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domingo, 3 de junho de 2012

HIPHOPulsação Magazine #02 - Junho

O nº2 da HIPHOPulsação Magazine já está disponível. Esta edição de Junho estreia um artista nacional na capa, Virtus. Para além da grande entrevista com o MC/Produtor do Porto, há muito mais para ver. A revista pode ser vista ao detalhe a qualquer hora no site www.hiphopulsacao.com.

Eis alguns dos conteúdos de Junho:

Artigos de opinião
- "A Golden Age existiu?"
- "A melhor rima de sempre"
Entrevistas
- Virtus
- Dead End
Reviews
- Deau
- Kacetado
- Virtus
Reportagens
- Sam the Kid vs Mundo Segundo
- Immortal Technique
- Red Bull BC One Chyper Portugal
Graffiti
- Filmografia
- Exposição "Arte ou Vandalismo? Decida Você"


segunda-feira, 7 de junho de 2010

Entrevista Jornal "Metro": Bob da Rage Sense

Como nasce o nome deste álbum? Quem é Marcos Robert?
Bem, o nome nasce da paixão que tenho pela América Latina, das revoltas populares e das grandes revoluções que fizeram história, Marcos somos todos, é uma metafora inspirada no partido zapatista Mexicano (EZLN), que tem muitos significados, como por exemplo: Um gay em São Francisco, um homem negro no Apartheid, um jornalista sem portfolio, um escritor sem meios pra editar as suas obras e etc. São basicamente todos aqueles que pertencem a uma minoria excluída...

Este é um álbum cheio de colaborações. Quem destaca? E com quem gostava um dia de trabalhar?
Este foi o álbum que me deu mais prazer trabalhar, tudo aquilo que visualisei concretizou-se, desde a produção musical e artística às participações fortes que ele traz, como o New Max, Sam the kid, Sir Scratch, Dino, Tamin, Laton, Dj Scotch RAF TAG e etc. Não faço destaques porque na minha opinião todos estiveram muito bem. E quanto a futuras participações gostaria muito de trabalhar com pessoas que me inspiram a escrever e a fazer música, como o Chico Buarque, Manuela Azevedo (Clã) e muitos mais nomes nacionais e internacionais.

O álbum foi lançado no dia 11 de Novembro, dia da Independência de Angola. O dia não foi escolhido ao acaso, pois não? Porque escolheu esse dia?
O dia foi escolhido de propósito, tendo em conta que eu nunca acreditei que Angola fosse realmente independente e cada álbum que gravo serve como um veículo de libertação, para quem sonha com a verdadeira democracia em Angola e não só.

Quais as diferenças face ao álbum anterior?
Já tenho dois álbuns editados antes deste: "Bobinagem" e "MPLA (Menos Pão, Luz e Água)". E cada álbum traz um registo musical diferente, desde a composição lírica à parte instrumental. O "Bobinagem" é um álbum mais virado para o meio hip hop (foi eleito o melhor álbum independente em 2004), e no "MPLA" ja se nota um discurso muito mais abrangente e mais melodia nas músicas, mais refrões cantados. A diferença que o "Diários de Marcos Robert" traz é o meu lado mais orgânico, tenho o João Cabrita nos sopros (saxofone, trompete e etc), tenho o João Gomes (Cool Hipnoise e Orelha negra) nas teclas. Isto é algo que nunca tinha feito antes, chamar músicos para tocar nas faixas.

O seu pai era grande admirador do Bob Marley. É verdade? Foi daí que veio o seu nome?
Sim, o meu pai era grande fã de Bob Marley, viu-o duas vezes ao vivo nos anos 70, era mesmo fanático, por isso me chamo Robert (Bob).

Em que é que isso o influenciou, em termos musicais?
Tudo o que sou e faço pela arte é consequência da música do Bob Marley, as letras dele fizeram-me ganhar uma outra perspectiva sobre o mundo e as sociedades, a crença na paz e no amor são factores muito importantes para sobreviver nesta selva de betão. Quem conhece os meus trabalhos sabe que a flosofia é igual à do Bob: paz, amor e união.

O tema “Nunca estiveste na minha pele” fez-me querer perguntar-lhe... Pode dar-me exemplos de situações concretas, reais, em que sentiu o racismo na pele?
Esse tema não retrata propriamente situações que vivi baseadas em racismo ou algo parecido. Trata-se do medo que as pessoas têm daquilo que desconhecem. Eu nasci e cresci em Luanda, Angola, e quando cheguei cá e comecei a ter alguma "ascenção" no hip hop "Tuga" senti que muitas pessoas desenvolviam sentimentos estranhos em relação a mim, sentimentos de ódio e inveja em relação ao meu trabalho, já ouvi mesmo coisas como "Vem esse gajo de Angola a querer ocupar o nosso lugar"... Não havia lugares marcados quando cheguei cá e consegui encontrar o meu também. Já vivi situações tristes cá como nunca tinha vivido quando estava em Angola mas pronto, como disse o meu mano Mc K "uma gota de sucesso, um oceano de rivais". E esta letra é sem dúvida a minha favorita do álbum, senti-me bem depois de a ter gravado, senti-me aliviado.

Em que é que se inspira para escrever?
Inspiro-me em tudo, leio muitos livros, vejo muitos filmes e documentários, inspiro-me no quotidiano, política, Bob Marley, Rage Against the Machine, Common Sense, Chico Buarque de Hollanda, Vinicius de Morais, John Lennon, Jim Morrison, Pink floyd e muito mais...

Considera-se um político da música?
Eu considero-me uma pessoa politizada que quer apresentar os seus pontos de vista de forma escrita e cantada. A política faz parte de tudo o que nos rodeia por isso não nos podemos dissociar dela, sou político sim, mas mais um ser humano que se importa com tudo que está mal.

Escolha três palavras para definir o álbum. E três para o definir a si...
Álbum: Ritmo, Arte e Poesia. Eu: Humanista, objectivo e verdadeiro.

Foto: David Francisco

terça-feira, 25 de maio de 2010

Entrevista a Expensive Soul

1- Qual o significado do título do álbum “Utopia”?

Foram 3 razões: 1º por ser um disco que te remete para as décadas 60 e 70 e, ao mesmo tempo, está com pé em 2010, ou seja, às vezes parece que estás a ouvir uma cena oldschool, outras percebes que é actual. Depois porque nos inspirámos no Escher (Formas Impossíveis) para as ilustrações que estão no interior da capa e, por último, porque todas as nossas letras são histórias, umas vividas, outras imaginadas, mas até agora muitas delas utópicas. Estamos a caminho da felicidade.

2- Quais são as expectativas para o novo disco ao nível da recepção do público e da imprensa?

São altas porque fomos arrojados no disco, sentimos que estamos a dar um ar fresco à música nacional em relação à sonoridade. Achamos que o público estava à espera que este disco fosse diferente dos outros e também achamos que é um disco bem mais maduro, um reflexo da nossa cara.

3- Este disco vem na senda dos trabalhos anteriores ou podemos esperar algumas surpresas?

Sim, tem um lado mais experimental, um lado em que viajas com as músicas, que era um efeito que desejávamos conseguir e que nos outros não tínhamos consigo.

4- Como observam o estado da música portuguesa?

Muito boa! Achamos que cada vez mais há projectos com grande qualidade e no caminho certo, só falta mesmo o devido apoio para puderem vingar.
5- Para vocês, qual é a melhor parte de todo o processo criativo que executam?

Quando sentimos que a musica está pronta e que não lhe falta mais nada... que está com a sonoridade que desejamos.

6- Expensive Soul tem cada vez mais fãs. O céu é mesmo o limite?

Achamos que não. Para nós fazer música, dar música, partilhar música é o nosso mundo... e desejamos continuar a fazer por muito tempo porque ainda temos muito para dizer e fazer.

7- Já têm uma vasta experiência em concertos. Qual consideram o mais marcante?

Todos eles têm o seu momento especial mas claro que os grandes festivais têm um energia diferente. São a nossa praia!

8- Querem fazer o destaque sobre quais os projectos mais interessantes que vislumbram na música nacional?

Sim. Ao disco do Bob da Rage Sense que é daqueles grandes discos; ao do AS2 que também está para sair; ao do NBC que também é um excelente disco.

9- Para terminar, qual é o verdadeiro intuito de levarem as duas personagens do vídeo “O Amor é Mágico” para o Facebook?

Eles terem vida própria como no vídeo e partilharem o seu amor. E que as pessoas os conheçam melhor, por isso fiquem atentos que eles vão dar por aí!
O HIPHOPulsação agradece imenso pela entrevista!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Entrevista com Mind da Gap

Ainda não se passaram quinze dias desde que Mind da Gap editou a sua mais recente pedrada musical, intitulada "A Essência", e já corre a ideia generalizada do grande regresso do grupo. Com um vasto historial de sucessos e com uma decisiva preponderância no rap feito em Portugal, Mind da Gap aflora temáticas pertinentes, levanta bem alto a bandeira do Hip Hop, expande a sua própria discografia para um outro nível. O HIPHOPulsação teve a feliz oportunidade de colocar umas questões ao grupo e as respostas não desiludiram. Ace, Presto e Serial a provarem porque continuam essenciais neste Hip Hop que é o corpo e a alma deles.

1- Afinal, o que é estar “sintonizado no modo alternativo”?

MDG- É viver numa sintonia diferente daquela em que é suposto estarmos todos, ou daquela em que gostariam que estivéssemos. É seres verdadeiro - contigo e com os outros, teres espírito crítico e não engolires tudo o que te “dão a comer”, lutares por aquilo em que acreditas, fazeres aquilo que sentes que deves fazer, ter vontade de ser feliz e estar preparado para fazer o que for preciso para isso acontecer, não seguires o estado de espírito geral do “rebanho”, não viver no medo, alimentar o rebelde que há em ti com informação fora dos esquemas de controlo. No fundo, seres fiel a ti mesmo e às tuas convicções.

2- Existe um traço sublinhado a grosso neste vosso disco relativamente ao mal-estar social. Acreditam, tal como Camões, que «um rei fraco faz fraca a forte gente»?

MDG- Sem sombra de dúvida. Pior do que isso, diríamos “um rei actor faz pouco inteligente e amorfa a forte gente”. A política em Portugal parece uma “filial” de Hollywood. E enquanto tu, quando vais ver um filme ao cinema, se não gostares do mesmo, podes sempre levantar-te e ir embora, aqui o “público” parece estar amarrado às cadeiras. Faz-nos pensar naquela frase de “estar à beira do abismo e dar um passo em frente”- todos os dias são assim no nosso jardim à beira mar plantado.

3- São cada vez mais os elogios feitos ao rap português. Todavia, o que é que lhe falta para que vingue em pleno na música nacional?

MDG- Não sei bem o que é o “vingar em pleno na música nacional”. Acredito que o rap português avançou muito a todos os níveis desde o nosso começo até agora. Mas não nos podemos alhear do facto de que o mercado musical caiu muito nos últimos anos e ao rap português quase não foi deixado espaço para além da “barreira do download ilegal”. Hoje em dia, quem vinga (vou considerar o “vingar” como um sinónimo de popularidade e vendas) na música são quase exclusivamente os produtos feitos para grande consumo, a versão musical do fast-food - e nesse sentido, talvez até seja positivo o não vingarmos, é quase um sinónimo de qualidade esse “selo” do não vingar.

4- Sonhar é um dos pressupostos da arte. Que sonhos tem Mind da Gap?

MDG- Boa pergunta… Acho que podemos resumir os sonhos todos a um estado de espírito global muito diferente daquele que temos hoje em dia. Se o mundo fosse um “sítio” completamente diferente, os sonhos de todos eram possíveis de concretizar. Um mundo menos “cerebral”, menos centrado no capital e no lucro, com menos ganância, menos corrupção, menos injustiças, menos preconceitos. Uma frequência mais espiritual, mais livre (realmente livre), com mais espaço para a realização individual de todos, com mais verdade, honra, respeito - este seria um mundo onde os sonhos de todos podiam ser realizados. Mas este não é o mundo que temos, não é o mundo para o qual nos condicionam, não é o mundo para o qual estamos preparados.

5- Espalham por todo o álbum um celestial amor pela cultura Hip Hop. Ainda se lembram quando e como se apaixonaram pelo movimento, quando aconteceu aquele clique?

MDG- Como se fosse hoje. Coincidentemente, ou não (depende daquilo em que cada um acreditar) tivemos experiências bastante semelhantes e fomos “apresentados” à cultura na mesma altura e, como hoje se percebe, bateu-nos de forma igualmente avassaladora. Tivemos os 3 o contacto inicial com as primeiras batidas na altura do breakdance, mas só mais tarde percebemos os 3 que este ia ser o nosso caminho. Os Public Enemy com “It takes a nation of millions to hold us back” (1988) e os De La Soul com o seu primeiro álbum “3 feet high and rising” (1989) foram os responsáveis pelo clique, sem dúvida, para os 3. Esses álbuns amarraram-nos a isto para sempre.

6- “Não Pára” é uma das faixas mais fortes do disco. Encontram explicação para se dizer tão insistentemente que o Hip Hop está morto?

MDG- Suspeitamos que sim… A verdade é que morto, morto, não está “somos a prova disso, vivos”. Mas que está longe de ser aquilo que já foi e que possivelmente poderia ser, está. E percebemos que alguém possa dizer que o hip hop está morto para provocar uma reacção em quem faz e em quem ouve rap e vive o hip hop. Hoje em dia tornou-se muito fácil fazer música - mais ainda (supostamente) se for Rap - e principalmente na América, o rap é uma saída profissional como outra qualquer, um bilhete de saída do gueto e/ou do negócio do tráfico ou outras actividades ilícitas. Por isso mesmo, o meio hip hop está inundado de música de fraca qualidade, baixo teor de conteúdo e praticada por pessoas sem o mínimo talento, interesse, cultura ou conhecimento, cujo único objectivo é ganhar muito dinheiro para poderem dar azo às suas ânsias e vaidades. Não queremos com isto dizer que o hip hop deva ser reservado para uma elite de bom gosto musical (e interesse, cultura e conhecimento, etc). O hip hop quer-se pluricultural, multirracial, universal. Mas pode ser tudo isto com bom gosto, com interesse, com um sentido de existência menos fútil, menos oco, menos plástico, menos formulaico. E não tem sido - e talvez seja por isso que haja quem afirma que o hip hop está morto.

7- Como é que Mind da Gap vê a relação Internet / Hip Hop português?

MDG- Mal e bem. Bem pelo lado do público, porque sabemos que nem toda a gente tem possibilidade de comprar CDs ao preço que a indústria e o Estado insistem em vendê-los e a internet é o meio que essas pessoas têm de ter acesso à música que querem ouvir. Mal, porque sabemos que a maior parte das pessoas (jovens) não tem a mínima consciência do mal que pode estar a causar a um artista (ou grupo) ao descarregar o seu CD. Há despesas envolvidas no processo de lançamento de um CD - antes e depois de ele sair para a rua - e elas têm de ser pagas, as editoras não são instituições de caridade ou beneficiência e para quem faz edições de autor é ainda mais grave porque essas despesas saem do “bolso” de quem resolveu apostar em si mesmo. Mas para nós, os reais responsáveis desta situação, são os únicos de que nunca ninguém fala - isto é muito mais do que uma relação músico/público - as empresas que fornecem acesso à internet, lucram bastante com os downloads ilegais - que os próprios encorajam e publicitam - e ninguém tem coragem para os obrigar a pagar uma taxa que seja distribuída pelos autores que são pilhados de forma aberta e com conhecimento e conivência dessas empresas.

8- “Injecto misticismo na visão da cidade”, refere Ace. Sendo Mind da Gap um grupo embaixador da cidade do Porto e orgulhoso das suas raízes, como vêem estes anos de governação de Rui Rio?

MDG- Em termos culturais, que é a parte à qual estamos mais atentos, esta presidência de câmara tem sido muito fraca. Numa cidade com um Rio D’ouro, temos uma governação por um Rio muito pobre.

9- A fechar, em Portugal, o que vos inspira para fazer arte?

MDG- Em primeiro lugar, a nossa sincera vontade de o fazer. Depois, em Portugal, assim como no resto do mundo, não falta inspiração. Positiva e infelizmente, menos positiva. De certa forma, tudo pode ser inspiração, tudo o que nos rodeia. Talvez essa inspiração não nos apareça, na maior parte das vezes, de forma absolutamente consciente, de maneira a conseguirmos materializá-la de imediato. Mas há coisas que ficam gravadas algures nos nossos cérebros e na altura de criar, quando são necessárias, saem em forma de letras e/ou instrumentais.

Por: Druco e Sempei
Fotos: André Tentúgal
O HIPHOPulsação agradece a Mind da Gap e à editora Meifumado por terem tornado possível esta entrevista.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Entrevista a Monstro Robot no H2T

Encontra-se no H2T uma entrevista feita pela Daniela Ribeiro a Monstro Robot. A minha participação na entrevista foi meramente residual pois contribuí apenas com algumas questões. Portanto, o mérito vai inteirinho para a Daniela Ribeiro. Recomendo vivamente a leitura. Divertimento garantido através desta ligação:

http://www.h2tuga.net/entrevistas/085_monstrorobot.php

domingo, 6 de setembro de 2009

Entrevista a Fisko (Poesia Invicta)

A mixtape Poesia Invicta é um trabalho saído há pouco tempo para download gratuito. A mixtape destina-se a celebrar o primeiro aniversário dum espaço - também ele designado Poesia Invicta - que apoia e divulga rappers da região Norte de Portugal. Fisko é o grande mentor desta iniciativa, que merece a nossa vénia. É hora de abrirmos as cortinas e colocarmos no palco, sob as luzes, quem está nos bastidores. Fisko tem a palavra.

1- Fisko, já sabemos que a Poesia é Invicta. Mas conterá ela também partículas de ser Antiga, mui Nobre e sempre Leal? (risos )

Boas. Antes de mais queria agradecer o convite por esta entrevista, é sempre gratificante sentirmos que o nosso trabalho é bem visto, sendo o valor do mesmo reconhecido. Sobre a questão colocada, focando-me principalmente no tema “Poesia” e não unicamente em “Música”, isto hoje em dia é “como o povo entender”. (risos) “Antiga”, sim. Sempre foi uma das mais antigas e importantes formas literárias, desde Adolfo Casais Monteiro (1908), por exemplo, que para mim sempre foi uma via mais directa à poesia “Invicta”. “Mui Nobre” já parte da percepção da própria pessoa. Por exemplo, posso muito bem escrever uns versos, divulgá-los e obter feedback negativo, mas sabendo desde sempre que são “frases” sentidas, que mexem com o lado emocional pessoal, derivado a alguma coisa que se tenha sucedido. Sempre achei que um poeta para ser verdadeiramente “Poeta” não precisa unicamente de escrever umas frases “Potentes” como diz o Fuse - (risos) - mas sim compreender a força das palavras. “Sempre Leal”, sim. Se algum dos poetas que conheço (falando agora de Música, “Poesia audível”) me dissesse hoje que não escrevia mais ou que ia abandonar a “farda”, não me acreditava e era capaz de brincar com a situação. Penso que a Poesia é um “bichinho” que se vai apoderando do nosso dia-a-dia. A gente pega-lhe e não lhe quer largar mais. (risos)

2- Quando e como surgiu a ideia do projecto Poesia Invicta?

É um bocado difícil descobrir quando nasceu ou como nasceu o projecto. Sempre gostei de Música. Seja um Rock, House, até Jazz ou um Fadinho, mas a música Hip-Hop sempre me deliciou o ouvido. Partiu daí principalmente. O “gostar” demais do estilo musical. Depois veio a parte percepcional. Lembro-me de ouvir música Hip-Hop quando era pequeno e da continuidade com que ouvia falar mal de Editoras Musicais, que “comiam” muito mas que faziam pouco por uma carreira musical de um certo Músico. Penso que foi nessa parte da minha vida que me mentalizei que alguém podia dar um “empurrão” e apoiar o crescimento Musical Português. Decidi então apoiar o Nortenho pois nunca me identifiquei com Hip-Hop sem ser o aqui criado. Sempre o achei mais “pensado” ou “sentido”.

3- És só tu o cérebro da Poesia Invicta ou existem mais pessoas envolvidas?

Neste momento estou só eu a conduzir o projecto. Tenho imensos amigos que me perguntavam: “Ei, não queres uma ajuda aí no projecto?”. Mas nunca houve uma ligação musicalmente/sentimentalmente identificável que desse para seguir o projecto como eu queria que fosse.

4- Em traços gerais, define os grandes propósitos desta iniciativa.

A verdadeira natureza deste projecto é mesmo o “dar o empurrão”, “diversão” e o estar bem pessoalmente. Sentir que estou a fazer bem a uma cultura que admiro imenso. Já conheci imensos músicos pelo projecto com quem criei uma grande amizade. O resto vem por acréscimo.

5- De que forma se manifesta o apoio da Poesia Invicta aos artistas?

Inicialmente começou num espaço virtual, num Myspace. Todos os meses colocava faixas ou sets de músicos e a sua Biografia (de onde é, como começou musicalmente, etc) e actualmente com projectos concluídos, como por exemplo a EP das Poker (primeira actualização como projecto e já pondo de parte as faixas e os sets), Logico, etc, e estou agora a finalizar o site oficial e tentar criar um “fundo” que garanta a colocação eterna do site online, mas ainda não tem data marcada.

6- É notório durante a mixtape o elogio dos próprios artistas à organização deste trabalho. Achas que fazem falta mais apoios como o facultado pela Poesia Invicta?

De apoios não tanto, até porque a mixtape foi toda organizada via mensagem pelo Myspace e seguidamente um contacto indirecto pelo e-mail, nunca necessitando de gastos para me deslocar e falar directamente com o artista. Penso que o grande “mal” de certos projectos reside na falta credibilidade sobre o organizador. A falta de conhecimento do próprio projecto também é visto como uma causa da falha de certos trabalhos.

7- A mixtape celebra o primeiro aniversário do projecto. Conta-nos um facto marcante que tenha acontecido neste tempo.

Como respondi numa pergunta anterior, o facto de nos sentirmos “vivos” ao saber que estamos a apoiar de certo modo uma cultura que admiramos, já é um grande ponto marcante. O resto, como disse, vem por acréscimo.

8- A Poesia Invicta terá um exclusivo, digamos assim, com o rap ou está disponível para apoiar artistas de outros géneros musicais?

Penso que só terá um exclusivo para o Rap. Não estou muito a par de outros géneros musicais e, se conduzisse um projecto assim para outros géneros, não era tão “feliz”. (risos)

9- Conheces bastante bem o rap nortenho, como analisas o seu estado?

O rap nortenho está a evoluir a olhos vistos. Lembro-me claramente de há um ano atrás, por exemplo, os Enigma não terem tanto nome como agora, ou de nunca ter visto tantos projectos a saírem ao mesmo tempo como neste ano. E tem de ser assim, manter o “bichinho” para que quando tivermos uns 70 anos, sentirmos que valeu a pena. (risos)

10- O que falta ao rap do Norte para que ele tenha mais expressão em todo o país?

Ouvintes. Acredito que cerca de 80% dos ouvintes do próprio Rap da Invicta sejam habitantes do Norte de Portugal. O Rap do Norte é imensamente diferente do resto do Rap em Portugal. O estilo, a forma como é envolvido, o próprio modo de criar Beats, a escrita acima de tudo. Somos uma cidade que ainda se esconde do resto porque há falta de vontade em mudar na preferência musical.

11- Achas que em Portugal há um tratamento privilegiado dado ao rap de Lisboa? Justifica-nos a tua resposta.

Sim. Penso que deriva do facto de Lisboa ser a Capital de Portugal. Mas estou confiante que se não fosse o terramoto de 1755, já não seria tanto assim. (risos)

12- Qual será, num futuro próximo, o grande desafio para a Poesia Invicta? Que iniciativas/projectos estão na calha?

Já há uns 4 meses que estou a pensar negociar uma grande festa com a Câmara do Porto. Mas prefiro não dar mais dicas e deixar para surpresa. Posso afirmar que se estiver ao meu alcance não custa nada.

Fotos gentilmente cedidas por Fisko, a quem agradecemos pela entrevista,
HIPHOPulsação.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Entrevista a Supremo G a.k.a. Jimmy P

Supremo G a.k.a. Jimmy P acedeu ao nosso pedido e deu-nos a possibilidade de lhe colocarmos algumas questões. Não se escapulindo a nenhuma pergunta, Jimmy revelou-se na entrevista tão hábil como a fazer rimas. Partilhou connosco alguns aspectos da sua vida, traçou objectivos e vincou que só editará um álbum a solo quando se sentir completamente apto. Da Margem Sul a França, passando pelo Porto e Angola, Jimmy P palmilha no rap lusófono um percurso que deseja que se torne marcante. Ao talento, junta-se a sinceridade.

1- A primeira pergunta é sempre a mais fácil que fazemos. Portanto, a fim de entendermos se somos bons ou maus na arte de persuadir, diz-nos: a partir do momento em que viste o nosso pedido, quanto tempo é que demoraste a aceitar a entrevista (risos)?

No vosso caso, respondi imediatamente. Às vezes demoro um pouco a responder porque não vou muitas vezes ao space. Por acaso, tiveram sorte!! Apanharam-me num bom dia (risos).

2- Nasceste na Margem Sul, estiveste uma década em França, antes do Porto te acolher e testemunhar os teus primeiros passos como MC. Qual destas zonas pode reclamar para si a maior quota-parte de importância na tua ligação com o Hip Hop?

Mas que bela pergunta!! Apesar de me sentir intimamente ligado a todas as regiões mencionadas, o tempo que vivi em França moldou definitivamente a minha maneira de estar e o meu estado de espírito relativamente ao Rap. No que diz respeito às minhas preferências de Rap, quase tudo que oiço é francês. Oiço muito pouco Rap Americano. Mas independentemente disso, sinto uma ligação muito forte à cidade do Porto. Amo esta cidade! Também tem um peso importante naquilo que faço. Quanto à Margem Sul, e especificamente o Barreiro, tem um cantinho especial cá dentro por motivos óbvios. Até à data presente só dei um concerto na Margem Sul e foi dos sítios onde fui melhor recebido.

3- Plantaste a semente da tua carreira no Hip Hop nacional com algumas participações em álbuns alheios mas grande parte da tua projecção deu-se com o projecto Crewcial. Todavia, nos últimos tempos não temos ouvido falar muito do grupo... E Afroclick, como está?

Infelizmente (ou felizmente), os meus parceiros foram viver para Angola. Considerando que a oferta de emprego para pessoas formadas cá em Portugal é escassa, tanto o Diggy como o P acabaram por ir para lá. Quanto aos restantes membros do colectivo Afroclick, a grande maioria acabou por ir também embora. No fundo, sempre foi esse o nosso desejo, acabarmos os nossos cursos e voltar à nossa terra. Como tal, fiquei eu por cá com mais alguns tropas e dei seguimento a um projecto que começamos juntos: “Ilegal Promo”.

4- Deves ter consciência de que quem aprecia a tua música há muito que anseia marcar no calendário o dia do lançamento do teu álbum a solo. Ainda teremos que tomar medicamentos para controlar a ansiedade durante muito tempo? O que podemos esperar desse registo discográfico?

(risos) Eu tenho consciência que há pessoas que estão à espera há algum tempo. Costumo receber mensagens a perguntar pelo álbum com alguma frequência. Já tive o meu álbum pronto e conforme tenho dito às pessoas, senti que ainda não estava na altura para lançar. Simplesmente porque o produto final não me agradava. Sabem, não tenho pressa nenhuma. Confesso que quero lançar um álbum, mas não pretendo que seja mais um álbum que fica a apanhar pó nas prateleiras das Fnacs e afins. Quero reunir as condições necessárias para que o meu trabalho tenha um impacto positivo no público mas, acima de tudo, quero que traga um contributo positivo ao panorama da musica lusófona. Não quero que seja "apenas" mais um álbum de Rap.

5- Há uns tempos, fomos presenteados com a “Ilegal Promo”. Que balanço fazes desta “promoção ilegal” do rap que, diga-se, disseminou-se por vários pontos de Portugal?

Honestamente, o feedback foi mesmo muito positivo. Eu não estava cá quando o trabalho ficou disponível para download. O que posso dizer é o seguinte: tendo em conta que não fizemos tudo que era possível em termos de promoção (fizemos apenas o básico), no final da segunda semana tínhamos cerca de 3.500 downloads. O pessoal passou a palavra e a cena naturalmente chegou aos ouvidos das pessoas. Quando voltei para Portugal, fui ao Algarve gravar uma cena com o Realpunch e fiquei surpreendido ao ver que em algumas zonas havia pessoas com sons da Mixtape a tocar nos telemóveis. Não esperava mesmo. Por outro lado, permitiu-me conhecer e relacionar-me com MC's cujo Rap apreciava e com quem mantenho o contacto até hoje. Acho que dentro do que era possível fazer, tendo em conta que tudo é feito às nossas custas, o balanço é extremamente positivo para todos.

6- Na tua opinião, que prós e contras vislumbras no lançamento de uma mixtape? Há actualmente, dadas as vicissitudes do mercado musical, mais vantagem em se lançar uma mixtape em detrimento de um álbum?

Bom, a meu ver, as mixtapes também são trabalhos discográficos, logo, devem ser encaradas com a mesma seriedade que se encara um álbum porque, bem ou mal, é o teu nome que vai estar associado a esse trabalho. Acredito que é uma maneira saudável de trabalhar, isto é, para os artistas se darem a conhecer. Contudo, conforme disse há pouco, tem de haver seriedade naquilo que se faz. Normalmente oiço quase tudo que se faz cá em Portugal em termos de Rap e tenho ouvido muitas mixtapes que denotam muito pouco cuidado, seriedade e profissionalismo. Quanto ao resto, parece-me que depende muito das expectativas de cada um. Vejo o álbum como algo muito pessoal, algo muito sério. Não acho que haja mais vantagens em lançar um ou outro trabalho pois acredito que álbuns e mixtapes servem propósitos diferentes.

7- Em virtude das tuas ligações a África, é natural que a música desse continente te inspire – particularmente a música angolana. Ultimamente, têm chegado aos ouvidos dos portugueses vários nomes de rappers dos países lusófonos. Sentes que esta injecção de rap da lusofonia é importante e suficiente aqui em Portugal ou deveriam todos os países lusófonos aprofundar mais esta irmandade?

Parece-me que esta "injecção", conforme lhe chamam, é extremamente salutar para todos nós. Nesta era global, não podemos viver fechados sobre nós próprios. Há que tirar proveito daquilo que os outros nos trazem de bom. Para mim, a música, e neste caso o Rap, é partilha, é o quebrar de fronteiras e acho que é isso que estamos a começar a fazer. Só temos a ganhar em ouvir artistas de outros países! Embora algumas pessoas (os ditos puritanos) queiram preservar o estado "puro" do Rap, sem os estrangeirismos, sem influências de fora. O panorama musical mostra precisamente o contrário: o Rap lusófono é extremamente heterogéneo, isto porque se alimenta de realidades, influências e vivências distintas. Devemos cultivar essa irmandade porque só temos a ganhar com isso.

8- Inseres-te numa geração de MC’s da Invicta que tem despertado um crescente optimismo e entusiasmo nos defensores do rap nacional e nortenho, em particular. Como vês, estando por dentro da comunidade, a evolução do rap no norte do país?

Pelo que tenho observado, aqui no Norte há muita gente com talento. Lembro-me que há uns anos era muito difícil alguém impor-se se não tivesse aquela sonoridade característica do Rap nortenho. Houve um tempo em que todos os MCs da New School tinham como referências os mesmos MCs e, em consequência disso, muitos acabavam por ter sonoridades parecidas. Hoje, o contexto mudou. Há MCs que apareceram com estilos muito próprios, formas de pensar e de abordar o Rap muito próprias e, consequentemente, trouxeram um Rap diferente daquilo que as pessoas estão habituadas a ouvir. Desta nova geração de MCs, destaco alguns artistas como Deau, Enigma, Caixa Toráxica, Capicua, M7, Jêpê, Bordaz, Contrabando 88 ...

9- “O Deau é, no momento, um dos melhores MC’s de Portugal”. Esta é uma afirmação tua. Privando e acompanhando o desenvolvimento de Deau, até onde poderá ele chegar no rap? (Era inevitável perguntarmos-te sobre Deau!)

(risos) Ele é, sem dúvida, dos MCs mais talentosos que eu ouvi até hoje. A meu ver, ele reúne todas as características que um MC deve ter: escreve muito bem, tem grande flow, tem musicalidade e sabe envolver o ouvinte com palavras. É importante realçar um facto: a maior parte dos MCs só consegue ter o impacto que ele teve depois de dar uma considerável parte do seu trabalho a conhecer. Ele apareceu com um som e deixou todos de boca aberta. Acho que só isso já denota que ele é um artista muito acima da média. Considerando que tenho vindo a acompanhar o trabalho dele, posso afirmar que o Deau vai ser uma das maiores referências do Rap Lusófono. Que ninguém duvide disso!

10- Para finalizarmos, o que é que te apetece destacar positiva e negativamente no Hip Hop português actual?

Positivo: a atitude empreendedora que muitos artistas, e não só, estão a ter em prol do crescimento do Hiphop. Tenho assistido à criação de Mixtapes, Labels independentes, fóruns, blogs... Tudo isto permite manter a chama acesa. Keep it up!!

Negativo: A falta de cultura que existe no seio do Rap. Muita gente resume o Hiphop ao Rap quando há tanto para descobrir. Portugal deve ser um dos únicos países onde as vertentes do Hiphop não agem de forma articulada, funcionam independentemente umas das outras.

Posto isto, quero mandar um grande props pela iniciativa!!! Continuem a fazer um bom trabalho. Um grande abraço.

Obrigado pela entrevista, Jimmy!

Por Sempei e Druco
Foto generosamente cedida pelo artista

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Entrevista a Sir Scratch (Incendiários Mixtape)

Já se encontra disponível para visualização a entrevista que fizemos a Sir Scratch para o H2T, referente à "Incendiários Mixtape":

http://www.h2tuga.net/entrevistas/082_sirscratch_incendiarios.php

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A Azul e Invicta Entrevista de Ace

Ace, membro de Mind da Gap, deu uma entrevista exclusiva ao Guardião da Invicta, blog dedicado ao FC Porto. Conhecida a sua paixão pelo FCP e pela Cidade do Porto, Ace aproveitou para aprofundar e divulgar ainda mais esse gosto. Para todos os que tiverem curiosidade em ler a dita entrevista, acedam lá através desta ligação:

http://guardiaodainvicta.blogspot.com/2009/04/entrevista-com-ace-dos-mind-da-gap.html