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sábado, 19 de setembro de 2009

Mixtape Poesia Invicta (Crítica)

O nevoeiro sobre o Rio Douro é tão costumeiro e cerrado que se torna difícil, por vezes, a contemplação por entre as suas malhas. Mas há gente que enceta formas de o fazer desmobilizar para que se aprecie a paisagem vedada. Fisko muniu-se de garbo e num sopro de amor à cultura Hip Hop fez levantar parte do fumo húmido que paira sobre alguma da música rap que se faz a Norte. Artistas que se misturam com o granito e que a camuflagem de brumas condena a passarem despercebidos. Mas uma vez revelados, são nomes que reclamam a sua hora nos fios do tempo. A obra de alguns deles será objecto de coroação mas independentemente disso fica a convicção de que a Poesia é para sempre Invicta porque de igual modo é invicta a determinação.

Esclarece-se aos nossos ouvidos uma característica que atravessa toda a mixtape “Poesia Invicta”. Mais do que o sotaque tripeiro, assalta-nos aqui um surto de insaciabilidade em todos os mc’s. Famintos, esgrimem argumentos técnicos e líricos, procurando passar boa impressão. Regra geral, conseguiram-no. Reuniu-se em “Poesia Invicta” um naipe de mc’s que embora jovens já apresentam competência e uma dinâmica verbal de assinalar.

Na sua participação, Age evidencia uma grande vontade de rimar e de dar um ênfase especial às palavras expelidas. Com “Mata-Mata!”, engendrou uma sátira aos rappers que nascem e crescem como cogumelos na floresta do Hip Hop, sem medo de que lhe possa servir a carapuça. Tomou as rédeas da responsabilidade, vestiu o seu fato de Super-MC e ei-lo a declarar aberta a caça aos rappers desajeitados. Age fez amizade com a agressividade, a ironia e a comicidade e essa aliança convergiu no tal plano de mover um cerrado ataque verbal aos traidores da essência HipHopiana. Talvez Age ainda não tenha total propriedade para se imiscuir de microfone em punho no papel de caçador mas ressalve-se a sua intenção.

Duplo Sentido aposta no fim do sono, apropriando-se de garra e de escorreitos flows para endereçar um aviso aos que circulam nos meandros da indústria musical. De “Acorda!” emergem versos que bem poderiam servir como slogan da mixtape “Poesia Invicta”: «Naquilo que faço sou invicto/ Não há equívoco/ Pois na Invicta o bom produto é típico». Prestação francamente boa de DiOr e GaLaRt que comprovam o carácter especial da inventividade: «Ideias são gotas cintilantes no meu caderno».

“Instante com Decibélicos” é um tema que dada a má prestação do grupo se torna numa dolorosa morosidade que aflige os nossos canais auditivos. O flow é estranho, o que torna difícil a compreensão do que dizem. Existiu pouca sensibilidade da parte deles, na medida em que desprezaram a fácil captação da mensagem por parte dos ouvintes, apostando antes na técnica de cuspir. O produto final redonda numa rajada de rimas muitas vezes imperceptível. Escutar esta faixa de Decibélicos é um exercício penoso.

Se há nítidas dificuldades em Decibélicos, Domínio Verbal, pelo contrário, faz jus ao nome. “Estado Zen” é uma canção que traduz o estilo da sua verbalização, pois diria que o flow apresentado é certinho, balanceado com pausas em conformidade com a batida. Mais do que mero exibicionismo de competência técnica, Domínio Verbal explica a sua motivação para o rap, as experiências daí decorrentes e a visão externa sobre os elementos do grupo e o fenómeno musical. Namorando com a música, há aqui uma aposta em jogar-se simples e o resultado demonstra que se almeja a pretendida qualidade.

Guerreiro é mais um rapper ávido que se dá a conhecer na mixtape. Cheio de apetite pelas rimas, ele está pronto para deglutir o que quer que seja, assim parece. “Escuta com Atenção Mano” é um carril autobiográfico puro e duro. Situações menos agradáveis da sua vida são exibidas sem pudores: «Dizem que um homem não chora/ Por isso é que eu rimo às escondidas». Este som é um desabafo que transparece uma enorme revolta pessoal de alguém que carrega o mundo às costas. Se não nos apetece muitas vezes ouvir os problemas pessoais de alguém, neste caso, gaba-se a coragem de Guerreiro que se expõe tão abertamente.

O single da mixtape é uma cortesia de Poker (Spitz e Noura) com a participação de Sky. Percebe-se que “Mantém a Barra” detém estatuto de ponta-de-lança pois é uma canção com qualidade, com um clima de celebração e de união, que ali é promovido e estimulado. A voz doce de Sky, o flow cool, seguro, harmónico, são reveladores da maturidade desta artista que se move também nos domínios da Soul e do R&B, onde se sente igualmente como golfinho na água. Spitz com o seu sotaque cerrado aperta, por certo, o microfone com a mesma intensidade e dispara rimas direitas ao coração de quem é tripeiro: «O espaço que nos separa/ É em pistas que nos une». Noura segue a tónica da cara-metade de Poker e revela o óbvio para qualquer portuense de gema: «Tudo nesta Invicta me inspira a escrita». Os acontecimentos das suas vidas misturam-se com o Hip Hop e elas acentuam a importância que isso teve na união delas mesmas. «Nós temos o Porto unido/ Mantém a Barra»!

A letra “R” bem podia prenunciar a palavra “revelação” dirigida a estes dois rappers. Refiro-me a Realista e a Roke. Realista apresenta o tema “Poesia Invicta” onde derrama a sua história no rap, os seus sonhos, receios, etc. Prodece ainda a uma vincada homenagem a Fisko, organizador da mixtape. «Um amor, uma mente, um ano», refere Realista, que contou com uma participação muito positiva. Por sua vez, Roke possui um flow sui generis, inflamado de paixão e calor. Sente-se que não poupa no sentimento que transmite. Tal como Realista, é um mc com potencial que poderá confirmar a esperança que nele se deposita para o rap quando tiver mais cadernos preenchidos com rimas.

Som Mudo investe com “Ponto de Fuga” numa reflexão sobre a vida e seus tópicos basilares. É um som que se destaca dos restantes pela sua carga introspectiva e mais elaborada. A abordagem a que Som Mudo recorre, obriga-nos, pelo carácter profundo, a ouvir o tema mais do que uma vez para o interpretarmos fielmente. A repetição é algo que se faz com absoluto prazer, esclareça-se. Som Mudo faz-nos sentir como os convidados especiais da canção. Provavelmente, “Ponto de Fuga” é o tema mais proeminente da mixtape. Há uma marca de maturidade acentuada em Som Mudo e a qualidade existe a rodos. Sobretudo, apraz-me a carga poética por eles incutida. Dizzy e Vírus Mental fazem acreditar que por detrás da neblina há uma boa nova à espreita. E todos nós queremos ver esse sol a brilhar!

Vadio é um mc sem papas na língua, que nos garante que a “publicidade é o processo para alcançar e garantir o sucesso”. Adopta uma posição de escárnio em relação ao próprio movimento: «Yo yo, nigga não sei quê/ És gangsta mas a rimar é o que se vê». “Temática” é uma faixa que aponta para a real filosofia do Hip Hop, com Vadio a sublinhar com traço grosso que o conteúdo deve ser mais importante do que o aspecto. Ele tem garra e se a isso acrescentar a persistência teremos aqui um rapper que se dedicará certamente à (re)descoberta da essência desta cultura nos seus projectos vindouros.

W.R.O.N.G compôs para a mixtape o tema “Poesia”. Começa por situar as suas origens e focar o crescimento do número de praticantes deste movimento na Invicta. Com uma boa margem de progressão, demonstra talento e habilidade, para além duma grande vontade em morder deliciosas rimas. Chega a debitar, durante a sua interpretação, nomes de grupos de rap do Norte que são suas influências e uma constante presença nos seus ouvidos. Ficamos com o todo o interesse à espera de mais novidade de W.R.O.N.G.

A mixtape “Poesia Invicta” é como uma cave escura e humilde que alberga castas que se pode pensar como segredos bem guardados. Após a prova das 11 amostras, o nosso palato toma contacto com a textura de irreverência e jovialidade presente em Vadio, deliciando-se ao mesmo tempo com a intensidade e maturidade de Som Mudo; enlevamo-nos com o aroma frutado de Poker e Sky que se entrecruza com a sobriedade de Domínio Verbal, Realista e W.R.O.N.G.; as papilas gustativas dilatam com o ardor de Guerreiro e de Roke e com a efervescência de Age e só o travo de Decibélicos faz minguar esse festival de bom gosto que acontece na nossa boca. Em resumo, “Poesia Invicta” embriaga-nos pela variedade de gamas aqui presentes e que surpreendem porque eram desconhecidas, na maior parte dos casos. Sobretudo, estão aqui colheitas que o tempo poderá amadurecer na tal cave, acrescentando-lhes uma maior qualidade e tornando-as válidas e atraentes para os consumidores. Para mim, desta amostra, há já dois néctares com excelentes propriedades e com um bom grau de maturação: Sky e Som Mudo. O balanço é positivo, brinde-se à mixtape e ao projecto “Poesia Invicta”!

domingo, 6 de setembro de 2009

Entrevista a Fisko (Poesia Invicta)

A mixtape Poesia Invicta é um trabalho saído há pouco tempo para download gratuito. A mixtape destina-se a celebrar o primeiro aniversário dum espaço - também ele designado Poesia Invicta - que apoia e divulga rappers da região Norte de Portugal. Fisko é o grande mentor desta iniciativa, que merece a nossa vénia. É hora de abrirmos as cortinas e colocarmos no palco, sob as luzes, quem está nos bastidores. Fisko tem a palavra.

1- Fisko, já sabemos que a Poesia é Invicta. Mas conterá ela também partículas de ser Antiga, mui Nobre e sempre Leal? (risos )

Boas. Antes de mais queria agradecer o convite por esta entrevista, é sempre gratificante sentirmos que o nosso trabalho é bem visto, sendo o valor do mesmo reconhecido. Sobre a questão colocada, focando-me principalmente no tema “Poesia” e não unicamente em “Música”, isto hoje em dia é “como o povo entender”. (risos) “Antiga”, sim. Sempre foi uma das mais antigas e importantes formas literárias, desde Adolfo Casais Monteiro (1908), por exemplo, que para mim sempre foi uma via mais directa à poesia “Invicta”. “Mui Nobre” já parte da percepção da própria pessoa. Por exemplo, posso muito bem escrever uns versos, divulgá-los e obter feedback negativo, mas sabendo desde sempre que são “frases” sentidas, que mexem com o lado emocional pessoal, derivado a alguma coisa que se tenha sucedido. Sempre achei que um poeta para ser verdadeiramente “Poeta” não precisa unicamente de escrever umas frases “Potentes” como diz o Fuse - (risos) - mas sim compreender a força das palavras. “Sempre Leal”, sim. Se algum dos poetas que conheço (falando agora de Música, “Poesia audível”) me dissesse hoje que não escrevia mais ou que ia abandonar a “farda”, não me acreditava e era capaz de brincar com a situação. Penso que a Poesia é um “bichinho” que se vai apoderando do nosso dia-a-dia. A gente pega-lhe e não lhe quer largar mais. (risos)

2- Quando e como surgiu a ideia do projecto Poesia Invicta?

É um bocado difícil descobrir quando nasceu ou como nasceu o projecto. Sempre gostei de Música. Seja um Rock, House, até Jazz ou um Fadinho, mas a música Hip-Hop sempre me deliciou o ouvido. Partiu daí principalmente. O “gostar” demais do estilo musical. Depois veio a parte percepcional. Lembro-me de ouvir música Hip-Hop quando era pequeno e da continuidade com que ouvia falar mal de Editoras Musicais, que “comiam” muito mas que faziam pouco por uma carreira musical de um certo Músico. Penso que foi nessa parte da minha vida que me mentalizei que alguém podia dar um “empurrão” e apoiar o crescimento Musical Português. Decidi então apoiar o Nortenho pois nunca me identifiquei com Hip-Hop sem ser o aqui criado. Sempre o achei mais “pensado” ou “sentido”.

3- És só tu o cérebro da Poesia Invicta ou existem mais pessoas envolvidas?

Neste momento estou só eu a conduzir o projecto. Tenho imensos amigos que me perguntavam: “Ei, não queres uma ajuda aí no projecto?”. Mas nunca houve uma ligação musicalmente/sentimentalmente identificável que desse para seguir o projecto como eu queria que fosse.

4- Em traços gerais, define os grandes propósitos desta iniciativa.

A verdadeira natureza deste projecto é mesmo o “dar o empurrão”, “diversão” e o estar bem pessoalmente. Sentir que estou a fazer bem a uma cultura que admiro imenso. Já conheci imensos músicos pelo projecto com quem criei uma grande amizade. O resto vem por acréscimo.

5- De que forma se manifesta o apoio da Poesia Invicta aos artistas?

Inicialmente começou num espaço virtual, num Myspace. Todos os meses colocava faixas ou sets de músicos e a sua Biografia (de onde é, como começou musicalmente, etc) e actualmente com projectos concluídos, como por exemplo a EP das Poker (primeira actualização como projecto e já pondo de parte as faixas e os sets), Logico, etc, e estou agora a finalizar o site oficial e tentar criar um “fundo” que garanta a colocação eterna do site online, mas ainda não tem data marcada.

6- É notório durante a mixtape o elogio dos próprios artistas à organização deste trabalho. Achas que fazem falta mais apoios como o facultado pela Poesia Invicta?

De apoios não tanto, até porque a mixtape foi toda organizada via mensagem pelo Myspace e seguidamente um contacto indirecto pelo e-mail, nunca necessitando de gastos para me deslocar e falar directamente com o artista. Penso que o grande “mal” de certos projectos reside na falta credibilidade sobre o organizador. A falta de conhecimento do próprio projecto também é visto como uma causa da falha de certos trabalhos.

7- A mixtape celebra o primeiro aniversário do projecto. Conta-nos um facto marcante que tenha acontecido neste tempo.

Como respondi numa pergunta anterior, o facto de nos sentirmos “vivos” ao saber que estamos a apoiar de certo modo uma cultura que admiramos, já é um grande ponto marcante. O resto, como disse, vem por acréscimo.

8- A Poesia Invicta terá um exclusivo, digamos assim, com o rap ou está disponível para apoiar artistas de outros géneros musicais?

Penso que só terá um exclusivo para o Rap. Não estou muito a par de outros géneros musicais e, se conduzisse um projecto assim para outros géneros, não era tão “feliz”. (risos)

9- Conheces bastante bem o rap nortenho, como analisas o seu estado?

O rap nortenho está a evoluir a olhos vistos. Lembro-me claramente de há um ano atrás, por exemplo, os Enigma não terem tanto nome como agora, ou de nunca ter visto tantos projectos a saírem ao mesmo tempo como neste ano. E tem de ser assim, manter o “bichinho” para que quando tivermos uns 70 anos, sentirmos que valeu a pena. (risos)

10- O que falta ao rap do Norte para que ele tenha mais expressão em todo o país?

Ouvintes. Acredito que cerca de 80% dos ouvintes do próprio Rap da Invicta sejam habitantes do Norte de Portugal. O Rap do Norte é imensamente diferente do resto do Rap em Portugal. O estilo, a forma como é envolvido, o próprio modo de criar Beats, a escrita acima de tudo. Somos uma cidade que ainda se esconde do resto porque há falta de vontade em mudar na preferência musical.

11- Achas que em Portugal há um tratamento privilegiado dado ao rap de Lisboa? Justifica-nos a tua resposta.

Sim. Penso que deriva do facto de Lisboa ser a Capital de Portugal. Mas estou confiante que se não fosse o terramoto de 1755, já não seria tanto assim. (risos)

12- Qual será, num futuro próximo, o grande desafio para a Poesia Invicta? Que iniciativas/projectos estão na calha?

Já há uns 4 meses que estou a pensar negociar uma grande festa com a Câmara do Porto. Mas prefiro não dar mais dicas e deixar para surpresa. Posso afirmar que se estiver ao meu alcance não custa nada.

Fotos gentilmente cedidas por Fisko, a quem agradecemos pela entrevista,
HIPHOPulsação.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Poesia Invicta (Mixtape)


Está disponível para download mais uma mixtape de rap português. "Poesia Invicta" é assim uma mixtape que celebra «um espaço de divulgação de artistas musicais do Norte de Portugal». Nela participam nomes como Poker, Sky ou Som Mudo. Sintam a pulsação de "Poesia Invicta" através do seu espaço na net - www.myspace.com/poesiainvicta - ou usufruam da auscultação seguindo directamente para aqui: