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domingo, 17 de abril de 2011

Fuck ANHH!


Numa altura em que se passaram poucos dias desde a primeira (e histórica) vinda ao Porto de Grandmaster Flash (ele que é tido como sendo o detentor da invenção práctica [e não teórica] do "scratch"), a denominada Associação Nacional de Hip Hop tem sido assunto proeminente no seio de todos os hiphoppers (como não poderia deixar de ser, a net é a grande aliada dos tempos que correm).

Por momentos, o nome desta dita Associação poderia induzir-nos a uma qualquer iniciativa (com uma designação um pouco presunçosa, é certo) com o intuito de fortalecer e estimular o Hip Hop Nacional, salvaguardando a livre criação e expressão artística de todo e qualquer interveniente/adepto/amante da cultura. Mas não. Pese embora os vários erros de ortografia e sintaxe, o já famigerado site da mesma ANHH é muito claro quanto aos propósitos do(s) seu(s) interveniente(s): chular toda uma cultura com mais de 30 anos de história. Chular até no ínfimo acto de querer sancionar, por exemplo, qualquer festa de Hip Hop que se denomine festa de... Hip Hop! A menos que essa esteja legalizada/certificada por esta ANHH.

Permitam-me lançar a minha dúvida: e blogs com HIP HOP inscrito no nome estarão também eles sujeitos a coimas? Se sim, então nós aqui também estaremos nomeados na categoria blogosfera. Agora mais a sério... À gargalhada de gozo que um primeiro impacto causa segue-se a estupefacção: e não é que esta Associação parece mesmo ter conseguido poder legal para o fazer?! Mais dia menos dia se esclarecerá essa legalidade, mas estranho também o facto do endereço desta ANHH já ter mesmo surgido, segundo consta, em cartazes de festas.

No meio de tudo isto, e acreditando que esta pseudo-reguladora da "modalidade Hip Hop em Portugal" (esta está boa!) não passará disso mesmo, é de condenar desde logo este gesto ofensivo, do mais vil e merdoso por parte de um qualquer indivíduo (sabe-se que dá pelo nome de Rui Oliveira) perante toda uma comunidade que faz por viver diariamente a cultura de forma anárquica e livre. Posto isto, e visto que o writter Mr.Dheo e o grupo de rap aveirense NAD terão sido as primeiras "vítimas", resta-nos apelar à união e manifestação (seja onde for) por parte de todos aqueles que se sentem indignados com tamanha desfaçatez (para usar um termo leve).

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Hora de Mudança

(Este texto deveria ter saído aqui no dia 28 de Janeiro mas não sei o que se passou.)

Pois é, Cavaco Silva ganhou as eleições presidenciais à primeira volta e sucede a... Cavaco Silva! Anda toda uma juventude a perguntar-se como foi possível Cavaco ganhar de novo e andar há tantos anos na política depois do que tem feito...

A política no rap português nunca foi um dos temas dominantes. Com excepção de alguns excelentes exemplos (não vale a pena nomear pois todos sabem quem são) que tomam partido ou não se envergonham de manifestar as suas simpatias e influências políticas, são muito poucos os que abordam esta problemática. O que é uma pena, principalmente quando vemos na América – a nossa maior influência no rap, não é? – tantos rappers e grupos assumidamente empenhados em trazer à liça as suas preocupações e denúncias.

Eu penso que o aspecto essencial do rap português estar afastado das causas da coisa pública (Res Publica) se deve a questões de natureza cultural e mais particularmente a factores de maturidade. Apesar do tempo que levamos em democracia, apesar dos anos em que o rap vigora em Portugal, nunca fomos muito de ligar à política, o que revela a tal imaturidade porque o Homem é um ser político, desenvolve ideias, faz escolhas... A política é central nas nossas vidas, quer queiramos ou não, quer nos interesse ou não. Daí que eu considere importante que os rappers explorem ainda mais essa faceta, ainda para mais no contexto de crise social em que vivemos presentemente no país.

Tal como na canção de Bob da Rage Sense “Hora de Mudança”, que dá título a este texto, julgo ser da mais elementar importância que nos sintonizemos colectivamente para mudar o estado de coisas, independentemente das diferenças que possamos todos ter. Portugal não vai bem e sendo o Hip Hop, neste país, um movimento predominantemente feito por jovens, ou seja, serão eles o futuro desta nação, é bom que tratemos das diligências necessárias o quanto antes para em conjunto mudarmos para melhor. Esta é a minha última participação no WCW, com a rubrica “Beef is Dead”. O nome desta rubrica não poderia vir mais a propósito: acabem com as zangas dentro deste movimento e zanguem-se a sério com aqueles que realmente lixam a vossa vida! (Obrigado Mário pela oportunidade, muita sorte e felicidades com o teu projecto!).

terça-feira, 23 de março de 2010

Os Estúpidos do Costume

Não vou fazer grande alarido com o artigo de Alberto Gonçalves «O ‘hip hop’ também mata», publicado no Diário de Notícias. Dissecá-lo, para além duma perda de tempo, seria dar demasiada importância a uma personagem pseudo-intelectual de que nunca ouvi falar.

Quando muita gente que se julga um portento de sapiência, pensando que pode escrever ou falar sobre tudo e mais alguma, se põe a tratar o tema Hip Hop claro que mete sempre os pés pelas mãos. Mas isso já todos nós estamos fartos de saber! É típico. Porquê andar a dar relevo a essa gente? É apenas mais um! Outros estarão, neste momento, a pôr-se na fila para verbalizar uma catrefada de disparates. Este não foi o primeiro nem há-de ser o último a espalhar-se quando a matéria é Hip Hop.

Mas será útil andar a azucrinar o homem por ter uma opinião, ainda que distorcida da realidade? Valerá a pena andar a gastar tempo a contar ao senhor a história do Hip Hop da frente para trás e de trás para a frente? Adiantará alguma coisa, fa-lo-á mudar a sua perspectiva? Eu julgo que não. Se ele fez tão errada e insultuosa observação ao Hip Hop é porque simplesmente não lhe interessou investigar o que é esta cultura nem terá ele qualquer interesse no Hip Hop. É deixar Alberto Gonçalves viver na sua feliz ignorância, pensando que é um doutor em tudo e mais alguma coisa e também no que se refere ao Hip Hop.

Ele questionou sobre quem no seu perfeito juízo daria emprego ao 50 Cent. O maior mérito que eu dou a Fifty Cent é a escolha dos produtores que o acompanham e a inteligência com que constrói refrões. Todavia, eu também posso questionar, a partir deste artigo de Alberto Gonçalves, quem – perante isso – pode dar emprego a um senhor que refere tantas obscenidades e desconhecimentos - se calhar por menos Mário Crespo foi impedido de publicar a sua crónica. Mas não vale a pena. Vivemos em Portugal. Gente do calibre de Alberto Gonçalves precisa de trabalhar em sítios prestigiantes e as cunhas têm de ser exercidas. Era de espantar se o senhor estivesse onde está em virtude duma cunha? Claro que não. Então se o próprio diz que ninguém daria emprego a 50 Cent... Será que lhe aconteceu o mesmo e ele lá se fez valer das cunhas? Vá lá que não se lembrou dos exemplos de Will Smith, LL Cool J, Queen Latifah, Mos Def, Krs-One, Defari, Ice-T, Ice Cube – coitados – pobres desempregados se não tivessem mais o que fazer senão rap.

Deixem o senhor no seu pedestal, mesmo que vos doa o pescoço! Deixem-no estar contente com o que escreveu. Permitam-lhe que ele se sinta como um miúdo que brinca pela primeira vez com os legos e, conseguindo sobrepor uma peça a outra, já se sinta um arquitecto de primeira água. Por mim, ele pode dizer ou escrever o que quiser sobre o Hip Hop que eu dou-lhe importância zero! Não lhe reconheço qualquer capacidade ou legitimidade para abordar o tema. A responsabilidade de tamanha baboseira que representa aquele artigo é exclusivamente dele. A nós basta-nos rir do ridículo por que está ele a passar. Não é preciso, sublinho, contar-lhe tudo sobre o que é o Hip Hop... Ele já demonstrou que não lhe interessa minimamente. Caso contrário, teria tido a preocupação de pesquisar. Soltemos gargalhadas ao ler o seu texto, não enveredemos pelo ódio como o que ele exibiu na redacção do seu texto. Tratemo-lo com o desprezo e a sobranceira que merece.

Só para concluir: o Hip Hop mata? Ok, é a opinião do senhor. O que me quer parecer é que há gente, particularmente jornalistas, com vontade de matar mas não conseguem, o tiro sai-lhes sempre pela culatra! O que fica e que interessa é que não será qualquer formiga (sem desrespeito por esses animais) com tiques de iluminada e de suma sabedoria a beliscar o Hip Hop. Aliás, não sei qual será o defeito dos secos e infrutíferos tiros de Alberto Gonçalves e de outros jornalistas que atentam contra o Hip Hop: será que nunca foram verdadeiros jornalistas ou já estarão mortos para a profissão? Hum, nem sei o que pense que se aplica a este caso. Talvez seja melhor eu retirar as minhas ilações sobre esta dúvida quando tiver mais tempo para gastar com gentalha da estirpe de Alberto Gonçalves, pode ser? Digam o que disserem, o Hip Hop não morrerá em Portugal nem em qualquer outra parte do mundo, meus caros. A inteligência essa é que está a ficar em vias de extinção em algumas redacções de jornais! Ooops, o que um gajo do Hip Hop escreveu! Que burro, que ridículo, pá!...

sábado, 20 de março de 2010

Snake e as verdadeiras cobras

A comunidade Hip Hop portuguesa está de luto e consternada, depois do choque que foi a notícia da morte do rapper Snake. Vítima dum disparo fatal dum polícia, o rapper de Chelas deixou este mundo com apenas 30 anos e com tanto ainda por fazer no rap português. O seu erro foi desrespeitar a ordem de paragem das autoridades policiais. Todavia, ninguém merece morrer por não parar numa operação stop. Houve um gravíssimo abuso de autoridade por parte da polícia que, naquelas circunstâncias, ou seja, numa perseguição, nunca poderia disparar sobre alguém sem saber se a pessoa em causa era portadora de arma de fogo. O pior, no meio destes dois erros, é que foi o lado mais fraco a perder a vida. A corda rebenta sempre nas mãos dos mais desprotegidos. Esperemos, em todo este drama, que o agente envolvido neste triste acontecimento jamais possua uma arma no seu coldre e nunca mas nunca mais tenha uma arma nas suas mãos, enquanto agente da Polícia de Segurança Pública. Segurança Pública... Pois...

Quem já lidou com a polícia sabe muito bem do ninho de cobras que ali se esconde. Percebe que há muita fruta podre, num núcleo que tem obrigação de dar ou ser um exemplo para a sociedade. Há gente boa na polícia, com ética, bem formada, com sentido de responsabilidade e com consciência cívica, preocupada em zelar pelos interesses dos cidadãos. O pior são as víboras que espetam o ferrão e destilam o veneno na social circulação sanguínea, denegrindo a instituição Polícia e gerando uma desconfiança – uma ferida de morte – na opinião pública.

Quantos são os agentes policiais condenados pelos crimes que cometeram? Quantos casos destes são ventilados na comunicação social? A protecção mútua, o encobrimento, a cumplicidade, entre polícias é real e só quem viver no mundo da lua ou da Carochinha é que não vislumbra esta evidência. Aguardemos o que acontecerá com este agente que tirou a vida a Snake. Mas que ninguém se espante se este processo de investigação e apuramento da verdade durar largo tempo. Que ninguém se admire ainda se o caso for abafado. Ontem li no «Jornal de Notícias» a coluna habitual do escritor e jornalista Manuel António Pina. Escrevia este que é espantoso como em Portugal desaparecem documentos que poderiam servir de prova a muitos crimes em causa. O escritor progride no seu pensamento constatando como a “indecência” galga terreno no nosso país. Concluindo o seu artigo, levanta um curioso exercício: se fossem encontrados todos estes tais documentos que desaparecem sem deixar rasto e deixam impunes tantos colarinhos brancos e afins, talvez esses papéis dissessem mais sobre a nossa identidade e sobre o nosso país do que aquele amontoado de manuscritos antigos que estão na Torre do Tombo. Ora nem mais! Lapidar!

“Se fosse branco e usasse gravata, teriam disparado?”. A pergunta retórica é de Sam The Kid e é inteiramente legítima e impunha-se fazê-la. Ainda vivemos numa sociedade portuguesa racista e preconceituosa, que julga as pessoas pela cor da pele e pela roupa que veste. Assim, o entendimento que se pode tirar daqui é que, por exemplo, José Sócrates só pode ser um santo porque é branco e veste-se bem, já que compra alguma da sua roupa numa das lojas mais caras do mundo, situada na Rodeo Drive, em Beverly Hills, Estados Unidos da América. Ladrão? Nunca! Ainda seguindo essa linha de julgamentos “a priori”, Snake só podia ser um criminoso sem escrúpulos e sem remédio, que devia ter gravada na testa a inscrição “bandido”. Claro, ele preto, sem gravata, com street wear, num carro velho, só podia ser um desprezível ser humano que não merecia respeito, dignidade ou tolerância, nem viver neste mundo de gente fina e irreprensível. Valha-nos a ironia para lidarmos com a estupidez e com a barbárie.

O que mais me assusta e arrepia em tudo isto é pensar no país em que vivemos. Na sociedade que vive das aparências, do clima de hipocrisia, da justiça que não se cumpre quando entram em cena os ricos e os poderosos, na desconfiança das instituições judiciárias e policiais, na forma como se tira a vida a uma pessoa por “dá cá aquela palha”. Vivemos numa selva competitiva onde tudo acontece e serve para “mostrar serviço”, movidos a ódio e guiados por ambições desmedidas. Em tudo isto, lá se vai o humanismo e a consciência pelo cano abaixo. Como consequência, lá foi mais um Snake para debaixo da terra também. E mais uma criança que crescerá sem o pai. Muito triste!

Já dizia o Bónus: “os anos vão passando mas nada muda”. Temos de deitar mão a isto, juventude! Caso contrário, o monstro vai continuar a engolir-nos e a deitar-nos precocemente no caixão. Até sempre, Snake!

sábado, 13 de março de 2010

Deau

Faz hoje exactamente oito dias desde que eu e o Sempei assistimos no Pin Up, no Porto, a uma maravilhosa festa de Hip Hop. De entre os vários momentos memoráveis da noite, ficou-me gravado na memória a espectacularidade de Deau, tido como um dos rappers mais promissores da sua geração. A sua actuação pautou-se por uma entrega insana e por uma recepção não menos doida do público presente. É impressionante a colecção de fãs que Deau já tem entre os amantes de rap.

O aspecto mais relevante, todavia, da sua prestação prendeu-se com a absurda (elogio!) sessão de freestyle com que nos brindou! Absolutamente fenomenal o que se passou. Deau expeliu as suas rimas livres sabendo exactamente na hora o tema que deveria abordar. Tudo foi feito às escondidas do rapper portuense. Elementos do público subiram ao palco, escreveram palavras num quadro e no fim desse acto, Deau teve acesso ao que lhe esteve vedado e conseguiu entrecruzar todas as palavras numa construção hábil e credível. Só visto e ouvido! Complicando a tarefa, foi proposto a duas jovens que subissem ao palco e revelassem alguns pormenores sobre as suas vidas e interesses/gostos pessoais. Depois, foi pedido a Deau que recolhesse todos esses elementos e que exibisse toda a sua criatividade e imaginação na arte do improviso. O resultado foi brutal, estupendo! Com uma manha (novo elogio!) para captar todas as informações e estruturar uma história com cabeça, tronco e membros, Deau pôs toda a sala em delírio! Quem não se rendeu ao primeiro round de freestyle, certamente que naquela segunda ronda não teve hipótese de escamotear as evidências: Deau é provavelmente o melhor freestyler nacional! Ok, não conheço todos os improvisadores do rap português. Porém, a minha percepção sobre as capacidades de Deau leva-me a concluir que Deau é um prodígio naquilo que faz. E prodígios não há por aí ao virar de todas as esquinas.

Deau deitou por terra todo aquele conceito do freestyle que é decorado ou do freestyle que é constituído por dicas já trabalhadas em canções ou assim. Com Deau, tudo transpira espontaneidade e pureza, anexando a isso garra e energia. Ele envolve-se com o ambiente, trabalha os pormenores e o resto é loucura. Dele e do público! Fantástico!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Haiti = Katrina

Agora que a tragédia no Haiti tem paulatinamente saído da agenda mediática, tomo a liberdade de registar algumas palavras sobre o assunto. Cada vez que vejo (via) as imagens na TV com as pessoas a gladiarem-se por comida, a gritarem de desespero, a falarem que não recebiam ajuda, eu constantemente lembrava-me do drama vivido pelos moradores de Nova Orleães aquando da passagem devastadora do furacão Katrina pela região. Acredito na boa-vontade de todos aqueles que se dirigiram para o Haiti em missão de auxílio mas realmente nunca compreendi o porquê de se demorar uma semana (!) só na operação de logística no terreno, de se mandarem soldados atrás de soldados para o território (principalmente norte-americanos) e não entendia por que chegavam os jornalistas e os repórteres de imagens a determinados lugares e a ajuda não! Claro que no turbilhão de desgraças aconteceram alguns milagres que só foram possíveis com a preciosa intervenção das equipas de salvamento que para ali se deslocaram de vários países. Todavia, dava-me um aperto no coração sempre que via os rostos das pessoas e das crianças, muito particularmente, esganados de dor e de fome, deixados à sua sorte, entregues a eles mesmos, sem que a ajuda, que estava mesmo ali ao lado, conseguisse prestar-lhes auxílio antes que fosse tarde de mais. Entre Nova Orleães e o Haiti há uma ponte de semelhanças. Uma ponte possível de ser estabelecida pois os pilares que formam esse tabuleiro são infelizmente, em ambos os casos, gente pobre, gente ignorada e gente desprotegida. Gente assim, quer antes quer depois das catástrofes acontecerem. É triste.

Quem não se lembra das ácidas palavras de Kanye West contra Bush?



Legendary K.O. grupo de Houston sentiu-se inspirado pelas palavras de Kanye West e fez este tema em sinal de protesto contra o lento processo de ajuda da administração norte-americana presidida por Bush. A canção teve um impacto gigantesco e chamou à atenção para a gravidade da situação em Nova Orleães, sublinhando a inércia, desprezo e racismo de Bush.



Mos Def também se insurgiu contra a desgraça:

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Franco-atirador

Texto originalmente publicado na revista Freestyle nº 5:

Soam estridentes os alarmes que anunciam a crise dos letristas no rap português. Tiramos o enrolado mapa de Portugal da gaveta, abrimo-lo e procuramos sofregamente pelas zonas férteis em lyricists com arte e engenho suficientes para calar o banzé debitado pelos frenéticos aparelhos preventivos. Vamos ao Google, pesquisamos pelas palavras “excelência” e “génio” para retermos na memória quantas são as entradas que referem o nome dos MC’s que trazem isso na ponta da caneta. Anseia-se pelo glorioso dia em que se dará a ressurreição da importância das letras no rap, depois da batida as ter morto, ou perto disso.

Felizmente há ainda quem mantenha bela a relação do risco de tinta com a folha de papel. Desde nomes da Velha Escola, guardiões da essência, até aos contemporâneos da Nova Escola, saídos há pouco tempo da barriga da mãe, é certo, mas já mais lambões por inovação e originalidade do que ministros da Tecnologia e da Cultura.

Mas eis o desafio, o sonho: colocar o rap na vanguarda lírica da música portuguesa. Para isso, MC’s têm de se munir duma linguagem criativamente rica, esquecerem os lugares comuns e aumentar o cuidado na escrita é vital, em abono da credibilidade. Laivos poéticos são tão necessários como versos pensantes e como rimas ambiciosas.

O desamor entre a língua portuguesa e a música feita no nosso país vem em crescendo e o rap tem potencialidades para contrariar essa sina. Elevar-se o patamar de exigência das letras é decisivo para que elas ganhem dimensão e permitam igualar-se às dos melhores letristas nacionais como Rui Reininho, Adolfo Luxúria Canibal, Ary dos Santos, Sérgio Godinho ou Carlos Tê, por exemplo.

A arte possui uma vertente lúdica mas é igualmente uma forma de conhecimento, poder, transformação, afirmação e cristalização de momentos. Daí que o rap possa continuar a proporcionar o prazer do jogo das palavras, ao mesmo tempo que se encaminhe, de igual forma, para desmontar os artificialismos da vida, devolvendo a verdade às pessoas. António Jacinto, um dos meus poetas angolanos preferidos, exemplificava bem como a escrita podia ter muita força, sendo mostra de denúncia, resistência e esperança. Una-se uma letra forte a um suporte musical equivalente e temos uma arma mais poderosa que uma kalashnikov.

Os artesãos de versos do rap português marcarão a diferença, na música lusa, se reavivarem o amor pela língua, se colocarem nas letras a impressão digital da nação, escolhendo serem vozes activas e críticas, de modo a aproveitarem o relativo desinteresse de outros géneros musicais em pintarem tal quadro.

Sem trabalho e originalidade não há eternidade na arte. Portanto, os melhores e os que estarão, mais tarde, na parede dos prodigiosos, serão aqueles que mais trabalharem, que mais estudarem e que fixarem a ambição e a ousadia de superarem o que está feito. O MC tem de ser o seu primeiro crítico para somente terminar um trabalho quando nele encontrar vestígios de perfeição.

Indague-se na vasta imaginação, encha-se o peito de humanidade, revolva-se o pensamento, grafite-se a poesia nas letras. Porque o rap é muito mais do que um antro de corações cegos que necessitam duma pistola para se orientarem pelos caminhos da palavra.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Uma Questão de Estímulo

Recentemente Valete verteu na net um som chamado “Vampiris”. Ao que parece, alguém despertou no MC de “Educação Visual” o seu lado vampiro e a resposta consumou-se. O Valete das linhas duras que batem nos ouvidos dos outros rappers como murros de Muhammad Ali não é seguramente o que me mais me fascina no ícone de Benfica, mas deveria ser facilmente reconhecível, por qualquer um, que neste tipo de rap ele não dá muitas chances a mais ninguém de brilhar. O próprio Valete já afirmou que sentia em muitos dos seus ouvintes uma predilecção por outras modalidades presentes no seu texto, mas que apesar de tudo conservaria sempre esta sua faceta de boxeur verbal. Mas o ponto mais interessante, para mim, deste tema do Víris é a sua referência (pedido?) aos estímulos positivos que (não) lhe passam. Sendo esta uma faixa profundamente atacante, Valete, como confessa, deu uma resposta criativa a quem o “atiçava”, em sentido pejorativo. Mas o que é que de positivo atiçará Valete?

Bem, antes de mais, certamente serão os seus fãs. É esclarecedora a legião que tem e isso é um incentivo muito especial para qualquer artista, que quer naturalmente que o seu trabalho seja apreciado. Depois, a qualidade do nosso rap há-de inspirar Valete, mas creio que não serão muitos os rapistas a cair-lhe no goto. Tudo porque o próprio tem colocado o rap nacional num patamar elevadíssimo. Ou seja, se Valete atingiu determinado nível, muito provavelmente só se identificará com os pares que o acompanham na subida da escadaria rimática. Daí que não me surpreenda que Valete tanto soletre “Hip Hop Lusófono”. Daí que não me choque que Valete vá actuar em Angola e receba um banho de multidão e de amor. Faz todo o sentido falar de lusofonia, pois é todo um amplo espaço que existe, pleno de possibilidades. Tudo bem que todos os portugueses andam ansiosos com a hipótese de verem uma sua actuação ao vivo cá e se sentem de algum modo traídos pelo Víris ter ido a Angola. Mas compreende-se o porquê de Valete ter ido ao país de Agostinho Neto. Como se compreenderia se Valete tivesse ido ao Brasil. É que são países de grande dimensão cultural e com movimentos Hip Hop muito fortes e estimulantes, em termos de dinâmica e criatividade. E são lugares onde o rapper é idolatrado. Assim não se pode estranhar que Valete se sinta motivado e entusiasmado em actuar em Angola onde o público o recebeu como uma estrela e o acompanhou em cada palavra durante o concerto. Ora, isto é algo verdadeiramente portentoso para um artista. O que quero transmitir com isto é que Valete já tem uma dimensão que há muito extravasou as nossas fronteiras e é normal que ele se veja através dessa realidade e que dela queira retirar dividendos para a sua experiência humana e artística. Não se pode condenar Valete por querer vivenciar isso.

Concluindo, dizerem que não gostam do trabalho de Valete é perfeitamente legítimo. Algo completamente diferente é não lhe reconhecerem valor. Portanto, cuidado aí com os pescoços que os dentes andam bem afiados e um estímulo mal direccionado pode fazer correr muito líquido vermelho. Ah, a marcha dos 10 mil homens (e mulheres!) vai a caminho. Um desafio e uma motivação à Valete, não?