal deve-a aos versos que glosou. Mc honesto e empenhado, considera que antes de ser praticante é um eterno seguidor da mensagem que o Hip Hop veicula. Nocas faz da simplicidade a sua arte.

P.S.:Uma vez que se afigura algo pesado e lento o download de “Manutenção” no myspace do artista, tomámos a liberdade de facultar o acesso mais rápido à mixtape através dum novo empacotamento dos sons. Tudo para que não tenham desculpas para baixar este trabalho, que merece ser ouvido. “Manutenção” de Infinito Nocas aqui.