Dia 10 de Dezembro. O Natal aproxima-se e é tempo de se pensar em prendas. Como bens materiais não aquecem nem arrefecem a alma (esqueçam lá as meias e as cuecas), os fãs de rap queriam era um cartaz atractivo no sapatinho. Rob Swift, Dealema e Nach no Porto (depois de passagens por Faro e Lisboa). Rica prenda, Pai Natal.
Animada pela óptima recepção do livro, a comitiva HIPHOPulsação seguiu rumo ao Hard Club, na expectativa de mais uma noite histórica. De facto, assim aconteceu: ver uma lenda do turntablism como Rob Swift, ex-integrante do colectivo X-Ecutioners, sentir as novas malhas de “A Grande Tribulação” de Dealema e contemplar pela primeira vez na Invicta um dos mais talentosos MC’s do Mundo, o espanhol Nach. Acrescente-se à história o recorde estabelecido em concertos de rap no Hard Club, com mais de mil pessoas assistindo ao show (curiosamente, quase um ano depois da então histórica passagem dos americanos M.O.P. a 17 de Dezembro de 2010).
Quando entrámos, já Rob Swift dava largas ao seu trabalho. A sua passagem pela Invicta serviu para promover um DVD seu e claro para mostrar ao vivo toda a capacidade técnica no manuseamento dos pratos. Sempre animado, dialogante e servindo vários clássicos de Hip Hop, Rob Swift deixou boa impressão, motivando até alguns b-boys a exercitarem-se no meio da multidão.
Dealema. Bastava esta palavra para deixar em polvorosa toda uma audiência. 4 MC’s e 1 DJ. Basta entrarem em palco, não dizerem uma palavra, não haver um arranhão no vinil, para que o delírio se instale. Fuse, Ex-Peão, Mundo, Maze e DJ Guze quiseram provar que não vivem dos louros do passado e no presente pretendem justificar toda esta idolatria. A massiva correria ao Hard Club reforça-os como os grandes estandartes do rap nortenho.
Com “A Grande Tribulação” prometem ainda aumentar mais a base de fãs, embora não seja o álbum mais fácil de se digerir à primeira auscultação. A entrada no palco fez-se um a um, ao som da faixa homónima do disco. “A Última Criança” e “Verdade ou Consequência” já estão na boca do povo e os restantes temas, com convidados como Ace ou Ana, é só uma questão de dias para estarem sabidos de cor e salteado. A festa de apresentação do novo trabalho foi intensa e longa, com a recordação de alguns clássicos do Pentágono como “Bófiafobia” ou “Sala 101”, que incendiaram uma sala que transpirava por todos os “poros” . Um concerto à Dealema, portanto. Mais uma vez, foram os mais aclamados da noite, e, convém que fique bem registado para mais tarde recordar, foram eles os grandes responsáveis por uma afluência pouco vista no Hard Club.
Para fechar a noite, o alicantino Nach, acompanhado de Abram, ZPU e do multifacetado DJ Joaking. Foi sempre um dos sonhos aqui dos escribas assistir a um concerto do MC espanhol. A concretização do sonho foi mais especial ainda por ter acontecido na nossa cidade. Uma pequena parte da plateia não ficou para ver Nach, mesmo assim a sala maior do HC manteve-se muito bem povoada quando “Hambre de victoria” deu o mote no espectáculo de apresentação ao povo portuense do seu disco mais recente. Nesta sua primeira actuação em solo tripeiro, Nach viajou por temas de “Mejor que el silencio”, mas também passou por “Un dia en suburbia” (“Infama”), não esquecendo “Poesia difusa” (“Ser o no ser”), “Ars Magna - Miradas” (“Palabras”) e até “En la brevedad de los dias” (“Basado en hechos reales”).
Momento épico da noite foi quando Nach desceu do palco e circulou pelo meio do público que já contava, na altura, com algumas clareiras. Joaking, DJ em grande parte do show, acolheu todas as atenções quando mostrou dotes como beatboxer ou b-boy. O concerto foi forte, a presença de Nach foi notável, de alguém em pleno estado de forma enquanto MC e atravessando uma maturidade artística. Para fecho do tasco guardou “Efectos Vocales”, e que melhor tema para concluir uma mini-tour que se estendeu por três cantos do país? Como dizemos no Porto: do carago!
A conclusão nem necessita de ser muito extensa, basta apontar os nomes em cartaz e classificar esse conjunto de artistas e as suas prestações na noite portuense: Rob Swift + Dealema + Nach = Perfeição.
Texto: Druco e Sempei Fotos: Ana Mendes Vídeos: André Silva(Primouz)
8 de Outubro de 2011. Foi este o dia, ou melhor, a noite, que cravou o ressurgimento discográfico de Terrorismo Sónico nas ruas do Porto (isto depois de uma primeira aparição no dia anterior, em Santo Tirso). Mundo e Ex-Peão são os dois rostos e vozes deste projecto que até este ano de 2011 tinha gerado apenas um trabalho há precisamente dez anos atrás, o álbum “1º Assalto”. A festa do último sábado no Porto-Rio serviu de apresentação ao segundo registo desta dupla história do rap tripeiro com um título que dispensa justificações: “2º Assalto”. Para o seu lançamento foram convidados: Maze, Sagaz, DJ Guze e DJ A.C. (ACTS). Chullage seria certamente outra ilustre presença caso não lhe tivesse surgido, para a mesma noite, outro compromisso inadiável.
Como é hábito em qualquer festa hiphopiana, foi um dos DJ’s de serviço que abriu as hostes, neste caso DJ Guze. Guze estendeu o seu set até por volta da 1h30, altura em que se iniciou o primeiro round, que é como quem diz, a primeira actuação. Maze, novamente em missão a solo (ou quase), surgiu com a descrição e segurança que lhe são reconhecidas e com alguma dose de bom-humor, anunciando a cada passagem de tema o novo álbum de Dealema (com lançamento público assinalado para Dezembro). No piso inferior do barco mais festivo da margem portuense do Douro, Maze jogou pelo seguro, com as faixas de cunho pessoal que o público melhor conhece. Exemplo disso, “Lágrimas de Gratidão” (da compilação “Roka Forte Vol.1”) ou “Brilhantes Diamantes”. Por outro lado, também foi buscar ao baú Dealemático dois êxitos, “Sonhar Acordado”, com a colaboração de Mundo, e mais tarde também Ex-Peão se juntaria a Maze para o eclodir de “Bofiafobia”. Pouco depois terminaria o showcase de cerca de 30 minutos, sem falhas, com boa disposição e uma boa empatia com a plateia presente que esteve, contudo, longe de encher a sala.
A rondar as 2h15, Mundo e Ex-Peão subiram ao ringue (leia-se palco) para o despontar do “2º Assalto”. De logótipo “terrorista” estampado no peito e sem ninguém nos pratos, os dois MC’s embarcaram no Porto-Rio com a lição bem estudada. Antes de trilharem o segundo disco fizeram questão de invocar o primeiro. Invadimos o palco/Ponham já as mãos no alto/Isto é um assalto. O grito de guerra elevado por dezenas de pulmões pôs desde logo o barco em polvorosa. Após o tema de abertura, entrou então em rotação o “2º Assalto”. Num primeiro contacto, este segundo trabalho de Terrorismo Sónico revela-se mais consciente e maduro (como seria de esperar) e menos cru. “Calão Distinto” foi provavelmente o som do novo repertório que maior receptividade recolheu.
Sagaz foi convidado de honra na performance de Terrorismo Sónico. Com uma bela participação na faixa “Desliguei a Máquina” (responsável por 16 barras e refrão), Sagaz claudicou um par de vezes na letra, falhas que Mundo e Ex-Peão prontamente colmataram, mas que não impediram o lisboeta de sair cabisbaixo do palco. À parte dos dois “Assaltos”, Mundo e Ex-Peão trouxeram sons a solo para loucura (literalmente) da audiência e ainda remisturaram o clássico “Bairro” de Ex-Peão com “Eles Andam Ao Cheiro” de Mundo. Para fechar em beleza, ou melhor, em histeria, marcaram um encore com “Lei da Ruas”, talvez o tema mais hardcore com selo Terrorismo Sónico. Não tivesse o barco atracado à margem e nessa altura teria certamente se deslocado dali com a agitação humana que se gerou no piso inferior. Findadas as actuações, DJ A.C. fechou o tasco.
Em suma, foi uma noite onde todas as boas previsões se cumpriram, exceptuando talvez o facto de a plateia ter sido um pouco menos numerosa do que se esperaria. Maze cumpriu as perspectivas, numa altura em que começa a ser evidente a falta de temas novos que dêem uma lufada de ar fresco nos seus concertos de cariz pessoal, isto apesar do MC ter normalmente poucas actuações sozinho. O duo Terrorismo Sónico abriu e fechou o show com as duas malhas mais pesadas do primeiro disco, desvendou o novo como se já se tratasse de um clássico e ainda teve a feliz ideia de juntar sons que marcaram o percurso de ambos a solo. Perfeito.
Dez anos volvidos sobre o "1º Assalto", Mundo & Ex-Peão a.k.a. Terrorismo Sónico regressam para uma segunda ronda, um "2º Assalto". Produzido pelos dois MC's/produtores de Dealema, o disco conta com três convidados: Chullage, Sagaz e a fadista Alexandra Guimarães.
A apresentação oficial do EP está marcada para o próximo dia 8 de Outubro no Porto-Rio, antecedida por um showcase de Maze.
No último sábado, dia 2 de Julho, o Porto Rio teve mais uma noite em que o barco atracado na margem direita do Douro andou perto de virar submarino tamanha a quantidade de gente que se instalou no piso inferior da embarcação. Os DJ’s Casca e Guze, Rato54 e Sindicato Sonoro eram os nomes em cartaz, numa altura em que do outro lado do rio chegava o ruído e a agitação da folia do São Pedro da Afurada - festa importante para a comunidade piscatória daquela zona.
As portas do Porto Rio abriram-se por volta da meia-noite, altura em que o fogo de artifício da festa popular de Gaia explodia lá bem no alto. Embora não propositado, o lançamento dos foguetes parecia um chamariz para a multidão começar a embarcar num dos espaços festivos mais peculiares da Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto. E a verdade é que a sala esteve praticamente a abarrotar e o ambiente literalmente quente! A primeira actuação iniciou-se por volta da 1h e esteve a cargo de Rato54, que, tal como Sindicato Sonoro, apresentou oficialmente o seu EP. O mc e writer do colectivo Doink (juntamente com Ortega, Alex, Guito e Lois) foi bastante aplaudido, tendo tido o mérito de agarrar uma plateia naturalmente expectante quanto ao seu primeiro trabalho a solo. E foi notória a cumplicidade entre o público e Rato54.
Momentos altos da performance: a parceria a meio com Ex-Peão e o single mais visível do EP, “Cinco Quatro”, que até conduziu Rato até junto da multidão. Rato54 só pode sentir-se feliz por ter tido uma festa de apresentação tão concorrida e vivida intensamente com muitos braços no ar e aplausos. Convém dizer que aquele espaço não proporciona grandes possibilidades de visionamento a quem se acomoda muito para trás, sendo por isso normal o acotovelamento em busca de uma posição mais privilegiada. Nos pratos esteve sempre o produtor e DJ D-One.
Por volta das 2h30 surgiu no palco o trio sindical: Mundo, Berna e Né. Se a atmosfera já estava a ferver então a partir daqui ardeu a valer! “Não Há Crise” é o segundo disco de Sindicato Sonoro e surge cinco anos após “Tempo d’Antena”. E foi com o supa clássico “Abram Alas” do álbum de estreia que Mundo, Berna e Né deram o mote para uma performance sempre muito bem correspondida por uma plateia que tinha a maioria das letras na ponta da língua e que desfrutou da noite de uma forma realmente muito intensa. A temperatura na sala foi ficando cada vez mais elevada, mas não foi por isso que houve falta de ânimo, aplausos e mãos no ar, muito pelo contrário. Que o diga, por exemplo, o single que dá nome ao novo EP “Não Há Crise”, que deve ter saído do barco Gandufe de ego inchado depois de ouvir o seu nome ser gritado a plenos pulmões e em uníssono.
Quem teve uma actuação com alguns momentos para esquecer foi Né, que várias vezes tropeçou nas letras, tendo sido mais visível a branca que graças à perspicácia do próprio virou improviso e até acabou por gerar grande entusiasmo na plateia. “Não Há Crise”, foi o que alguns oportunamente gritaram. Alguns dos obreiros do novo disco (Virtus e DJ Upgrade, por exemplo) subiram ao palco para o devido reconhecimento, mesmo antes de “O Elo Mais Forte” (quanto a mim, um dos temas mais valorosos do EP) fechar o alinhamento... até o encore. Depois do regresso, para fechar verdadeiramente a actuação, e tal como na abertura, o trio optou por um som do primeiro álbum, neste caso “Três”. Após os concertos, DJ Guze tomou de assalto as colunas com um set carregado de rap português, o que agradou bastante aos presentes.
Em suma, Rato54 e Sindicato Sonoro proporcionaram uma excelente festa a quem se dirigiu até ao Porto Rio e não poderiam desejar melhor noite para apresentar os respectivos trabalhos. Casa cheia, com gente de vários pontos do norte do país, excelente ambiente e nem as falhas de Né assombraram o espectáculo. Se há ideia que fica da noite de 2 de Julho é a de que o rap no Porto está tudo menos morto.
Na primeira grande festa de Hip Hop do ano no Hard Club (a última havia sido em Dezembro, aquando da visita de M.O.P., entre outros) voltou a haver correria ao antigo Mercado Ferreira Borges, onde se perfilavam as performances de Ex-Peão & Os Infiltrados e o nome maior da noite Gangrene (que junta The Alchemist a Oh No). Os DJ´s para os tempos mortos foram, mais uma vez, D-One e SlimCutz. Ao contrário do que constava inicialmente do cartaz do evento (entretanto modificado), Rey, Rato54 e Ortega não pisaram o palco da maior sala do Hard Club.
Da abertura das portas até ao começo das actuações distaram mais de duas horas. Foi esse o tempo que durou o warm up da festa, altura em que DJ SlimCutz manuseou o aquecedor sonoro a.k.a. mesa dos pratos e bafejou pelas colunas um set por si delineado (com uma sequência de sons reconhecível de outras noites). Perto das duas e meia da manhã, com a casa já bem povoada (embora algo distante da lotação máxima), Mundo Segundo (o host da noite) fez uso da palavra para convocar Ex-Peão & Os Infiltrados. Havia alguma curiosidade à volta da exibição de Ex-Peão muito por culpa dos denominados "Os Infiltrados". Em palco dispuseram-se dois guitarristas, um baixista e um baterista, complementados por DJ Guze (Dealema). Na verdade, este é um registo ao qual Ex-Peão está acostumado, visto que, apesar de ser reconhecido como MC/produtor Dealemático, desde cedo se incorporou em grupos de rock/metal. Agora imagine-se o repertório de Ex-Peão derramado ao vivo por uma banda com forte tendência para o rock...
O primeiro tema a escutar-se foi "Máscara". Estava dado o mote para um espectáculo interessante de Ex-Peão, que fluiu naturalmente (foi visível o à vontade do portuense como vocalista do grupo) e com aparente agrado no público. Palpando faixas como "Real e Verdadeiro" ou "Pombas Brancas da Cidade", Ex-Peão teve em "Bairro" uma das passagens mais fervorosas do show. Fuse surgiu a certa altura em cena mas apenas para participar num único som ("Sente o Impacto"). A terminar, Ex-Peão arriscaria ainda uma incursão pela faixa "Expulso da Discoteca", do seu disco "Máscara". A performance do MC de Dealema não foi muito longa mas valeu por ter empregue uma sonoridade mais tocada, orgânica e crua nos seus sons. Fica a sugestão para que repita mais vezes este registo de live band.
Pausa nas actuações, DJ-One tomou de assalto a mesa dos discos e, à semelhança de SlimCutz, também ele se encarregou de manter a sala animada enquanto se aguardou a entrada de Alchemist e Oh No. Os dois MC's/produtores americanos avistaram-se pouco antes das quatro da matina quando surgiram de lanternas na mão, irrompendo pela escuridão que entretanto se instalara propositadamente no palco. Desde o primeiro minuto a dupla Gangrene primou por uma enorme comunicação com a plateia, com particular destaque para Alchemist, que se mostrou sempre mais interventivo e efusivo do que o irmão do lendário Madlib. Do alinhamento que apresentaram há muito para contar. Desde logo as faixas do disco que os trouxeram em tour pela Europa e consequentemente até ao Hard Club. De "Gutter Watter" realce-se a recepção calorosa ao single "Not High Enough" e a forte interpretação em temas como "From Another Orbit" ou "Take Drugs". Antes, já "Under Siege" (do segundo álbum de ALC) se escutara bem no começo do concerto.
Mas Alchemist e Oh No tinham muito mais para mostrar fora do âmbito de Gangrene. Alchemist, por exemplo, fez questão de invocar Evidence a partir do som "All Said & Done". Mais à frente, Jay Dilla também mereceria uma menção honrosa com uma sequência de instrumentais de sua autoria, entre os quais "Fuck The Police". Para além de se exercitarem no mic, Alchemist e Oh No partilham igualmente o gosto pela produção. Ora a certa altura desencadeou-se uma espécie de battle. O processo era simples e estava mais do que estudado: alternadamente, e a pedido de ambos, DJ Mishaps solta uma série de beats produzidos pelos dois. Oh No tinha em carteira temas de "Dr. No's Oxperiment", enquanto que ALC desembrulhou clássicos produzidos para Dilated Peoples, por exemplo. Se tivesse de se eleger um vencedor nessa batalha instrumental em termos de reacção no público ele teria sido, sem dúvida, Alchemist.
Todo o show foi pautado por uma atmosfera enérgica formidável, tendo ambos os MC's se esmerado por contagia-la a todos os presentes. Antes da retirada do palco, dois dos momentos altos da noite, na hora de se ouvirem dois dos temas que mais moldaram o sucesso de Alchemist em toda a sua carreira. Primeiro a grande malha que fabricou para Prodigy, "Keep It Thoro", que surgiu após vários gritos de "Free P" em uníssono. De seguida, "Hold You Down" (o maior hit da discografia pessoal do carismático produtor da Califórnia) incendiou completamente o Hard Club. Após uma breve saída de cena, Alchemist e Oh No regressaram para um encore esperado, trazendo mais algumas faixas como "So Fresh" (do projecto Step Brothers - parelha de ALC com Evidence) para gáudio da plateia. Não se estranhe que a maioria do concerto tenha sido dedicado ao material pertencente a Alchemist, visto que este tem mais anos de actividade do que Oh No. Nova fuga para o backstage... novo regresso. Desta vez, já com mais de metade do público na rua, Oh No ocupou o lugar de DJ enquanto que ALC, sozinho na frente do palco, se encarregou de manter as hostes despertas com mais uma panóplia de canções com o seu cunho pessoal ou de Oh No. Pouco depois retiraram-se em definitivo deixando DJ Mishaps dominar os pratos até às 6h00.
As noites de Hip Hop no Hard Club já (re)começaram a ser uma rotina saudável na Cidade Invicta. Na sexta-feira, dia 4 de Fevereiro, Ex-Peão começou por protagonizar um concerto diferente do habitual mas de longe satisfatório. Gangrene é um nome que pretende paulatinamente vincar uma posição no rap contemporâneo. Alchemist e Oh No serão mais reconhecidos pelo talento para os beats do que para os microfones, mas arriscaram surgir com um disco com parâmetros nem sempre fáceis de digerir. Talvez por isso (mas não só), a esmagadora maioria das pessoas que se deslocaram à sala 1 do Hard Club fê-lo com pretensões de ouvir os grandes sons da discografia de Alchemist (sobretudo) e de Oh No e não propriamente as músicas com a rubrica Gangrene. De qualquer maneira, no fim das contas, saldo extremamente positivo para todo o elenco desta noite fria de Fevereiro.
Um último apontamento para dizer que Alchemist & Oh No foram apenas mais dois nomes internacionais que ultimamente visitaram Portugal, e nomeadamente o Porto, pelas mãos da Versus Eventos, que se vem posicionando na vanguarda no que a grandes cartazes de Hip Hop diz respeito. O próximo evento desta promotora está selado para 5 de Março. E Alchemist tem já regresso previsto para este ano de 2011...
Nos finais da década de 90 – considerada a época dourada do Hip Hop – surgia em Portugal a primeira versão das então denominadas “Nova Gaia Hip Hop Sessions”, muito graças à intervenção decisiva de Mundo Segundo (um dos grandes impulsionadores da cultura Hip Hop no nosso país). Ao longo de cerca de dez anos, o Hard Club foi um importante berço para inúmeros artistas, numa altura em que grande parte deles ainda gatinhava no rap. O espaço foi, com o passar do tempo, adquirindo o simbolismo de uma espécie de Meca do Hip Hop nacional situada a norte, numa época em que o Hip Hop português ia também ele ganhando notoriedade no panorama musical.
Porém, as festas que se tornaram míticas na promoção da cultura (até porque não só abrangiam o MC'ing, como também as restantes vertentes) teriam a sua última sessão em 2006. Desde aí, as “Nova Gaia Hip Hop Sessions” passaram a ter vida apenas na memória de todos aqueles que as testemunharam e que dificilmente esquecerão o fervor daquelas noites. O Hard Club, esse, por muito que aguardasse por novas edições, acabaria destruído (por razões que o tempo apagou) e abandonado, restando-lhe a bela paisagem do Rio Douro como consolo. Com o edifício não só se ruíram momentos históricos do Hip Hop português como também de outras faunas musicais, fruto do enorme ecletismo do espaço.
Na última sexta-feira, dia 22 de Outubro de 2010, o Hard Club voltou a abraçar uma "Hip Hop Session", não só refeito no nome das novas festas, como também na sua localização, que o dista das velhas instalações pouco mais de uma ponte. Gaia já faz parte do passado, tal como o Mercado Ferreira Borges, edifício histórico do Porto que mantinha as prácticas de animação cultural após o término do dito mercado e que continuará com os mesmos pretéritos agora como Hard Club. A mudança do espaço físico será mesmo a única alteração desejada, esperando-se que o HC marque as noites portuenses tal como marcou as de Gaia. Desejo esse que se estende, obviamente, ao Hip Hop, que até já teve a sua primeira grande festa há cerca de duas semanas, na memorável noite de sexta-feira, dia 8 de Outubro.
E que tal estrear o primeiro capítulo das "Hard Club Hip Hop Sessions" com velhos conhecidos dos antigos serões? Dito e feito. Body Rock Crew (DJ D-One, Deck'97 e Maze), M7, Barrako 27 (com DJ Guze), Sagas (com DJ Nel'Assassin) e Terrorismo Sónico (Mundo e Ex-Peão). Todos estes elementos conheceram de perto (uns mais que outros) o palco de Gaia, e todos eles esperariam, por certo, entrar com o pé direito na nova casa. Dito e feito, novamente. Na pista esteve ainda o colectivo de B-Boys Zoo Gang e, num palco exterior à sala, Mr.Dheo representou as cores do graffiti.
Com o despertar marcado para depois da meia-noite, a festa começou algo fria. Na tentativa de aquecer o ambiente, esteve o trio Body Rock Crew que, como vem sendo recorrente, foi chamado para agitar o início, os intervalos e o fim do espectáculo com as suas malhas carregadas do bom gosto que o caracteriza. Poucos eram os presentes no interior da sala 1 e já Mr.Dheo coloria no exterior três telas alinhadas para o efeito. Verdade seja dita: o primeiro impacto de quem entrava no edifício era da performance do writer de Gaia, no entanto, a mesma parecia simultaneamente algo distante da festa devido à localização do palco de actuação. Quem lá se dirigiu pôde atestar bem de perto um pouco da habilidade de um dos mais simbólicos writers de Portugal.
Com a sala principal ainda pouco povoada, os Body Rock Crew deixaram os pratos para DJ Nel'Assassin, que veio para acompanhar Sagas mas também para riscar discos a solo. Maze foi o host da noite, e foi ele a chamar M7 ao palco. Pode-se dizer que a actuação da MC foi mais do mesmo. E isso é mau? Não necessariamente. Com M7 esteve a companheira do costume (Capicua) e das colunas saíram os temas do costume, da mixtape do costume ("Martataca"). E porque é que a performance não foi aborrecida? Porque M7 não é aborrecida, tem tudo menos falta de força e genica, é capaz de atrair a atenção de uma sala inteira e revela boa escolha de instrumentais.
Foi com "Rainha" que se deu a primeira trinca nas palavras apimentadas de Marta Isabel a.k.a. M7. Se havia alguém na plateia que nunca tinha provado o sabor das suas rimas, por certo se alarmou num instante. Insurrecta como sempre, M7 não é mulher de falinhas mansas, bem pelo contrário, facto que pode agradar a gregos mas não a troianos. Já a colega Capicua é o oposto, o que acaba por servir como complemento. Mais cuidadosa naquilo que diz, Capicua também exibiu, por exemplo, a faixa "7 Dias", da sua mixtape "produzida" por DJ Premier. Numa actuação conjunta que teve os seus altos e baixos a nível de correspondência do público, M7 e Capicua contaram com DJ D-One nos pratos e acabaram em clima de festa ao som de "Ooh Wee" de Mark Ronson.
Intervalo no palco, início de show na pista. A plateia agita-se, forma num ápice uma roda onde os elementos do Zoo Gang se posicionam. Ao longo de largos minutos os B-Boys acariciaram o solo da forma menos ortodoxa possível, pois é daí que provém o espectáculo. Ao som de batidas que nos relegaram aos tempos primórdios do Hip Hop, a exibição de Zoo Gang foi um regalo nesta noite de cerimónia, embora a actuação não fosse visível a todos os presentes (só mesmo para quem cercou de perto a roda). Verdadeiro espírito de festa de Hip Hop! Seguiu-se Barrako 27, com Speg e seus tropas. À espera deles estava uma legião de adeptos que desde o primeiro minuto se fez ouvir na sala. Com uma entrada encenada com percussionistas e uma violinista, Barrako 27 partiu para um concerto emotivo e bem acolhido em grande parte da audiência, que, a esta altura, já ultrapassava a meia lotação (que ronda as 800 pessoas).
"De Cabeça Erguida" é um dos últimos trabalhos de Barrako, em parceria com DJ Guze, mas o alinhamento não se limitou ao EP, nem podia. "Abraço Forte" foi provavelmente a passagem mais sentida de todo o show, pois teve o condor de fazer Né descer do palco até junto dos seus seguidores e, rodeado dos mesmos, debitou as rimas dessa faixa incontornável do seu repertório. Nota para a interpretação do jovem Koffy Jr. (do colectivo trofense TRF) em "No Fundo (Do Túnel)" e para o êxtase e interacção constantes com o público em outras faixas como "Bla Bla Bla". Antes da retirada de Barrako 27, eis que dispara o som que todos aguardavam ouvir naquele preciso momento: "Saudoso Hard Club", pois claro. A plateia fez Né sentir-se verdadeiramente em casa, o que o deixou visivelmente feliz e emocionado e com o ego elevado. A prová-lo está a tirada a dada altura do concerto: "Depois de Dealema, eu fiz o melhor álbum português!".
De Carcavelos até à Invicta, Sagas veio trazer uma nova fragrância ao Hard Club, sem sotaque tripeiro mas com uma mistela de português e crioulo. Nada que fizesse confusão aos presentes. A sintonia entre o rapper e Nel'Assassin é evidente e reflecte-se na performance de ambos. Não foi um show só de Sagas mas também de DJ Assassino. Este último pôde dar a conhecer algumas malhas da mixtape "Mike Phelps" que, garantia do próprio, estará (finalmente) para sair em breve. Nela, o DJ e produtor irá revelar uma outra faceta: a de MC. Compelido por uma batida de Alchemist, Nel'Assassin rimou mesmo no Hard Club. O seu talento para as rimas pode ser imberbe mas nem isso o acanhou.
Sagas não trouxe alguns clássicos do seu primeiro álbum a solo, como "Anjo de Luz" ou "Quem És Tu?", mas também desvendou músicas novas. Uma delas, com base instrumental de DJ Ride, conta com um refrão que foi particularmente bem acolhido pelo público. Todo o concerto de Sagas foi pautado por uma animação constante, tendo o MC caído nas graças da plateia pela energia e boas vibrações disseminadas pelas suas canções. No rap de Sagas não mora a rima de teor sexual nem de estímulo à violência, reina antes a mensagem positiva e alegre. Mundo Segundo foi o convidado de honra de Sagas Demolidor para uma breve participação. Já o Sr. Alfaiate foi "obrigado" a participar numa batalha (aparentemente ensaiada) com o percussionista. Bom concerto de Sagas que atingiu um dos pontos altos com a malha "Som Pesado" (do álbum de Assassino "Reconstrução").
A última exibição da noite estava reservada para o duo Terrorismo Sónico. E Mundo e Ex-Peão conseguiram provocar o caos no Hard Club apesar do adiantado da hora e do previsível cansaço dos presentes. Cansaço? Puro engano! Os dois MC's dealemáticos gozam de uma popularidade e respeito na Invicta consolidados ao longo dos anos e, quer a solo, em duo ou em grupo como Dealema, contam sempre com uma fervorosa massa adepta na plateia. Esta tem as letras na ponta da língua e a empatia flui naturalmente. O primeiro álbum de Terrorismo Sónico, "1º Assalto", foi revisitado, mas também foi dado um cheirinho do seu sucessor, "Antes do Atentado". Os clássicos que marcam o repertório a solo de Mundo e Ex-Peão são sempre recebidos com grande impacto. "Pombas Brancas da Cidade" e "Real e Verdadeiro" de Ex-Peão ou "Puro Prazer" de Mundo, todas elas foram cantaloradas em uníssono. Especial foi o enlace de "Eles Andam Ao Cheiro" a meio do beat de "Bairro".
Por muito que se diga que o concerto foi inebriante, enérgico e empolgante, faltarão palavras para descrever a parte final do mesmo. Mundo e Ex-Peão tinham dado por terminado o alinhamento, mas a plateia não queria arredar pé do recinto, muito menos deixar de ouvir a dupla. Ora o desejo de um grupo de ferrenhos adeptos parecia só um: "Lei das Ruas". Desejo concedido, a música foi, não cantada, mas sim berrada a plenos pulmões: "Esta é a lei das ruas, filhos das p*tas!" Este ambiente escaldante deu azo a um endiabrado moche na frente do palco. E foi assim, em brasas, que terminaram as actuações. Daí em adiante a música voltou a rodar nos discos de Body Rock Crew.
Mais uma noite histórica no mês de Outubro que o Hard Club terá para contar mais tarde, isto precisamente quatro anos após o anúncio do encerramento do espaço de Gaia. As "Hip Hop Sessions" começaram oficialmente a agitar de novo a cidade do Porto e o Hip Hop nacional. Ao longo das próximas sessões é de aguardar o desfilar de novos e velhos talentos da nossa cultura, quer do MC'ing, DJ'ing, BBoy'ing ou do Graffiti. Zoo Gang e Mr.Dheo foram os primeiros representantes destas duas últimas vertentes. Body Rock Crew tomou conta dos pratos e dos momentos mortos da festa, que teve Maze como apresentador. Barrako 27 e Terrorismo Sónico foram os nomes mais aplaudidos da noite. Sagas teve uma actuação meritória e M7, apesar de não ter agarrado o público como os restantes, fez o que lhe competia. A sala 1 não esteve lotada mas contou com uma boa afluência. Ainda sem cartaz revelado, o próximo capítulo, diz-se, está para breve. As velhas festas no Hard Club estão mesmo para ficar.
O relato das peripécias da noite de Hip Hop no Gare Clube, no Porto, já pode ser visto no H2T. O nosso texto dá conta de tudo o que se passou na noite em que actuaram DJ D-One, DJ SlimCutz, Supremo G, Deau, Enigma, Fuse e Ex-Peão. À distância dum clique:
Mais uma noite de rap exclusivamente nortenho no Porto, desta vez no Gare Clube. Nós estivemos lá e, como é habitual, revelaremos a nossa reportagem no H2T. Mas porque não contemplar já os mais curiosos com um cheirinho da noite tripeira de 2 de Abril?
Como havíamos escrito no início da semana, o novo EP dos Dealema, "Arte de Viver", estava prestes a sair do escuro, e eis que hoje já foi visto na plataforma da Optimus Discos. As 6 novas faixas do colectivo dealemático estão então à distância de um simples registo (para quem ainda não o tem) e um (ainda mais simples) click.
O primeiro single tem aguçado muitos ouvidos por aí. Vão já devorar o resto dos sons que vos falta!
Novo ano, novo trabalho, novos sons, novo vídeo, a mesma autenticidade de Mundo, Expeão, Fuse, Maze e DJ Guze. O conjunto dealemático mantém-se fiel à sua "Arte de Viver". Este é o título do novo registo dos quatro MC's (e DJ) nortenhos, e que se prevê que esteja acessível ainda este mês de Março. O EP (de 6 faixas) dará continuidade à saga de lançamentos gratuitos na plataforma Optimus Discos, mas terá também edição física.
Em cima, o primeiro vídeo e single "Mais uma sessão"...
Quatro de Julho, segundo e último dia do “Eixo Rap” em Vila Nova de Gaia. Após uma estreia fantástica, as expectativas para a noite de ontem eram também elevadas. Sabia-se, porém, que seria muito difícil vivenciar-se sensações semelhantes à noite anterior, onde o povo esteve em polvorosa. Mas a esperança mantinha-se em se passar um bom momento, curtindo boa música. Felizmente, os artistas fizeram-nos a vontade.
Devemos dizer que não pudemos satisfazer o pedido que Mundo fizera, na noite de Sexta-Feira. Ele tinha solicitado que o pessoal ontem chegasse cedo para que quem abrisse as hostes tivesse uma plateia minimamente composta. À hora em que pisámos as ruas de Miramar, Império Norte ultimava os preparativos para soltar a sua música. No “Eixo Rap”, foi nota dominante o entusiasmo e o suor que os artistas deixaram no palco. DJ Guze, Wöyza, Mundo, Ex-Peão e El Puto Coke proporcionaram aos presentes um show agradável, apesar de curto. A potencialidade deste grupo é grande e será curioso acompanhar a evolução deste projecto, bem como a carreira individual dos artistas que compõem este colectivo luso-galego.
Wöyza era a seguinte no alinhamento do “Eixo Rap” de 4 de Julho, mas agora a solo. Bem, também não esteve completamente sozinha durante a sua actuação já que DJ Limbo esteve na sua retaguarda. E logicamente o público presente deu a maior força à artista natural de Vigo. Assim, a lindíssima Wöyza cantou e encantou. Misturando o Hip Hop com a Soul, a música de Wöyza tem todos aqueles pozinhos especiais que nos fazem levitar. A interpretação sentida de cada tema seu aliada ao bom suporte musical, faz com que o nosso corpo e mente retenham das canções de Wöyza propriedades como a elegância, a excelência e a frescura. Apesar de se expressar numa outra língua que não o português sentia-se toda a classe que Wöyza destilava em cada palavra cantada. Depois, o jogo corporal dela é um espectáculo à parte. Sempre enérgica, Wöyza conseguia fazer emergir toda uma comunicação corporal que complementava a verbal. Canta com alma, com garra e empenha-se em fazer com que a sua mensagem seja decifrável para as pessoas. Daí a constante interacção que privilegiou com a plateia. Despediu-se em grande, agradecendo aos portugueses a forma como sempre a recebem. Portugal já adoptou esta galega. A noite foi dela.
Mind da Gap era o grupo mais esperado da noite. DJ Serial, Presto e Ace subiram ao palanque e os aficionados do grupo saudaram os músicos com gritos de boas-vindas. Ace e Presto estiveram também cheios de pica, mostrando-se irrequietos, movimentando-se por todos os espaços do palco. Os mc’s desde logo estabeleceram um diálogo com as suas gentes. Ace mostrou um humor muito particular. Não que estivesse mal disposto, longe disso, mas contou umas piadas cuja decifração era de alcance bastante complicado. Mas todos se riram e divertiram com a intenção de Ace, que ou não estava muito inspirado para o humor ou as suas piadas são mesmo muito rebuscadas. Foram momentos engraçados em que o próprio mc teve a capacidade de se rir de si próprio. No plano musical, foram sendo tocados alguns clássicos de Mind da Gap. Os fãs não cabiam em si de contentes e acompanhavam em uníssono os mc’s. Destaque para a estreia ao vivo duma nova canção de Mind da Gap – “Abre os Olhos” – que fará parte do novo álbum do grupo nortenho. O pano caiu ao som da emocionante “Invicta”. Mind da Gap em boa forma num concerto que foi certamente do agrado da legião de apoiantes da tríade.
Cabe-nos fazer um balanço do festival “Eixo Rap”. Não nos foi possível, infelizmente, acompanhar todos os artistas e grupos que actuaram nesta iniciativa. Todavia, no que observámos dos instantes em que estivemos presentes, pode garantir-se que o festival foi francamente positivo. Assistiu-se à entrega total de todos, o público respondeu à chamada e nos dois dias o recinto esteve sempre praticamente cheio na hora em que actuavam os nomes mais consagrados. O primeiro dia do “Eixo Rap” foi mais electrizante e emblemático muito graças à soberba actuação de Dealema e do impacto que teve em todos aqueles que acompanhavam o evento. Ontem, não se sentiu tanto essa atmosfera vibrante mas, em abono da verdade, houve momentos de muito boa música e duma grande sintonia entre os artistas e as pessoas. Saúde-se a Câmara Municipal de Gaia e os restantes mentores pela excelente iniciativa que desenvolveram, mostrando que estão atentos ao fenómeno do rap, que tem profundas raízes e tradição na cidade. Enalteça-se também a conexão entre o Norte de Portugal e a Galiza, que sempre tiveram historicamente uma forte ligação. Uma palavra sentida de apreço pelos artistas espanhóis que deixaram uma óptima impressão em Gaia e foram muito bem acolhidos pelos portugueses. Afinal de contas é isto o rap, é isto o Hip Hop – irmandade e intercâmbio de mentalidades entre os povos, através da fomentação e elevação da arte. Parabéns a todos os que contribuíram para o sucesso do “Eixo Rap”, numa iniciativa «Gaia – Capital da Cultura do Eixo Atlântico 2009».
A elevação de Gaia a “Capital da Cultura do Eixo Atlântico” foi coroada com a organização de um festival de dois dias completamente à borla. Entre a realização de algumas iniciativas culturais, destaca-se a mostra de sons luso-galegos no halo do Hip Hop. Nomes importantes do movimento ibérico juntam-se assim em Gaia, na Alameda do Senhor da Pedra, para estreitarem laços culturais insolúveis com o rap como pólo agregador. Neste primeiro dia do Eixo Rap, as nuvens no céu pareciam querer abençoar o festival. Dito e feito. As minúsculas lágrimas que os deuses brotaram sobre as nossas cabeças, num curtíssimo espaço de tempo, benzeram os presentes, e a acreditar na sabedoria popular, auguravam então uma noite especial.
Quando chegámos a Miramar, artistas espanhóis já actuavam no palco perante um reduzidíssimo número de espectadores. Seria o efeito chuva, seria ainda cedo? Aproveitámos para dar um giro pelas redondezas e contemplar da belíssima praia o imenso mar e a castiça morada do Senhor da Pedra (uma pequena capela construída em plena praia sobre os rochedos). Aproximava-se a hora de Syzygy actuar e acorremos para junto do palco expectantes sobre se o recinto já estava mais composto. Felizmente, as muitas pessoas que vagueavam pelos espaços de lazer próximos aglomeraram-se junto do palco e deram calor humano a M7, Capicua e D-One.
O concerto foi bom, com o repertório escolhido a recair em temas presentes nas mixtapes que as mc’s de serviço lançaram a título individual. A entrega de M7 e Capicua foi salutar e a intensidade foi diabólica! Autênticas diabas com o microfone na mão, espalharam a sua energia, atitude e boas rimas, sempre sem filtro. D-One naturalmente também contribuiu com a sua colaboração para enriquecer a actuação. Syzygy despediu-se dos presentes com um caloroso agradecimento e Capicua anunciou que seguiria para Lisboa. Boa viagem, rebenta com eles!
Seguiu-se El Puto Coke, com o seu DJ. Após a exibição de skillz do segundo, El Puto Coke entrou no palco a fim de conquistar Gaia. O começo não foi muito animador, pois não conseguiu cativar muito o público. A dificuldade em se entender a língua, mas também a linha mais morna e lenta dos beats talvez tenha contribuído para esse início. Porém, isso durou dois temas. El Puto Coke estabeleceu um diálogo com o público, interpretando dali em diante canções mais intensas, com mais garra e mais agressividade nos instrumentais e isso emocionou mais o público. À medida que o tempo passava mais pessoas El Puto Coke alcançava. Nos dois últimos temas seus, antes de chamar um seu convidado ao palco, El Puto já nos tinha deixado rendidos ao seu rap consciente, onde são evocados relatos e sensações da vida quotidiana com que todos se identificam. Depois do tal dueto com o amigo que trouxe da Galiza, que rima ainda mais depressa dificultando a percepção, despediram-se do público português com um enorme agradecimento e aliciando os espectadores a chamarem o grupo por que todos ansiavam: DLM.
Um pequeno interlúdio para organização do material logístico era tudo o que separava o público de ver Dealema. Todas as brechas que existiam nos lugares da frente foram prontamente preenchidas por aqueles que estavam mais atrás. Nessa altura, o recinto era já um mar de gente. A maré estava a encher em direcção ao palco. Às pessoas não lhes bastava serem o tal mar de gente pois estavam era sedentas por ver os seus ídolos. Aos primeiros indícios de Dealema se apresentar ao serviço, as gentes agitaram-se, entraram numa convulsão de emoções e a loucura foi de tal ordem que parecia que de repente tínhamos sido teletransportados para uma outra dimensão. Ou, no mínimo, para um festival à parte. Assim foi, efectivamente. Dealema a jogar em casa nem sequer precisava de pedir para as pessoas se manifestarem, elas faziam ruído naturalmente. Foi algo único, extraordinário mesmo. Os momentos foram de cumplicidade total entre público e DJ Guze, Mundo, Ex-Peão, Fuse e Maze! Não será atrevimento nem andará longe da verdade dizer-se que é ímpar no Hip Hop português a corrente de entusiasmo que une o público a um artista ou grupo, neste caso o Pentágono. Os elos de identificação criaram uma sinergia maravilhosa e perfeita que catapultou o espectáculo para níveis galácticos!
O Colectivo Dealemático é um verdadeiro embaixador cultural da região. A sua influência na juventude é impressionante e a sua mensagem é extraordinária também pela eficácia com que capta a atenção dessa camada da nossa sociedade. Não se deve estranhar portanto que dessa empatia se atinga a idolatração por parte dos seguidores do grupo. Dealema foi desfilando os seus hinos e o povo foi acompanhando em uníssono e rejubilando. A satisfação do colectivo era indisfarçável por ver tantas pessoas a celebrarem a sua música e prestando-lhes tributo com a sua presença e participação no concerto. Maze tirava fotos ao público, Mundo logo no início filmara-o. O delírio aconteceu quando Wöyza foi chamada ao palco para interpretar “Segunda Vinda (A Profecia)” – suposto último tema do concerto. Os níveis de ruído atmosférico atingiam o píncaro e ganhavam com certeza em altura no duelo com os vapores da planta mágica. Foi um momento arrepiante a que se assistiu em Gaia, com os músicos e fãs num perfeito e envolvente abraço. Depois, as luzes apagavam-se, os artistas disseram adeus e abandonaram o palco mas o público não se fiou na cantiga. Sabíamos todos que eles iam voltar porque o clássico “Portugal Surreal” não tinha sido ainda tocado e exigia-se que o tema ecoasse alto pois está mais actual que nunca.
Dealema voltou ao palco, o barulho foi ensurdecedor e os mc’s apelavam que para neste último tema ensaiássemos uma coreografia a preceito. Vai daí tudo se preparou para fazer uma enorme chifrada ao ex-ministro da Economia Manuel Pinho e aproveitando a deixa dedicou-se ainda aquele gesto primoroso ao Ministério da Cultura que tem tido uma prestação execrável nos últimos anos, num desempenho transversal em todas as administrações que têm governado Portugal. O êxtase tomou conta de Miramar. Emocionados e convocando todos para estarem presentes no dia de hoje nas actuações que serão feitas, Dealema despediu-se com a certeza de que toda a sua carreira e trabalho tem compensado. O amor que receberam na actuação foi indescritível. Só quem sente entende! Não se esqueçam, hoje há mais!