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domingo, 20 de novembro de 2011

Deau e Jimmy @ Plano B, Porto (18/11/11)

Que nos últimos anos as ruas da Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade têm moldado um jovem MC cheio de talento já não deve constar novidade para (quase) ninguém, pelo menos para os mais atentos apreciadores de bom rap. Apesar de só em Janeiro de 2012 surgir o seu primeiro registo discográfico, Deau começa a dispensar o rótulo de jovem promessa, reclamando antes o título de jovem certeza. Os acontecimentos da noite da última sexta-feira, dia 18 de Novembro, sustentam qualquer palavra atrás escrita. No andar subterrâneo do Plano B, Deau teve como primeiro plano a apresentação de novos temas, que, de boca em boca, ganharam estatuto de EP. Jimmy P foi seu convidado de abertura e DJ D-One responsável pelos pratos (aventurando-se também nas dobras).

Com o habitual compasso de espera para que a sala se povoasse o mais possível, a (curta) performance de Supremo G a.k.a. Jimmy P iniciou-se quando os ponteiros já faziam cócegas às duas horas da matina. Como o próprio fez questão de frisar, a sua actuação serviu sobretudo como warm up para o cabeça de cartaz - Deau, pois claro-, e, numa das noites mais importantes da carreira deste, terá sido também, de alguma forma, uma espécie de retribuição pelo companheirismo de Jimmy ao longo do despontar de Deau no rap nacional. “Gameover” foi o primeiro som a puxar pelas gargantas dos presentes, seguido pelo muito comentado “Dope Boy”. Jimmy P esteve sozinho na frente do palco, sem MC de apoio, por isso recaía sobre ele o bom ou o mau arranque da noite. Com maior ou menor dificuldade a tarefa foi cumprida com êxito. Já depois da faixa que selou “O Regresso” às gravações depois de uma fase de ausência, Jimmy lançou “Warrior” e foi nesse instante que sentiu o maior calor da plateia e a certeza que esta já se encontrava suficientemente aquecida para Deau.

Sem intervalo, Jimmy nem saiu do palco, pois logo de seguida serviria de apoio – juntamente com Ruca – ao MC oriundo do Candal. Numa hora e um quarto de concerto, Deau fez questão de apresentar todos os 9 temas que constituem o dito EP. “Questão de Tempo” e “Diva Suburbana” foram os dois primeiros e serviram desde logo como teste à recepção da audiência. Com o espaço quase cheio, um bom grupo de apoiantes de Deau mostrou já ter as novas letras decoradas. Por várias vezes Deau fez referência ao “seu povo”, sendo bem evidente a sua felicidade por ter gente que bem conhece e com quem convive naquele espaço, naquela noite. Prova disso, as várias vezes que partilhou o microfone com alguns deles. “Cara Metade” foi um dos clássicos (juntamente com “Lamento”) que meteu Deau na boca e nos ouvidos de muita gente, e, nesta noite especial, recorda-lo era obrigatório, até porque Supremo G (a voz metade desta música) estava mesmo ali ao lado. Deau revela-se cada vez mais maduro, indócil em algumas ideias, mas sempre com opiniões bem traçadas, seja nas suas músicas ou quando encara uma plateia de mic na mão.

Uma das habilidades que também tem catapultado Deau para os cabeçalhos do rap português é o improviso. Todo e qualquer concerto de Deau tem de ter rimas geradas na hora. Isso já parece ponto assente. No Plano B não foi excepção. Embora não tenha sido tão empolgante como noutras vezes, foi o suficiente para manter a fama que arrecadou em vários palcos e ruas onde tem improvisado. A flexibilidade enquanto MC está bem patente na diversidade de abordagens nos novos sons. Dos 7 minutos do “Advogado do Diabo” à visão teatral da “Invicta” (para mim, uma das suas melhores canções) ou o meloso “Ao Pé de Ti”, num registo algo diferente de tudo que tinha feito até agora.

"Acham que ia embora sem a ‘Lamento?'", perguntou Deau perante um público mais do que convicto da resposta. À efervescência que esta faixa provoca sempre que é tocada ao vivo, juntou-se Chek, do duo Enigma. Deau acabou levado em ombros, como se de uma condecoração se tratasse. Mas ninguém queria arredar pé da sala, nem o público, nem o próprio Deau, e isso foi notório. Mais 10 minutos de improviso improvisados (passo a redundância) fecharam a actuação. De brilho nos olhos, e depois do apoio e da cumplicidade que recebeu numa noite onde, pela primeira vez, foi o centro de todas as atenções, Deau terá se sentido nas nuvens mesmo estando no subsolo do Plano B. No final, ficou o desafio lançado pelo próprio (e que poucos artistas ousariam fazer): "Quem não gostou que faça barulho". Silêncio ensurdecedor na sala. Quem cala, consente, já diz o povo.

Texto: Sempei
Fotos: Fisko





segunda-feira, 14 de novembro de 2011

L.C.R. - "Essencial" (Álbum para download)



Foram largos anos a pairar no ar da Invicta, mormente em Aldoar, sob forma de "fumo" à espera que este originasse o "fogo". "Essencial", o mais-do-que-esperado-e-pedido álbum de L.C.R. (Livre Comunidade Rimática), que junta Nocas e Berna a DJ D-One, chega finalmente às ruas do Porto, embora não da forma por que todos aguardavam.

Gratuito, sem edição física, nem masterização e mistura, o trabalho estende-se por 14 temas, entre eles alguns já virados emblemáticos, como "Criativo", "Turista" ou "Namoros". Mundo (DLM) e Presto (MDG) são convidados de honra de um álbum onde D-One se encarrega da maior fatia de instrumentais, juntando-se-lhe um beat de Mundo, Auge e outro de Xis.

Apesar de várias participações alheias como L.C.R. nos últimos anos (depois do término em 2000), Nocas e Berna têm trilhado carreiras a solo. A mixtape "Manutenção" (2009) foi o último registo de Nocas Infinito. Já Berna lançou o ano passado o EP "Como Deve ser", tendo depois regressado ao lado de Mundo e Né num EP de Sindicato Sonoro.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Mundo & Each e Pharoahe Monch @ Hard Club, Porto (05/11/2011)

Quem tinha saudades de uma grande noite festiva de Hip Hop com grandes nomes nacionais e internacionais? Foram várias as centenas que responderam afirmativamente e que quase encheram a sala 1 do Hard Club (com capacidade para albergar cerca de 800 pessoas). Havia duas boas desculpas para uma ida até ao HC apesar do frio pungente desta noite de 5 de Novembro: as apresentações ao vivo da mixtape conjunta de Mundo e Each e do álbum “W.A.R.” do americano Pharoahe Monch. O anunciado showcase de Sir Scratch em cartaz foi abortado por “questões logísticas”, segundo a editora do próprio artista. Os Dj’s D-One e SlimCutz completaram o line up. Maze foi o apresentador de serviço.

Mundo Segundo e Each entraram em cena às 3h quando muita gente ainda entrava na sala (já muito bem composta, mesmo assim). A expectativa em volta da actuação de ambos era grande, pela novidade dos sons e, sobretudo, por estes fundirem dois reconhecidos liricistas exímios em roer cacos. De Each, cara-e-voz-metade de Enigma e habitual companheiro de Mundo nas performances deste a solo, recaía talvez a maior dose de curiosidade, até porque uma coisa é acompanhar Mundo nas dobras, outra é complementa-lo (e ser complementado) em vários temas. Numa primeira auscultação geral dir-se-á que Each não desiludiu, um cenário que só lhe ajudará a colher frutos no futuro. Apesar de tudo, na festa de lançamento no Hard Club sentiu-se algum nervosismo do jovem MC (evidente sobretudo numa hesitação numa das letras), facto que não assombrou a sua boa prestação.

Tenho mais receio do medo do que daquilo que mete medo. Foi uma das novas tiradas retidas de Mundo, que se mantém (como seria de esperar) igual a si próprio, livre de qualquer tipo de apresentação. Das novas faixas destaque particular para a sarcástica “Isso é estúpido” e para “Beleza Interior” que toca na ferida de duas doenças crescentes em todo o Mundo (obesidade e anorexia), temas que, pessoalmente, não recordo terem sido abordados no rap nacional. Após a exposição da nova mixtape e da aceitação positiva da audiência, Mundo e Each despediram-se quando trouxeram a palco “Alucínio” (faixa da mixtape “2º Piso – 17 anos”).

Após a retirada da dupla portuguesa não tardou muito até Pharoahe Monch abrir a bagagem que trouxe de Nova Iorque. Antes disso, foi DJ Boogie Blind quem trouxe os primeiros laivos do talento americano, nomeadamente no que ao djing e turntablism diz respeito. De máscara na cara (fiel à capa do seu novo álbum), Pharoahe Monch surgiu com todo o gás desde o início perante toda uma sala que se incendiou ao mínimo “cheiro” de rap nova-iorquino. E Pharoahe bem cedo se mostrou deliciado com tamanho calor humano emanado pelos presentes (vindos de todo o país, diga-se). “Assassins” (do novo disco) e “Let’s Go” (do álbum “Desire”) foram os temas de uma abertura que prometeu desde logo um intenso espectáculo. Neste caso, pode-se dizer que a idade conta, e a experiência adquirida ao longo de uma carreira com mais de duas décadas reflecte-se na segurança e na normalidade com que Pharoahe contagia uma multidão.

Havia muito público juvenil na sala? Havia. Uma boa parte desconhecia os sons do americano (alguns só mesmo a “Simon Says” – ou talvez somente o get the fuck up)? Verdade. Mas convém dizer que muitos deles ficaram para conhecer as músicas de Pharoahe ou, quem sabe, somente para o dito get the fuck up. Mas ao contrário do que se sucedera com outros artistas estrangeiros que por aqui passaram noutras noites, a plateia era realmente numerosa e estava predisposta a engrandecer a festa. A forma como se viveu, por exemplo, a sequência “Fuck You“/“Desire” comprova isso mesmo. “Clap (One day)” é um dos melhores temas do álbum “W.A.R.” e ao vivo é verdadeiramente delicioso. Pharoahe Monch não trouxe nenhum MC de apoio, contando somente com o contributo de DJ Boogie Blind a partir da mesa dos pratos. Este disc-jockey do colectivo The X-Ecutioners (por onde passaram nomes como o falecido Roc Raida ou Rob Swift – que estará dia 10 no Hard Club com Dealema e Nach) teve, a certa altura, os holofotes virados unicamente para si, aproveitando para exibir todos os seus skills no turntablism. E que skills! Houve muita gente que ficou de boca e ouvidos bem abertos com o que ouviu!

Seguindo no repertório de Pharoahe, havia uma faixa, ou melhor, uma bomba prestes a rebentar no Hard Club, e por ela esperaram centenas de “suicidas” na sala 1. A expressão mais directa que se pode dar para tentar descrever o momento quando estourou “Simon Says” é que o fim do Mundo parecia ter sido antecipado para as primeiras horas do dia 6 de Novembro de 2011. Mas não, felizmente, até porque, surpreendentemente haveria mais música depois desse sonoro pesado do rap mundial que certamente deixou algumas mazelas em parte dos presentes. Já o emcee americano se despedira do público, e após uns minutos entregues a DJ Boogie Blind, Pharoahe regressa ao palco (quando já boa parte da audiência havia saído da sala convencida que a actuação tinha terminado) para encetar a sua tour europeia, precisamente na Cidade Invicta, com “The Light”, outro dos seus deliciosos clássicos. E de Pharoahe Monch foi tudo, e que tudo!

Para quem esperava voltar a sentir arrepios na pele com uma grande noite de Hip Hop isso voltou a acontecer, sem sombra de dúvidas. Casa cheia, amantes da cultura oriundos de todo o país, e artistas sérios e dedicados à sua arte. Mundo e Each aguçaram os ouvidos de quem os aprecia como dupla e corresponderam às expectativas, pese embora só terem actuado cerca de meia-hora, o que soube e saberá sempre a pouco. A expressão “monstro de palco” assenta que nem uma luva a Pharoahe Monch, e o americano pôde voltar ao seu país com a certeza que, pelo menos em Portugal (e certamente noutros cantos da Europa), arrecadou novos fãs. Ele e o seu compatriota, DJ Boogie Blind. Pharoahe Monch abriu, intermediou e fechou o seu show sem nada que se possa lamentar, a não ser a sua saída do palco...

Texto: Sempei
Fotos: Ana Mendes



segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Novos sons de Deau

Enquanto ultima o seu primeiro álbum a solo - o muito aguardado "RetiEssências" chegará a 15 de Janeiro de 2012 -, Deau disponibiliza alguns temas que não farão parte desse trabalho produzido na íntegra por D-One.

Download todas as faixas


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Plano B (17/09/2011): Auge, Rato54 e Fuse

Sábado, 17 de Setembro de 2011. Mais uma noite festiva bombeada com rap tripeiro, um hábito no coração da Cidade Invicta. Na rua Cândido dos Reis – uma das artérias mais vivas do Porto -, o povo dispersa-se em grupinhos, ao longo do arruamento, nas esplanadas ou dentro dos vários espaços de diversão. Um deles, o Plano B, voltou a ser primeira escolha na hora de eleger um local que albergasse Auge, Rato54 e Fuse (não esquecendo os DJ’s D-One, Guze e SlimCutz).

Podia uma festa de Hip Hop em Portugal começar a horas? Podia, mas não era a mesma coisa. No fundo, a culpa é de todos. Foi já com os ponteiros do relógio abraçados a domingo, que é como quem diz, à 1 hora e picos da matina, que Auge subiu ao palco, pegou no mic e iniciou a sua actuação. Para deleite dos casalinhos que se aconchegavam na sala, “Crónica Paixão Fula” foi dos primeiros sons lançados por DJ Guze, o disk-jockey que auxiliou o MC de Mau Feitio. A dispersão da plateia por toda a sala maquilhava algumas clareiras, que, apesar da alta temperatura no espaço, foi pouco calorosa para com Auge. Culpa do MC? Culpa do público? Ficou a dúvida. A verdade é que Auge só agitou verdadeiramente os presentes quando sacou da sua maior cartada sonora: “Mambo”, claro está. De resto, teve ainda tempo para se aventurar em algumas acappellas.

Do fim da performance de Auge para o começo da de Rato54 não distaram muitos minutos mas foi o tempo suficiente para uma clara transformação no ambiente do andar subterrâneo do Plano B. Culpa do MC? Culpa do público? Nova dúvida no ar. Mas Rato54 pegou de estaca, contando com a colaboração de uma audiência mais predisposta a distribuir palmas. De Rato54 não se espera grandes cerimónias ou discursos pré-concebidos. É aquele rapper que vive sintonizado com o público, que desce até junto do mesmo e por lá se deixa estar, sem se importar que alguns espectadores subam para cima do palco, o “seu” lugar. O single “Cinco Quatro” foi recebido alegremente mas não foi o único. Com uma cartada de beats potentes desaconselhável a qualquer pescoço, a exibição de Rato mostrou ser, uma vez mais, suficiente para não defraudar os parâmetros básicos de qualquer festa de rap: beats, rimas e mãos no ar a acompanhar o mestre de cerimónias. Ex-Peão foi convidado ilustre (mas não raro) na performance de Rato54.

Com poucos minutos contados para além das 3h, Fuse entrou para fechar o tasco das actuações. Que Fusível dispensa apresentações todos nós sabemos; que goza de um estatuto alcançado a solo, mas sobretudo no quinteto dealemático não é novidade para ninguém, logo, dizer que Fuse pôs o Plano B em sobressalto é reportar o inevitável. Inevitáveis foram também as passagens pelos dois álbuns de nome pessoal. “Eterno No Teu Ouvido” e “Febre da Selva” são dois exemplos de faixas quase obrigatórias, embora se tenha notado a ausência de outras como “A Outra Face”. “A Revolução Vive dentro de ti” foi resgatada ao primeiro álbum de Mundo, num alinhamento que não deu tempo para contemplações, tendo sido percorrido a um ritmo frenético, ou não fosse "andamento" a palavra de ordem. Como o que é bom acaba rápido, não restou alternativa que não implorar por um último som, isto já depois das despedidas de Fuse. O pedido foi aceite, mas acabaria por ser mesmo o derradeiro tema.

Contas positivas para Rato54 e Fuse que conseguiram gerar um verdadeiro clima de festa de Hip Hop. Rato com o seu jeito simples e "popular", Fuse com o carisma e personalidade que lhe são reconhecidos. Por sua vez, Auge teve razões para sair um pouco arreliado do Plano B, não pela sua prestação, mas sim pelo saldo geral do concerto, pois não estava certamente nas suas cogitações gerar tão fraco entusiasmo à sua frente.

Texto: Sempei
Fotos: Ana Mendes

sábado, 4 de junho de 2011

Hard Club (3/6/2011): Auge, Dealema, The Beatnuts

Dizerem-nos que um grupo clássico de rap como Beatnuts vem ao Porto, é o mesmo que dizerem a uma criança que a Euro Disney lhe vem ter a casa: o contentamento não tem limites! Acrescente-se à brincadeira a distinta qualidade nacional representada por Dealema, mais o promissor Auge e ainda as cinco estrelas como marca registada do freestyle de Deau e temos um super deleite musical pela frente, qual criança embevecida a criar histórias com alguns dos seus brinquedos predilectos.

Mais uma ficha, mais uma volta. Ou seja, novo cartaz interessante, mais um retorno ao Hard Club, no Porto. Começamos a habituar-nos a ver na Invicta nomes cimeiros e históricos do rap mundial. As festas acontecem agora com mais frequência (Masta Ace e Marco Polo estiveram cá nem um mês fez ainda) e o hábito de peregrinar ao mítico espaço portuense faz-se de muito bom grado.

A hora de entrada, desta vez, fez-se mais tarde, quase perto das 3h. Quando entramos já Auge estava em posição para se esgueirar para o palco, a fim de dar início ao espectáculo. Deau foi o apresentador e era com um freestyle que dava o mote para as tropas aplaudirem os artistas. Acompanhado de D-One, Auge tirou da cartola temas novos de um futuro álbum (ainda sem data de lançamento) com que presenteou a plateia tripeira como “Sonho”, tendo ainda a companhia de Deau e a certa altura de Alpha na guitarra. “Crónica Paixão Fula” aqueceu as almas presentes, porém, e tal como seria de esperar, o seu grande momento da noite foi quando interpretou “Mambo”. Auge iniciou bem a noite, com uma prestação bastante positiva, pese embora a dificuldade de agarrar com temas novos uma plateia ainda algo frouxa.

Os corações batem mais forte quando o colectivo dealemático se presta a rebentar colunas de som, a encaixar molas nos pés de toda a malta, a quebrar pescoços mais ou menos duros, a colocar mãos apontadas ao céu. Não importa quantas vezes se veja Dealema ao vivo. Cada noite é especial e única. Há sempre uma vivência nova que se adquire. Abrindo o livro de tantas páginas clássicas, Maze, Fuse, Expeão, Mundo, sempre acompanhados por DJ Guze, proporcionaram sorrisos e abraços às almas que ali quiseram espreitar pela janela do paraíso. D’«A Cena Toda» à «Família Malícia», da «Bófiafobia» à «Sala 101», a viagem pela discografia dealemática fez-se pelas passagens mais desejadas e a correspondência das dezenas de devotos na plateia esteve efervescente como de costume. Até mesmo, ou melhor, sobretudo na última paragem do alinhamento: a inesperada «Infiéis (Ninguém Teme)». Dealema é uma banda nacional que nada fica a dever a congéneres estrangeiras no que a qualidade e adoração diz respeito. Sempre muito fortes, sempre a manter os bons velhos valores do Hip Hop na ordem do dia.

Deau foi improvisando até a dupla The Beatnuts entrar em cena, tendo até arrancado de alguns dos presentes junto ao palco parte da letra de “Lamento” em acappela. JuJu e Psycho Les apareceram discretamente diante do público do Hard Club já passava das 5h30 da matina. Ainda havia energia para o bailado rítmico da dupla latina-americana? Apesar de algum esvaziamento da sala, a resposta é nim. Não é todos os dias que se pode ver ao vivo Beatnuts, mas a hora a que iniciaram a actuação e o natural desgaste causado pela frenética presença Dealemática esfriou a temperatura do espaço. Contudo, parte da plateia mantinha-se bem acordada, até porque, nem que já fosse dia (a claridade já coloria as janelas da sala 1 do Hard Club), via-se de bom grado a actuação de um dos duos mais importantes da História do rap de terras do Tio Sam.

As razões para esse “sacríficio” são bastantes claras: poder ouvir «Do You Believe», «Get Funky», «Duck Season», «No Escapin This», «We Got The Funk», «Watch Out Now», eram motivos de sobra para se pôr palitos nos olhos, limpar bem os ouvidos, agarrarmos-nos à deusa (na melhor das hipóteses!) ao nosso lado para não cairmos e ficar-se colado naquele palco. É certo que a hora tardia e consequente cansaço geral tiraram um pouco do ambiente que se esperaria mais quente, mas dadas as circunstâncias foi, sem dúvida, uma excelente experiência assistir ao vivo a um concerto de Beatnuts. Quanto a JuJu e Psycho Les, pode-se dizer que começaram algo mornos (eles próprios sentiram o resfriar na pele) mas foram sempre tentando agitar a festa com um cardápio sonoro que tinha tudo para ser melhor degustado servido umas horas antes.

Em resumo, foi mais uma boa noite. Houve música de qualidade, freestyle, as pessoas divertiram-se, o ambiente esteve animado... Se algo se podia pedir era que tivesse começado um pouco mais cedo, mas há sempre situações que não se podem controlar, além de que este hábito já está bem enraizado, é cultural mesmo. Mais uma vez, agradecemos à Versus por continuar a organizar estas festas e a trazer a Portugal grandes nomes da cena rap americana, realizando os nossos sonhos de menino (ou nem tanto) de vê-los ao vivo.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Reportagem: Nocas, Regula & Reks @ Hard Club (5 de Março)

Mais uma noite de grande rap em perspectiva, mais uma ida ao Hard Club. Saudável rotina em que se está a tornar. Desta vez, Nocas (+ Dior), Regula (+ Sam The Kid) e Reks (+ DJ Premier... Não!!! Mentira, mas que bom que seria!!!). Dois nomes de respeito do rap nacional, mais um talento em crescendo no rap americano, que veio culminar no Porto a tour europeia de apresentação do seu mais recente disco: "R.E.K.S. (Rhythmatic Eternal King Supreme)". A noite de 5 de Março prometia.
Com apresentação de Maze, o primeiro a subir ao palco foi Nocas. Eram certamente muitos os que aguardavam pela oportunidade de ver este valoroso rapper ao vivo, depois da aclamada mixtape que lançou ("Manutenção") e da longa ausência dos palcos. Auxiliado por Dior, Nocas esteve exímio com o microfone na mão, mostrando-se sempre seguro, descontraído e comunicativo. Apesar de não ser um artista que se exiba regularmente (muito pelo contrário), o rapper de Aldoar é portador de uma acentuada admiração no seio dos aficionados de rap nortenho e prova disso foi o caloroso acolhimento por parte da plateia (embora esta tenha esmorecido em certos períodos) que compunha muito bem a sala (algo distante da lotação máxima, mesmo assim). O grande momento da actuação de Nocas foi guardado para o fim, com o clássico "Expansão Suspeita" a ser interpretado em dois beats diferentes, acabando acompanhado pelas acrobacias do b-boy matosinhense Aiam (ele que até à altura assumira o comando da mesa dos pratos)

Seguiu-se Regula, com o seu estilo muito particular e a lírica que o caracteriza. Apresentando temas quer dos seus álbuns quer das suas mixtapes, Gula fez-se acompanhar por Holly-Hood e Short Size (Show No Love) e ainda DJ Kronic e não desiludiu os seus fãs, ávidos por o ouvir cuspir no microfone. Deu um concerto talvez demasiado longo, mas entregou-se a fundo. Com ele, trazia um trunfo que sozinho era gerador de compensar qualquer desastre em palco de todos aqueles que estavam em cartaz: Sam The Kid! E como o povo se mostrou feliz quando ele entrou em cena... STK surgiu para pôr em práctica sons de projectos alheios onde participou juntamente com Regula, como a mixtape de Xeg, o álbum de New Max ou "Kara Davis" do próprio Bellini. Escusado será dizer que as rimas de Sam (sobretudo) foram acompanhadas por inúmeras vozes entusiastas, tendo a faixa de "Kara Davis" posto o Hard Club em polvorosa como nenhuma outra naquela noite. Regula sentiu o calor tripeiro pela segunda vez em 2011 e foi ele (e Sam the kid, claro!) quem gerou maior êxtase no público na noite de 5 de Março.

Finalmente, Reks punha a casa em alvoroço. Quer dizer, punha alegres aqueles que esperaram para o ver. De facto, muita gente se retirou assim que acabaram as actuações lusas. Convenhamos que os concertos começaram às 2h50. Reks começou quase às 5h da matina. É só fazer as contas e pensar se vale mesmo a pena começar tão tarde e depois o cabeça de cartaz, vindo dos States, entrar em palco, olhar o público e ver grandes clareiras. Não obstante este facto, Reks mostrou ânimo e derramou paixão sobre aquele mic. A sua exibição no Hard Club foi a confirmação de um artista de mão cheia, com grande capacidade lírica que se mostra arrasador cuspindo nos beats de Premier e Statik Selektah (sobretudo destes dois)! Do alinhamento que Reks escalou, incidência óbvia nos dois últimos álbuns, sem esquecer grandes malhas como "Say Goodnight" ou "The One". De sublinhar a (dizemos nós) surpreendentemente fria recepção a "This or That", a contrastar com a boa reacção a "25th Hour", um dos novos sons de Reks, que acabou por ceder ao pedido de vários dos presentes e repetiu o tema antes de se retirar do palco.

O seu respeito pelo show, pelo público, o seu carácter e humildade, ficaram impressos quando ofereceu o seu chapéu a um fã que lhe clamou por esse gesto (também o relógio que trouxe no pulso voou para a plateia). Reks fê-lo prontamente (note-se que o MC americano se exibiu sozinho em palco, tendo sido somente acompanhado atrás dos pratos por D-One)! É muito bom ver estes nomes americanos de grande qualidade a passarem pelo Porto, mas melhor seria que o público mostrasse maior entusiasmo e não abandonasse a sala assim que terminam as actuações portuguesas.

Resumindo, foi mais uma bela noite, sem dúvida, apesar da debandada que antecedeu a entrada de Reks, o que acabou por esfriar naturalmente as hostes. Todavia, todos se empenharam ao máximo em palco para proporcionarem um momento bem passado aos presentes. Isso é meio caminho andado para um espectáculo ter êxito. Que venha a próxima noite no Hard Club, com bons artistas nacionais e com grandes rappers/grupos internacionais. Só nós sabemos porque não ficamos em casa!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Vai ser mesmo Hard no Club!

Termanology estava confirmadíssimo, o que por si só constituía uma rica desculpa para uma ida ao Hard Club testemunhar algum do talento da nova escola americana. Mas o dia 8 de Outubro tem resguardado na algibeira outro artista do país progenitor do Hip Hop. Para regozijo de muitos aficionados (certamente), AZ acompanhará Termanology no voo transatlântico. Senhor de reviengas rimáticas de partir os rins e de parelhas marcantes com Nas, AZ arrastará com o seu repertório algum do perfume de Brooklyn.

Como o local das actuações é português - e estamos mesmo a falar de Portugal (parece inacreditável mas a dupla vai mesmo estar cá na mesma noite!), haverá tempo ainda para o Hip Hop nacional, em particular o rap tripeiro. Mundo (que dispensa qualquer tipo de apresentação) e o trio Mau Feitio (DJ D-One, Auge e Capicua) também figuram no cardápio da noite de 8 de Outubro. Depois não se queixem se o novo Hard Club vier já abaixo...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Reportagem: Gare Clube, Porto (2 de Abril 2010)



O relato das peripécias da noite de Hip Hop no Gare Clube, no Porto, já pode ser visto no H2T. O nosso texto dá conta de tudo o que se passou na noite em que actuaram DJ D-One, DJ SlimCutz, Supremo G, Deau, Enigma, Fuse e Ex-Peão. À distância dum clique:

http://www.h2tuga.net/artigos-h2t/eventos/2997-gare-clube-porto-02042010.html