O nome pode soar a novo mas Capicua é um segredo que o Hip Hop português guarda há demasiado tempo. Concretamente desde meados da década de 90 no Porto, onde pintava na rua com os rapazes, invicta entre os primeiros writers e MC em potência. Senhora do seu nariz, eterna militante do inesperado, Capicua não é de fácil rotulagem. Apesar de estar longe do "retrato robot" típico de um rapper, é o Rap que faz o seu coração bater a 120 bpm's. E foi precisamente do seu lugar cativo fora da caixa que ganhou a aprovação da turma.
Na vida real, Ana cresceu numa família feliz, teve uma educação marxista, estudou sociologia, fez um doutoramento em Barcelona e a caminho dos 30 construiu a sua identidade algures entre a maria rapaz, a dona de casa que gosta de telenovelas e a tripeira de vontade férrea!
Depois de dois EP’s em colectivo, de uma mixtape a solo com beats de DJ Premier e de inúmeras colaborações em projectos de alguns dos mais conceituados Dj’s e Produtores nacionais, Capicua confirma o seu trajecto num álbum maior. De rima ágil e verbo pungente, a MC cresce sobre instrumentais de D-One, Ruas, Sam the Kid, Xeg ou Nelassassin, e enfrenta o momento, o movimento e a sua própria identidade com sensibilidade, bom humor e valentia. Terna e feroz, íntima e torrencial, Capicua rima como é, coisa rara e preciosa.
O álbum saiu pela Optimus Discos a 13 de Fevereiro de 2012. O single tem beat de Sam the Kid e o seu título, "Maria Capaz", corre o sério risco de tornar-se um epíteto.
Nos finais da década de 90 – considerada a época dourada do Hip Hop – surgia em Portugal a primeira versão das então denominadas “Nova Gaia Hip Hop Sessions”, muito graças à intervenção decisiva de Mundo Segundo (um dos grandes impulsionadores da cultura Hip Hop no nosso país). Ao longo de cerca de dez anos, o Hard Club foi um importante berço para inúmeros artistas, numa altura em que grande parte deles ainda gatinhava no rap. O espaço foi, com o passar do tempo, adquirindo o simbolismo de uma espécie de Meca do Hip Hop nacional situada a norte, numa época em que o Hip Hop português ia também ele ganhando notoriedade no panorama musical.
Porém, as festas que se tornaram míticas na promoção da cultura (até porque não só abrangiam o MC'ing, como também as restantes vertentes) teriam a sua última sessão em 2006. Desde aí, as “Nova Gaia Hip Hop Sessions” passaram a ter vida apenas na memória de todos aqueles que as testemunharam e que dificilmente esquecerão o fervor daquelas noites. O Hard Club, esse, por muito que aguardasse por novas edições, acabaria destruído (por razões que o tempo apagou) e abandonado, restando-lhe a bela paisagem do Rio Douro como consolo. Com o edifício não só se ruíram momentos históricos do Hip Hop português como também de outras faunas musicais, fruto do enorme ecletismo do espaço.
Na última sexta-feira, dia 22 de Outubro de 2010, o Hard Club voltou a abraçar uma "Hip Hop Session", não só refeito no nome das novas festas, como também na sua localização, que o dista das velhas instalações pouco mais de uma ponte. Gaia já faz parte do passado, tal como o Mercado Ferreira Borges, edifício histórico do Porto que mantinha as prácticas de animação cultural após o término do dito mercado e que continuará com os mesmos pretéritos agora como Hard Club. A mudança do espaço físico será mesmo a única alteração desejada, esperando-se que o HC marque as noites portuenses tal como marcou as de Gaia. Desejo esse que se estende, obviamente, ao Hip Hop, que até já teve a sua primeira grande festa há cerca de duas semanas, na memorável noite de sexta-feira, dia 8 de Outubro.
E que tal estrear o primeiro capítulo das "Hard Club Hip Hop Sessions" com velhos conhecidos dos antigos serões? Dito e feito. Body Rock Crew (DJ D-One, Deck'97 e Maze), M7, Barrako 27 (com DJ Guze), Sagas (com DJ Nel'Assassin) e Terrorismo Sónico (Mundo e Ex-Peão). Todos estes elementos conheceram de perto (uns mais que outros) o palco de Gaia, e todos eles esperariam, por certo, entrar com o pé direito na nova casa. Dito e feito, novamente. Na pista esteve ainda o colectivo de B-Boys Zoo Gang e, num palco exterior à sala, Mr.Dheo representou as cores do graffiti.
Com o despertar marcado para depois da meia-noite, a festa começou algo fria. Na tentativa de aquecer o ambiente, esteve o trio Body Rock Crew que, como vem sendo recorrente, foi chamado para agitar o início, os intervalos e o fim do espectáculo com as suas malhas carregadas do bom gosto que o caracteriza. Poucos eram os presentes no interior da sala 1 e já Mr.Dheo coloria no exterior três telas alinhadas para o efeito. Verdade seja dita: o primeiro impacto de quem entrava no edifício era da performance do writer de Gaia, no entanto, a mesma parecia simultaneamente algo distante da festa devido à localização do palco de actuação. Quem lá se dirigiu pôde atestar bem de perto um pouco da habilidade de um dos mais simbólicos writers de Portugal.
Com a sala principal ainda pouco povoada, os Body Rock Crew deixaram os pratos para DJ Nel'Assassin, que veio para acompanhar Sagas mas também para riscar discos a solo. Maze foi o host da noite, e foi ele a chamar M7 ao palco. Pode-se dizer que a actuação da MC foi mais do mesmo. E isso é mau? Não necessariamente. Com M7 esteve a companheira do costume (Capicua) e das colunas saíram os temas do costume, da mixtape do costume ("Martataca"). E porque é que a performance não foi aborrecida? Porque M7 não é aborrecida, tem tudo menos falta de força e genica, é capaz de atrair a atenção de uma sala inteira e revela boa escolha de instrumentais.
Foi com "Rainha" que se deu a primeira trinca nas palavras apimentadas de Marta Isabel a.k.a. M7. Se havia alguém na plateia que nunca tinha provado o sabor das suas rimas, por certo se alarmou num instante. Insurrecta como sempre, M7 não é mulher de falinhas mansas, bem pelo contrário, facto que pode agradar a gregos mas não a troianos. Já a colega Capicua é o oposto, o que acaba por servir como complemento. Mais cuidadosa naquilo que diz, Capicua também exibiu, por exemplo, a faixa "7 Dias", da sua mixtape "produzida" por DJ Premier. Numa actuação conjunta que teve os seus altos e baixos a nível de correspondência do público, M7 e Capicua contaram com DJ D-One nos pratos e acabaram em clima de festa ao som de "Ooh Wee" de Mark Ronson.
Intervalo no palco, início de show na pista. A plateia agita-se, forma num ápice uma roda onde os elementos do Zoo Gang se posicionam. Ao longo de largos minutos os B-Boys acariciaram o solo da forma menos ortodoxa possível, pois é daí que provém o espectáculo. Ao som de batidas que nos relegaram aos tempos primórdios do Hip Hop, a exibição de Zoo Gang foi um regalo nesta noite de cerimónia, embora a actuação não fosse visível a todos os presentes (só mesmo para quem cercou de perto a roda). Verdadeiro espírito de festa de Hip Hop! Seguiu-se Barrako 27, com Speg e seus tropas. À espera deles estava uma legião de adeptos que desde o primeiro minuto se fez ouvir na sala. Com uma entrada encenada com percussionistas e uma violinista, Barrako 27 partiu para um concerto emotivo e bem acolhido em grande parte da audiência, que, a esta altura, já ultrapassava a meia lotação (que ronda as 800 pessoas).
"De Cabeça Erguida" é um dos últimos trabalhos de Barrako, em parceria com DJ Guze, mas o alinhamento não se limitou ao EP, nem podia. "Abraço Forte" foi provavelmente a passagem mais sentida de todo o show, pois teve o condor de fazer Né descer do palco até junto dos seus seguidores e, rodeado dos mesmos, debitou as rimas dessa faixa incontornável do seu repertório. Nota para a interpretação do jovem Koffy Jr. (do colectivo trofense TRF) em "No Fundo (Do Túnel)" e para o êxtase e interacção constantes com o público em outras faixas como "Bla Bla Bla". Antes da retirada de Barrako 27, eis que dispara o som que todos aguardavam ouvir naquele preciso momento: "Saudoso Hard Club", pois claro. A plateia fez Né sentir-se verdadeiramente em casa, o que o deixou visivelmente feliz e emocionado e com o ego elevado. A prová-lo está a tirada a dada altura do concerto: "Depois de Dealema, eu fiz o melhor álbum português!".
De Carcavelos até à Invicta, Sagas veio trazer uma nova fragrância ao Hard Club, sem sotaque tripeiro mas com uma mistela de português e crioulo. Nada que fizesse confusão aos presentes. A sintonia entre o rapper e Nel'Assassin é evidente e reflecte-se na performance de ambos. Não foi um show só de Sagas mas também de DJ Assassino. Este último pôde dar a conhecer algumas malhas da mixtape "Mike Phelps" que, garantia do próprio, estará (finalmente) para sair em breve. Nela, o DJ e produtor irá revelar uma outra faceta: a de MC. Compelido por uma batida de Alchemist, Nel'Assassin rimou mesmo no Hard Club. O seu talento para as rimas pode ser imberbe mas nem isso o acanhou.
Sagas não trouxe alguns clássicos do seu primeiro álbum a solo, como "Anjo de Luz" ou "Quem És Tu?", mas também desvendou músicas novas. Uma delas, com base instrumental de DJ Ride, conta com um refrão que foi particularmente bem acolhido pelo público. Todo o concerto de Sagas foi pautado por uma animação constante, tendo o MC caído nas graças da plateia pela energia e boas vibrações disseminadas pelas suas canções. No rap de Sagas não mora a rima de teor sexual nem de estímulo à violência, reina antes a mensagem positiva e alegre. Mundo Segundo foi o convidado de honra de Sagas Demolidor para uma breve participação. Já o Sr. Alfaiate foi "obrigado" a participar numa batalha (aparentemente ensaiada) com o percussionista. Bom concerto de Sagas que atingiu um dos pontos altos com a malha "Som Pesado" (do álbum de Assassino "Reconstrução").
A última exibição da noite estava reservada para o duo Terrorismo Sónico. E Mundo e Ex-Peão conseguiram provocar o caos no Hard Club apesar do adiantado da hora e do previsível cansaço dos presentes. Cansaço? Puro engano! Os dois MC's dealemáticos gozam de uma popularidade e respeito na Invicta consolidados ao longo dos anos e, quer a solo, em duo ou em grupo como Dealema, contam sempre com uma fervorosa massa adepta na plateia. Esta tem as letras na ponta da língua e a empatia flui naturalmente. O primeiro álbum de Terrorismo Sónico, "1º Assalto", foi revisitado, mas também foi dado um cheirinho do seu sucessor, "Antes do Atentado". Os clássicos que marcam o repertório a solo de Mundo e Ex-Peão são sempre recebidos com grande impacto. "Pombas Brancas da Cidade" e "Real e Verdadeiro" de Ex-Peão ou "Puro Prazer" de Mundo, todas elas foram cantaloradas em uníssono. Especial foi o enlace de "Eles Andam Ao Cheiro" a meio do beat de "Bairro".
Por muito que se diga que o concerto foi inebriante, enérgico e empolgante, faltarão palavras para descrever a parte final do mesmo. Mundo e Ex-Peão tinham dado por terminado o alinhamento, mas a plateia não queria arredar pé do recinto, muito menos deixar de ouvir a dupla. Ora o desejo de um grupo de ferrenhos adeptos parecia só um: "Lei das Ruas". Desejo concedido, a música foi, não cantada, mas sim berrada a plenos pulmões: "Esta é a lei das ruas, filhos das p*tas!" Este ambiente escaldante deu azo a um endiabrado moche na frente do palco. E foi assim, em brasas, que terminaram as actuações. Daí em adiante a música voltou a rodar nos discos de Body Rock Crew.
Mais uma noite histórica no mês de Outubro que o Hard Club terá para contar mais tarde, isto precisamente quatro anos após o anúncio do encerramento do espaço de Gaia. As "Hip Hop Sessions" começaram oficialmente a agitar de novo a cidade do Porto e o Hip Hop nacional. Ao longo das próximas sessões é de aguardar o desfilar de novos e velhos talentos da nossa cultura, quer do MC'ing, DJ'ing, BBoy'ing ou do Graffiti. Zoo Gang e Mr.Dheo foram os primeiros representantes destas duas últimas vertentes. Body Rock Crew tomou conta dos pratos e dos momentos mortos da festa, que teve Maze como apresentador. Barrako 27 e Terrorismo Sónico foram os nomes mais aplaudidos da noite. Sagas teve uma actuação meritória e M7, apesar de não ter agarrado o público como os restantes, fez o que lhe competia. A sala 1 não esteve lotada mas contou com uma boa afluência. Ainda sem cartaz revelado, o próximo capítulo, diz-se, está para breve. As velhas festas no Hard Club estão mesmo para ficar.
Termanology estava confirmadíssimo, o que por si só constituía uma rica desculpa para uma ida ao Hard Club testemunhar algum do talento da nova escola americana. Mas o dia 8 de Outubro tem resguardado na algibeira outro artista do país progenitor do Hip Hop. Para regozijo de muitos aficionados (certamente), AZ acompanhará Termanology no voo transatlântico. Senhor de reviengas rimáticas de partir os rins e de parelhas marcantes com Nas, AZ arrastará com o seu repertório algum do perfume de Brooklyn.
Como o local das actuações é português - e estamos mesmo a falar de Portugal (parece inacreditável mas a dupla vai mesmo estar cá na mesma noite!), haverá tempo ainda para o Hip Hop nacional, em particular o rap tripeiro. Mundo (que dispensa qualquer tipo de apresentação) e o trio Mau Feitio (DJ D-One, Auge e Capicua) também figuram no cardápio da noite de 8 de Outubro. Depois não se queixem se o novo Hard Club vier já abaixo...
Numa noite sensacional, Supremo G, Capicua, M7, Deau, Mundo, Berna, Auge e ainda Body Rock Crew proporcionaram uma portentosa festa de Hip Hop, que teve um excelente ambiente no Pin Up, no Porto. A reportagem está visível no H2T. Recordem o que viveram, se estiveram presentes, arrependam-se (e muito!), se tiveram hipóteses de ir e não o fizeram:
A elevação de Gaia a “Capital da Cultura do Eixo Atlântico” foi coroada com a organização de um festival de dois dias completamente à borla. Entre a realização de algumas iniciativas culturais, destaca-se a mostra de sons luso-galegos no halo do Hip Hop. Nomes importantes do movimento ibérico juntam-se assim em Gaia, na Alameda do Senhor da Pedra, para estreitarem laços culturais insolúveis com o rap como pólo agregador. Neste primeiro dia do Eixo Rap, as nuvens no céu pareciam querer abençoar o festival. Dito e feito. As minúsculas lágrimas que os deuses brotaram sobre as nossas cabeças, num curtíssimo espaço de tempo, benzeram os presentes, e a acreditar na sabedoria popular, auguravam então uma noite especial.
Quando chegámos a Miramar, artistas espanhóis já actuavam no palco perante um reduzidíssimo número de espectadores. Seria o efeito chuva, seria ainda cedo? Aproveitámos para dar um giro pelas redondezas e contemplar da belíssima praia o imenso mar e a castiça morada do Senhor da Pedra (uma pequena capela construída em plena praia sobre os rochedos). Aproximava-se a hora de Syzygy actuar e acorremos para junto do palco expectantes sobre se o recinto já estava mais composto. Felizmente, as muitas pessoas que vagueavam pelos espaços de lazer próximos aglomeraram-se junto do palco e deram calor humano a M7, Capicua e D-One.
O concerto foi bom, com o repertório escolhido a recair em temas presentes nas mixtapes que as mc’s de serviço lançaram a título individual. A entrega de M7 e Capicua foi salutar e a intensidade foi diabólica! Autênticas diabas com o microfone na mão, espalharam a sua energia, atitude e boas rimas, sempre sem filtro. D-One naturalmente também contribuiu com a sua colaboração para enriquecer a actuação. Syzygy despediu-se dos presentes com um caloroso agradecimento e Capicua anunciou que seguiria para Lisboa. Boa viagem, rebenta com eles!
Seguiu-se El Puto Coke, com o seu DJ. Após a exibição de skillz do segundo, El Puto Coke entrou no palco a fim de conquistar Gaia. O começo não foi muito animador, pois não conseguiu cativar muito o público. A dificuldade em se entender a língua, mas também a linha mais morna e lenta dos beats talvez tenha contribuído para esse início. Porém, isso durou dois temas. El Puto Coke estabeleceu um diálogo com o público, interpretando dali em diante canções mais intensas, com mais garra e mais agressividade nos instrumentais e isso emocionou mais o público. À medida que o tempo passava mais pessoas El Puto Coke alcançava. Nos dois últimos temas seus, antes de chamar um seu convidado ao palco, El Puto já nos tinha deixado rendidos ao seu rap consciente, onde são evocados relatos e sensações da vida quotidiana com que todos se identificam. Depois do tal dueto com o amigo que trouxe da Galiza, que rima ainda mais depressa dificultando a percepção, despediram-se do público português com um enorme agradecimento e aliciando os espectadores a chamarem o grupo por que todos ansiavam: DLM.
Um pequeno interlúdio para organização do material logístico era tudo o que separava o público de ver Dealema. Todas as brechas que existiam nos lugares da frente foram prontamente preenchidas por aqueles que estavam mais atrás. Nessa altura, o recinto era já um mar de gente. A maré estava a encher em direcção ao palco. Às pessoas não lhes bastava serem o tal mar de gente pois estavam era sedentas por ver os seus ídolos. Aos primeiros indícios de Dealema se apresentar ao serviço, as gentes agitaram-se, entraram numa convulsão de emoções e a loucura foi de tal ordem que parecia que de repente tínhamos sido teletransportados para uma outra dimensão. Ou, no mínimo, para um festival à parte. Assim foi, efectivamente. Dealema a jogar em casa nem sequer precisava de pedir para as pessoas se manifestarem, elas faziam ruído naturalmente. Foi algo único, extraordinário mesmo. Os momentos foram de cumplicidade total entre público e DJ Guze, Mundo, Ex-Peão, Fuse e Maze! Não será atrevimento nem andará longe da verdade dizer-se que é ímpar no Hip Hop português a corrente de entusiasmo que une o público a um artista ou grupo, neste caso o Pentágono. Os elos de identificação criaram uma sinergia maravilhosa e perfeita que catapultou o espectáculo para níveis galácticos!
O Colectivo Dealemático é um verdadeiro embaixador cultural da região. A sua influência na juventude é impressionante e a sua mensagem é extraordinária também pela eficácia com que capta a atenção dessa camada da nossa sociedade. Não se deve estranhar portanto que dessa empatia se atinga a idolatração por parte dos seguidores do grupo. Dealema foi desfilando os seus hinos e o povo foi acompanhando em uníssono e rejubilando. A satisfação do colectivo era indisfarçável por ver tantas pessoas a celebrarem a sua música e prestando-lhes tributo com a sua presença e participação no concerto. Maze tirava fotos ao público, Mundo logo no início filmara-o. O delírio aconteceu quando Wöyza foi chamada ao palco para interpretar “Segunda Vinda (A Profecia)” – suposto último tema do concerto. Os níveis de ruído atmosférico atingiam o píncaro e ganhavam com certeza em altura no duelo com os vapores da planta mágica. Foi um momento arrepiante a que se assistiu em Gaia, com os músicos e fãs num perfeito e envolvente abraço. Depois, as luzes apagavam-se, os artistas disseram adeus e abandonaram o palco mas o público não se fiou na cantiga. Sabíamos todos que eles iam voltar porque o clássico “Portugal Surreal” não tinha sido ainda tocado e exigia-se que o tema ecoasse alto pois está mais actual que nunca.
Dealema voltou ao palco, o barulho foi ensurdecedor e os mc’s apelavam que para neste último tema ensaiássemos uma coreografia a preceito. Vai daí tudo se preparou para fazer uma enorme chifrada ao ex-ministro da Economia Manuel Pinho e aproveitando a deixa dedicou-se ainda aquele gesto primoroso ao Ministério da Cultura que tem tido uma prestação execrável nos últimos anos, num desempenho transversal em todas as administrações que têm governado Portugal. O êxtase tomou conta de Miramar. Emocionados e convocando todos para estarem presentes no dia de hoje nas actuações que serão feitas, Dealema despediu-se com a certeza de que toda a sua carreira e trabalho tem compensado. O amor que receberam na actuação foi indescritível. Só quem sente entende! Não se esqueçam, hoje há mais!
Sagas passeou-se lindamente em cima do instrumental e abrilhantou sem margem para dúvidas esta mixtape. Ora rappando ora canto, quer em crioulo quer em português, Sagas mostrou a sua valia, transmitindo a maturidade e a qualidade que atingiu no seio do Hip Hop lusitano.
Logo no início, Blasph revela que a sua participação será bombástica, pelo facto de referir Médio Oriente. Só isso é meio caminho andado para se pulsar os tremores que bombas provocam e sentir-se o cheiro a queimado. Mas Blasph não faz só isso. Ou seja, construiu habilmente uma história, metendo-se na pele de um bombista. Blasph faz o relato dos momentos que antecedem a sua auto-explosão. Se o assunto da mixtape é o elogio da destruição, Blasph instituiu-se da arte e do engenho para fazer um tema que aborda a realidade dos bombistas-suicidas. É cheio de coragem, de fé, de força, que Blasph tal como qualquer bombista se entrega à sua causa, no seu caso a de rimar. E Blasph honra plenamente a sua missão, construindo seguramente algumas das melhores rimas desta mixtape.
Pródigo, tal como Blasph, artilhou-se completamente para triunfar na missão. Assumiu-se como soldado e disposto a pôr quem quer que seja “a mijar morfina”, Pródigo não tem problemas em referir que a guerra é uma paragem da racionalidade. Mais, faz questão de focar o drama das pessoas inocentes, com especial incidência no caso das crianças. Ora vítimas ora contadoras do tempo que falta para se tornarem a ignição da destruição alheia. Pródigo inteligentemente reforça a banalização da guerra, da violência, da martirização. Já se sucedem acontecimentos que não chocam porque são frequentes. O repúdio e a contestação relativamente a determinadas situações são menorizados. Já ninguém liga, ninguém se importa. Interioriza-se que é normal e que nada pode ser feito. Pródigo mete o dedo na ferida: a resolução dos conflitos faz-se pela lei da bomba. Deliciosa a visão de Pródigo que concebe que se o Diabo veste Prada, nesta moda belicista e de malfeitoria, então os Anjos já inovaram no guarda-roupa e têm seguramente os seus trapinhos a condizer com C-4. Pródigo relata uma página de tantas outras que apelida de “macabras”. E se a chuva não apaga o lume do ódio, então muitas outras regiões navegarão no “vale de lágrimas” que Pródigo vislumbra em Israel e no Líbano. Se só Blasph e Pródigo tivessem participado nesta canção ela seria automaticamente considerada a melhor de todas as que integram a mixtape. Scratch queimou-os.
Capicua foi talvez a grande surpresa desta mixtape. Num elenco onde figuram tantos nomes de proa, poucos esperariam que Capicua conseguisse alastrar muito a sua chama. Nada mais enganador! Capicua conseguiu fazer um dos melhores temas, fruto de uma grande entrega e energia no mic. A fluência e a boa-disposição que perpassa para os nossos ouvidos foram garantes importantes para nos prenderem às rimas de Capicua. A “estrófe-molotov” caiu que nem ginjas. Num ambiente de certo modo pesado e hostil, Capicua apresentou-se divertida e com isso conseguiu certamente atrair todos aqueles que ouviram a canção. Capicua veio para esta mixtape, parece-me, como alguns daqueles manifestantes vão contestar as cimeiras do G-8 ou G-20. Participou fundamentalmente para se divertir e mandar a sua “estrófe-molotov”, importando-se pouco com a causa da iniciativa. Parece-me que gozou à brava. A todos os pirómanos que não conseguem produzir os “beat-dinamite” resta-lhes a anuência e o envio dos seus ficheiros para a reciclagem, adverte Capicua. E ela se não fez a linha mais abusada (no bom sentido) da mixtape parem imediatamente de ler o que escrevo: “Já não compito o meu sonho(*) fintou o Deco”. Fantástico! A pronúncia de Capicua vinca-lhe ainda mais as suas qualidades e diferencia-a. Dá-nos “lição de pirotécnica”, sem ter que necessariamente foguear alguém em particular e sem ter que se socorrer do insulto fácil e de palavras broncas. A cena de Capicua é tão quente que em pouco tempo se percebe que é uma questão de segundos para que o alarme de incêndio ecoe na sua métrica. Deixa arder, Capi!
Se queriam que se botasse fogo, então teriam de chamar Eva. Ela não rappa, cospe lume, qual boca de dragão. Eva no final da gravação deste tema deixou por certo o microfone em brasas, assim como as orelhas de alguns ferveram! Eva mais uma vez rimou em frente ao espelho, demonstrando toda a sua apetência para a exaltação do ego e para a batalha vocabular. Sim, mais uma vez, faz-se uma viagem ao pensamento de Eva, com as mesmas doses de dureza e crueza verbal. Eva admite que está no passeio dos ilustres do rap português por já ter perpetrado ataques vocabulares mais violentos que uma qualquer chaimite de guerra. Com uma agressividade sem limites, dizima quaisquer rimadores que se lhe atravessem no caminho. Sem rival à altura nesta batalha de estilos, Eva dá-se ao luxo de sugerir a colocação de uma pausa no rap para que a consigam alcançar. E isso de “pombas na garganta” é apenas um bluff de Eva, pois o arsenal dela parece ser interminável. Eva acredita já ser um peso-pesado no Hip Hop nacional, por isso aconselha veementemente Dama Bete a encorpar as suas rimas. E se havia dúvidas, Eva esclarece: “venho só e forte para queimar os rappers da tuga”. Incendiários? Pois. Sem papas na língua, “mais quente que o fogo” e para isso nem precisa de pôr um pé na rua! Qualquer contacto com Eva é favor carregar no “rec” e dizer o que lhe vai na alma. Ela certamente responderá cuspindo lume. Ou não fosse ela Eva, a dracena de Benfica.
Conclusão:
A “Incendiários Mixtape” não trouxe a qualidade que se esperaria dado o elenco que se apresentava. Esteve longe do patamar de valia sentida noutros álbuns de rap português. A este défice, juntou-se ainda o móbil do trabalho. O formato mixtape leva sempre a que alguns mc’s ensaiem novas abordagens e apresentem uma menor exigência relativamente ao produto final. Ainda assim, houve gente que se empenhou e fez grandes rimas. Porém, em virtude da presença de alguns rappers importantes da nossa praça, aguardava-se um álbum bem mais sólido, ambicioso e fundamentalmente bem mais adulto.
(*) Onde está "sonho" deveria estar, na verdade, swing.
"Staff Completo" de Syzygy é o tema eleito para single da compilação «Best Off». Divirtam-se tanto a ver este vídeo quanto os protagonistas se divertiram a fazê-lo!