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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

714 Hip Hop Session @ Pin Up Bar (28/01/2011)

A última sexta-feira, dia 28 de Janeiro, foi pródiga em festas de Hip Hop na zona do Porto. De facto, direccionado o radar para norte foram várias as direcções em que este apontou. Algumas delas: Porto Rio, Pin Up, Breyner85, Armazém do Chá, Mar Shopping... Com um leque de opções tão abrangente para uma noite só, e tendo em conta os cartazes de cada uma, era de prever que alguns eventos albergassem bem mais gente que outros. E aí era ponto assente que o barco ancorado na margem portuense do Rio Douro gozava de algum favoritismo, ou não tivesse Mundo Segundo como comandante (MC Zero e Wöyza como parceiros extra) e a apresentação oficial da sua nova mixtape como o grande chamariz do cartaz.

Mas se à beira-rio se aguardava o estrear de novos temas de Mundo, mais acima, na zona do Bolhão - no PinUp Bar, mais concretamente - engendrava-se as boas-vindas a Regula, que viu pela primeira vez a cidade do Porto abrir-lhe os braços para um concerto seu. Os padrinhos de Regula foram os elementos do colectivo 714, que tinham também em vista a apresentação do seu EP intitulado "Hipnose". Do cartaz constavam igualmente DJ Cyber e DJ Godzi.

E foi este último disck-jockey (que também se exercita no b-boying) que se encarregou de pôr as colunas a trabalhar, fazendo uso de um set onde abundaram malhas assinadas por DJ Premier, numa escolha segura e fiável para aquecimento de qualquer festa de Hip Hop. Enquanto DJ Godzi rodava os discos nos pratos o público ia obviamente chegando, mas a um ritmo muito vagaroso, diga-se. De facto, com a abertura de portas marcada para as 23h, o preenchimento da sala deu-se a uma velocidade bastante lenta e só a partir da uma da manhã é que se começou a ter noção de uma razoável concentração de gente no espaço.

As actuações arrancaram perto da 1h30, mas ao contrário do esperado, o cabeça de cartaz da noite foi o primeiro a exibir-se. Chamado por Danilo (do grupo 714), Regula entrou discretamente no palco, pegou no mic e deu início a uma performance intensa mas que pecou por ser algo curta. Visivelmente satisfeito por estar na Cidade Invicta, Bellini a.k.a. Regula deu o mote com "+ Uma Vez" e desde logo foi bafejado com o calor que provinha da multidão. Na mesa dos pratos instalou-se um dos convidados surpresa: DJ Kronic. Do alinhamento surgiram os temas que fizeram de Regula um dos nomes mais pesados do rap underground nacional. Sem grandes descansos, Bellini revisitou os seus dois álbuns e, claro está, os dois volumes da série em formato mixtape "Kara Davis".

Carismático e descontraído, o rapper oriundo do Catujal só oscilou a dada altura quando falhou numa letra, mesmo assim, desculpou-se partindo para uma acappela cheia de rimas e flow ao melhor estilo de Regulation. Escusado será dizer que o perdão surgiu em forma de aplausos. A actuação prosseguiu com passagens por malhas tão quentes como "Cake" ou a faixa que pôs Regula a cuspir em cima do famoso beat de "A Milli". Por outro lado, alguns dos sons mais reconhecidos - como "Especial"(o seu single mais rodado nos media) ou "Rewind" - não se ouviram no Pin Up. O facto de Regula não ter completado sequer uma hora em palco fez com deixasse um certo sabor agridoce em quem aguardou tantos anos para o ver e ouvir ao vivo e a cores.

Com os ponteiros do relógio a rondar as duas e meia da manhã, o colectivo da casa apoderou-se dos microfones e consequentemente do palco. 714 é o número de eleição de uma crew que se estende por várias vertentes, como o graffiti e o rap. Neste último caso, Danilo, Roke e Stag são os elementos representantes do grupo portuense. Estimulados pelos seguidores que se instalaram na frente do palco, os três MC's partiram para uma performance regular, de onde extraíram um evidente gozo e satisfação. É certo que o público esvaziou bastante o recinto, mas o jovem trio não se mostrou incomodado com a debandada. Tendo como "desculpa" o EP "Hipnose", os 714 desfilaram sons como "Monstro das Bolachas", onde se revelaram rebeldes e seguros de mic na mão e, apesar da fragilidade de algumas letras, com um flow consistente e maduro. Como prova do carácter multifacetado do colectivo, ainda guardaram alguns minutos para uma sessão de beatbox e improviso.

Em suma, foi uma noite que valeu pela oportunidade de testemunhar in loco, e pela primeira vez no Porto, um show de Regula, que se fez valer de uma entrega inatacável ao longo de todos os cartuchos sonoros que disparou sucessivamente durante cerca de 45 minutos (que, apesar de tudo, souberam a pouco). O colectivo 714 não esteve abaixo do MC lisboeta a nível de entrega e disposição em palco, mas saiu claramente penalizado por actuar depois de Regula. Por imposição deste último ou por opção da organização, a verdade é que é pouco usual a grande atracção do espectáculo surgir a abrir o mesmo. Nota positiva em termos de adesão do público, apesar da forte concorrência à mesma hora noutras paragens. Uma última palavra de incentivo e agradecimento aos jovens da crew 714 pela organização e pelo poder de iniciativa que perpassaram.

sábado, 19 de setembro de 2009

Mixtape Poesia Invicta (Crítica)

O nevoeiro sobre o Rio Douro é tão costumeiro e cerrado que se torna difícil, por vezes, a contemplação por entre as suas malhas. Mas há gente que enceta formas de o fazer desmobilizar para que se aprecie a paisagem vedada. Fisko muniu-se de garbo e num sopro de amor à cultura Hip Hop fez levantar parte do fumo húmido que paira sobre alguma da música rap que se faz a Norte. Artistas que se misturam com o granito e que a camuflagem de brumas condena a passarem despercebidos. Mas uma vez revelados, são nomes que reclamam a sua hora nos fios do tempo. A obra de alguns deles será objecto de coroação mas independentemente disso fica a convicção de que a Poesia é para sempre Invicta porque de igual modo é invicta a determinação.

Esclarece-se aos nossos ouvidos uma característica que atravessa toda a mixtape “Poesia Invicta”. Mais do que o sotaque tripeiro, assalta-nos aqui um surto de insaciabilidade em todos os mc’s. Famintos, esgrimem argumentos técnicos e líricos, procurando passar boa impressão. Regra geral, conseguiram-no. Reuniu-se em “Poesia Invicta” um naipe de mc’s que embora jovens já apresentam competência e uma dinâmica verbal de assinalar.

Na sua participação, Age evidencia uma grande vontade de rimar e de dar um ênfase especial às palavras expelidas. Com “Mata-Mata!”, engendrou uma sátira aos rappers que nascem e crescem como cogumelos na floresta do Hip Hop, sem medo de que lhe possa servir a carapuça. Tomou as rédeas da responsabilidade, vestiu o seu fato de Super-MC e ei-lo a declarar aberta a caça aos rappers desajeitados. Age fez amizade com a agressividade, a ironia e a comicidade e essa aliança convergiu no tal plano de mover um cerrado ataque verbal aos traidores da essência HipHopiana. Talvez Age ainda não tenha total propriedade para se imiscuir de microfone em punho no papel de caçador mas ressalve-se a sua intenção.

Duplo Sentido aposta no fim do sono, apropriando-se de garra e de escorreitos flows para endereçar um aviso aos que circulam nos meandros da indústria musical. De “Acorda!” emergem versos que bem poderiam servir como slogan da mixtape “Poesia Invicta”: «Naquilo que faço sou invicto/ Não há equívoco/ Pois na Invicta o bom produto é típico». Prestação francamente boa de DiOr e GaLaRt que comprovam o carácter especial da inventividade: «Ideias são gotas cintilantes no meu caderno».

“Instante com Decibélicos” é um tema que dada a má prestação do grupo se torna numa dolorosa morosidade que aflige os nossos canais auditivos. O flow é estranho, o que torna difícil a compreensão do que dizem. Existiu pouca sensibilidade da parte deles, na medida em que desprezaram a fácil captação da mensagem por parte dos ouvintes, apostando antes na técnica de cuspir. O produto final redonda numa rajada de rimas muitas vezes imperceptível. Escutar esta faixa de Decibélicos é um exercício penoso.

Se há nítidas dificuldades em Decibélicos, Domínio Verbal, pelo contrário, faz jus ao nome. “Estado Zen” é uma canção que traduz o estilo da sua verbalização, pois diria que o flow apresentado é certinho, balanceado com pausas em conformidade com a batida. Mais do que mero exibicionismo de competência técnica, Domínio Verbal explica a sua motivação para o rap, as experiências daí decorrentes e a visão externa sobre os elementos do grupo e o fenómeno musical. Namorando com a música, há aqui uma aposta em jogar-se simples e o resultado demonstra que se almeja a pretendida qualidade.

Guerreiro é mais um rapper ávido que se dá a conhecer na mixtape. Cheio de apetite pelas rimas, ele está pronto para deglutir o que quer que seja, assim parece. “Escuta com Atenção Mano” é um carril autobiográfico puro e duro. Situações menos agradáveis da sua vida são exibidas sem pudores: «Dizem que um homem não chora/ Por isso é que eu rimo às escondidas». Este som é um desabafo que transparece uma enorme revolta pessoal de alguém que carrega o mundo às costas. Se não nos apetece muitas vezes ouvir os problemas pessoais de alguém, neste caso, gaba-se a coragem de Guerreiro que se expõe tão abertamente.

O single da mixtape é uma cortesia de Poker (Spitz e Noura) com a participação de Sky. Percebe-se que “Mantém a Barra” detém estatuto de ponta-de-lança pois é uma canção com qualidade, com um clima de celebração e de união, que ali é promovido e estimulado. A voz doce de Sky, o flow cool, seguro, harmónico, são reveladores da maturidade desta artista que se move também nos domínios da Soul e do R&B, onde se sente igualmente como golfinho na água. Spitz com o seu sotaque cerrado aperta, por certo, o microfone com a mesma intensidade e dispara rimas direitas ao coração de quem é tripeiro: «O espaço que nos separa/ É em pistas que nos une». Noura segue a tónica da cara-metade de Poker e revela o óbvio para qualquer portuense de gema: «Tudo nesta Invicta me inspira a escrita». Os acontecimentos das suas vidas misturam-se com o Hip Hop e elas acentuam a importância que isso teve na união delas mesmas. «Nós temos o Porto unido/ Mantém a Barra»!

A letra “R” bem podia prenunciar a palavra “revelação” dirigida a estes dois rappers. Refiro-me a Realista e a Roke. Realista apresenta o tema “Poesia Invicta” onde derrama a sua história no rap, os seus sonhos, receios, etc. Prodece ainda a uma vincada homenagem a Fisko, organizador da mixtape. «Um amor, uma mente, um ano», refere Realista, que contou com uma participação muito positiva. Por sua vez, Roke possui um flow sui generis, inflamado de paixão e calor. Sente-se que não poupa no sentimento que transmite. Tal como Realista, é um mc com potencial que poderá confirmar a esperança que nele se deposita para o rap quando tiver mais cadernos preenchidos com rimas.

Som Mudo investe com “Ponto de Fuga” numa reflexão sobre a vida e seus tópicos basilares. É um som que se destaca dos restantes pela sua carga introspectiva e mais elaborada. A abordagem a que Som Mudo recorre, obriga-nos, pelo carácter profundo, a ouvir o tema mais do que uma vez para o interpretarmos fielmente. A repetição é algo que se faz com absoluto prazer, esclareça-se. Som Mudo faz-nos sentir como os convidados especiais da canção. Provavelmente, “Ponto de Fuga” é o tema mais proeminente da mixtape. Há uma marca de maturidade acentuada em Som Mudo e a qualidade existe a rodos. Sobretudo, apraz-me a carga poética por eles incutida. Dizzy e Vírus Mental fazem acreditar que por detrás da neblina há uma boa nova à espreita. E todos nós queremos ver esse sol a brilhar!

Vadio é um mc sem papas na língua, que nos garante que a “publicidade é o processo para alcançar e garantir o sucesso”. Adopta uma posição de escárnio em relação ao próprio movimento: «Yo yo, nigga não sei quê/ És gangsta mas a rimar é o que se vê». “Temática” é uma faixa que aponta para a real filosofia do Hip Hop, com Vadio a sublinhar com traço grosso que o conteúdo deve ser mais importante do que o aspecto. Ele tem garra e se a isso acrescentar a persistência teremos aqui um rapper que se dedicará certamente à (re)descoberta da essência desta cultura nos seus projectos vindouros.

W.R.O.N.G compôs para a mixtape o tema “Poesia”. Começa por situar as suas origens e focar o crescimento do número de praticantes deste movimento na Invicta. Com uma boa margem de progressão, demonstra talento e habilidade, para além duma grande vontade em morder deliciosas rimas. Chega a debitar, durante a sua interpretação, nomes de grupos de rap do Norte que são suas influências e uma constante presença nos seus ouvidos. Ficamos com o todo o interesse à espera de mais novidade de W.R.O.N.G.

A mixtape “Poesia Invicta” é como uma cave escura e humilde que alberga castas que se pode pensar como segredos bem guardados. Após a prova das 11 amostras, o nosso palato toma contacto com a textura de irreverência e jovialidade presente em Vadio, deliciando-se ao mesmo tempo com a intensidade e maturidade de Som Mudo; enlevamo-nos com o aroma frutado de Poker e Sky que se entrecruza com a sobriedade de Domínio Verbal, Realista e W.R.O.N.G.; as papilas gustativas dilatam com o ardor de Guerreiro e de Roke e com a efervescência de Age e só o travo de Decibélicos faz minguar esse festival de bom gosto que acontece na nossa boca. Em resumo, “Poesia Invicta” embriaga-nos pela variedade de gamas aqui presentes e que surpreendem porque eram desconhecidas, na maior parte dos casos. Sobretudo, estão aqui colheitas que o tempo poderá amadurecer na tal cave, acrescentando-lhes uma maior qualidade e tornando-as válidas e atraentes para os consumidores. Para mim, desta amostra, há já dois néctares com excelentes propriedades e com um bom grau de maturação: Sky e Som Mudo. O balanço é positivo, brinde-se à mixtape e ao projecto “Poesia Invicta”!