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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Urban Beat Battle 2011 - Finalistas


Urban Beat Battle 2011
(12 de Novembro @ Musicbox, Lisboa)
* Evento com apoio HHP

16 Finalistas
- Dead End
- Suary
- Woner
- Cálculo
- Lil' P Beatz
- Kayn
- Rimer
- Puto Richard
- Manifesto
- Metamorphosis
- M.A.N.
- Johnny
- Ferro
- Dezze
- D-One
- Beatoven

5 Suplentes
- Noyze
- Cooper
- L.T.
- Junnior
- SDC

Concurso de MC'S
- Mic
- Neuroze

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Desafio Agosto [Headstart Records] - Fisko



O vencedor do mês de Agosto foi Fisko. Este jovem produtor de 19 anos é oriundo de Vila Nova de Gaia. Fisko foi o organizador do projecto Poesia Invicta (2007 - Divulgação de Hip-Hop nortenho), Urban Beat Battle 2010 (Porto) e 2011 (Lisboa - a organizar). Lançou recentemente um Ep de instrumentais intitulado "Meu amor, a história" (download gratuito do mesmo aqui).
Poderão ouvir mais do trabalho do produtor em http://soundcloud.com/fiskosound

Continuem a enviar os beats para desafio@headstartrecords.com até dia 15 de cada mês e ganhem a oportunidade de aparecer no próximo vídeo.

terça-feira, 3 de maio de 2011

«Meu Amor, a História» de Fisko (crítica)

«Meu, podias escrever aí umas palavras sobre o meu disco, hein?». Estes podiam ser eventualmente os termos em que Fisko se dirigia a mim, já que ele lançou há pouco um EP e, na verdade, ele é um dos melhores e mais estimados amigos que fiz por via do Hip Hop. Porém, Fisko não me pediu absolutamente nada. A vontade de apoiar o seu trabalho partiu do HIPHOPulsação. O desejo de fazer uma crítica a “Meu Amor, a História” partiu de mim. Fisko merece que se fale nele porque até agora tem tido iniciativas dentro do Hip Hop que têm feito os outros brilhar, inovando e consolidando igualmente este nosso movimento. Portanto, nada mais justo aflorar agora um projecto seu, em nome individual.

Sabendo-se que é um EP instrumental com o título “Meu Amor, a História” é inevitável a comparação com “Beats Vol.1: Amor” de Sam The Kid. Inevitável porque ambos são produtores, porque ambos trataram a mesma temática, porque Fisko e Sam The Kid usam e abusam (ainda bem!) de samples de voz em língua lusa.

Corre, em “Meu Amor, a História”, a ânsia de se explicar e descrever o poder do amor, ou seja, a grande batida da vida. Implicitamente à palavra “amor” está o conceito de beleza. É estranho e inconsistente pensarmos num amor feio. Não há, não deve haver. Desde logo, se na obra de Fisko se procura elevar a grandeza do amor é tanto mais previsível que o resultado seja agradável.

A música é um meio privilegiado, um óptimo e eficiente veículo, para a consagração e expressão do amor. Fisko seguiu essa dica e ousou contar a sua história através da música. Se no amor se deseja buscar a intensificação da vida, na mais clássica forma de beleza, também na música essa pretensão é indissociável. É mais do que uma premissa. Não há amor sem se ter sentimentos, não há capacidade para se fazer música ou apreciá-la simplesmente se não estiverem desenvolvidas no nosso âmago as faculdades do sentir. É precisamente disto que trata este EP: de sentir. De se entrar na intimidade de Fisko, de se saber a dimensão do seu “amo-te”, de se vasculhar o seu coração como as páginas dum livro com letras sensíveis. É aqui que abrimos a gaveta da sua alma.

Este é o manifesto reiterado na «Intro», que se amplifica no fantástico sample de voz que nos lembra que o amor não é como o dinheiro. Enquanto que se muito amor oferecermos, mais amor teremos, o dinheiro evapora-se num ápice. Mais se pode acrescentar que não há dinheiro nenhum que possa comprar amor. Do verdadeiro, claro. Tudo isto plasmado numa atmosfera instrumental que nos transporta para um jardim, onde uma fonte, no centro, debita jactos de água límpida, e onde a nossa amada divertida refresca o corpo, sorrindo para nós devido ao nosso ar embevecido.

Quando o Cupido nos atinge, é aí que despertamos e damos o «Bom Dia» para a vida. É quando saltamos dos lençóis da normalidade, espreguiçamos o tédio, abrimos a janela, inspiramos o ar fresco da competência para amar e já está. O sol brilha, os pássaros cantam, raia a beleza. Principiam as revelações, as promessas, a frontalidade, a sinceridade e transparência. A felicidade que vem da partilha. O medo que se desvanece perante a imponência da mais-que-tudo. A confiança que cresce, o prazer que não se esgota, a alegria, a convicção do amor, a força da paixão... Com isto, como não nos levantarmos da cama?!

Nem tudo são rosas, dirão os menos românticos e mais realistas. Certo. E que sentimento mais característico dos portugueses que a «Saudade»? O desconforto nos momentos de ausência, a melancolia, o tempo que pára, que se suspende num cubo de gelo ou no bronze duma estátua, maximizado no beat de Fisko pelos violinos que arrepiam a espinha e onde os ossos da alma rangem devido às cordas. O interior de nós mesmos entra em soturnidade, na espera do triunfalismo do reencontro, que é um brutal «Aperitivo», poder-se-ia dizer. Apetece saciar a fome de amor através dos sorrisos, do encaixe perfeito dos corpos, nos abraços na praia, nas brincadeiras no jardim, no apertar das mãos, na colisão das bocas prometidas. A união perfeita... Que venha, que venha ela.

Se o sol quando nasce é para todos, «Quando Chove» ninguém escapa, não há quem drible todas as gotas de água. Se até os deuses vertem lágrimas, às quais chamamos chuva, também nós lubrificamos por meio de cascatas de água salgada o rosto, de quando em vez. Assim acontece quando a impotência se infiltra no nosso espírito, quando derrapamos nalgum erro, quando fica algo por dizer. O amor vence tudo, mas há dias em que as forças falham, em que não se reúnem as condições para o deleite conjugal. Momento que pede a reflexão. Como num dia cinzento, em que o olhar se posiciona longínquo da Serra do Pilar para o Douro. Era como se quiséssemos chorar todo aquele rio para o mar, a fim de nos levar todas as tristezas e obstáculos nocivos à felicidade.

A teimosia da «Chuva (Quando Parte)» pode levar a pensar-se que existe um qualquer fado comum aos portugueses a tolher a nossa vida. Talvez seja um pensamento exagerado. A melhor opção será sempre desdramatizar-se a situação. Porém, no exercício de nos pormos à janela a ver a chuva cair poderemos retirar algumas ilações, pensando na nossa existência. O que deve contar nessa retrospectiva empreendida é sabermos da inevitabilidade dos temporais, com certeza, mas nunca esquecermos que também existiram dias lindos, em que o sol foi radioso. Serão essas as lembranças que dirão que a vida vale a pena. Os momentos especiais, as pessoas que nos marcaram, as situações que nos emocionaram, porque isto é que dá vida à saudade.

Se a racionalidade se divorciou de nós e o que ficou foi a «Loucura», ou se fica preso na obsessão do passado, em regime punitivo, ou se desencadeia a revolução do espírito, em que a dor vira bandeira para a mudança, para um outro rumo. “Não podia ir embora sentindo o que sentia”, diz-se em «Sinto-te Aqui». É perfeitamente compreensível. Só quem não ama é que desiste. Todavia, nem sempre amar é sinónimo de se estar junto. Por isso, pode sentir-se aqui, ali, acolá, além. Longe ou perto. São as diferentes faces do amor, são as diferentes faces do sentir.

Em cada história, dificilmente uma personagem não sofre transformações. Para o bem e para o mal, há um «Outro» que nasce fruto dos desenvolvimentos anteriores. Também Fisko trilhará os seus passos a meio caminho das saudades e do devir. Não se renega o passado, procura-se antes que ele seja útil para o futuro. As portas abrem-se para outras coisas, para outros... amores.

O que temos em “Meu Amor, a História” de Fisko é a tradução musical duma sua experiência amorosa. Sente-se uma música muito humana, natural, à flor da pele, em todo o EP. Há aqui também uma portugalidade inerente, uma identidade que se ouve nas vozes de Mariza, de Mário Viegas ou de António Lobo Antunes, por exemplo. Enquanto produtor, Fisko preocupa-se bastante com a melodia, com a harmonia e não se lhe nota o preconceito de samplar coisas menos convencionais, o que acho muito meritório. Nota-se que segue uma linha de produção muito própria, sem que sinta a necessidade de se colar a um estilo vigente. O seu amor pela música é a nota dominante, numa estreia promissora. Esta é a história de Fisko, mas podia ser perfeitamente a história de qualquer um de nós. A ti, meu amigo Fisko, dedico-te todas estas palavras. Todavia, não o faço pela amizade que nos une. Faço-o porque o teu talento assim mo exige.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Fisko - Meu Amor, a História (EP download)

O HIPHOPulsação tem o agrado de se associar ao lançamento do EP de instrumentais “Meu Amor, a História” de Fisko. Depois de ter organização a mixtape “Poesia Invicta”, a Urban Beat Battle e correspondente compilação de beats, Fisko demonstra, desta vez em nome próprio, o seu amor por esta cultura. Com este EP, Fisko potencia a vitalidade, a pujança, dos beatmakers portugueses, despejando o próprio na MPD a sentimentalidade que lhe corre nas veias, pedindo ainda emprestadas as palavras que transmitem com precisão aquilo que ele mesmo queria dizer, no recurso a sample de vozes em língua lusa. “Meu Amor, a História” é um livro não com letras mas com sons onde se remanescem as páginas tantas que compõem a sua vida. Pode parecer curta, é-o até, mas as incidências, a paixão, os desencontros, a emotividade, a intensidade, a espiral amorosa, toda esta miscelânea faz deste EP uma loa à vida! Uma obra de Fisko com uma musicalidade muito bonita, que o HIPHOPulsação, para além de apoiar, recomenda vivamente a audição.


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Novo blog: Bombos e Tarolas



Os dois organizadores da Urban Beat Battle, Reis e Fisko, acabam de criar um blog chamado Bombos e Tarolas. Lá podem encontrar um aperitivo americano daquilo que todos esperamos que seja a UBB, no Gare Clube (Porto), dia 7 de Outubro: um extraordinário evento. Acessem:

terça-feira, 27 de julho de 2010

segunda-feira, 24 de maio de 2010

sábado, 19 de setembro de 2009

Mixtape Poesia Invicta (Crítica)

O nevoeiro sobre o Rio Douro é tão costumeiro e cerrado que se torna difícil, por vezes, a contemplação por entre as suas malhas. Mas há gente que enceta formas de o fazer desmobilizar para que se aprecie a paisagem vedada. Fisko muniu-se de garbo e num sopro de amor à cultura Hip Hop fez levantar parte do fumo húmido que paira sobre alguma da música rap que se faz a Norte. Artistas que se misturam com o granito e que a camuflagem de brumas condena a passarem despercebidos. Mas uma vez revelados, são nomes que reclamam a sua hora nos fios do tempo. A obra de alguns deles será objecto de coroação mas independentemente disso fica a convicção de que a Poesia é para sempre Invicta porque de igual modo é invicta a determinação.

Esclarece-se aos nossos ouvidos uma característica que atravessa toda a mixtape “Poesia Invicta”. Mais do que o sotaque tripeiro, assalta-nos aqui um surto de insaciabilidade em todos os mc’s. Famintos, esgrimem argumentos técnicos e líricos, procurando passar boa impressão. Regra geral, conseguiram-no. Reuniu-se em “Poesia Invicta” um naipe de mc’s que embora jovens já apresentam competência e uma dinâmica verbal de assinalar.

Na sua participação, Age evidencia uma grande vontade de rimar e de dar um ênfase especial às palavras expelidas. Com “Mata-Mata!”, engendrou uma sátira aos rappers que nascem e crescem como cogumelos na floresta do Hip Hop, sem medo de que lhe possa servir a carapuça. Tomou as rédeas da responsabilidade, vestiu o seu fato de Super-MC e ei-lo a declarar aberta a caça aos rappers desajeitados. Age fez amizade com a agressividade, a ironia e a comicidade e essa aliança convergiu no tal plano de mover um cerrado ataque verbal aos traidores da essência HipHopiana. Talvez Age ainda não tenha total propriedade para se imiscuir de microfone em punho no papel de caçador mas ressalve-se a sua intenção.

Duplo Sentido aposta no fim do sono, apropriando-se de garra e de escorreitos flows para endereçar um aviso aos que circulam nos meandros da indústria musical. De “Acorda!” emergem versos que bem poderiam servir como slogan da mixtape “Poesia Invicta”: «Naquilo que faço sou invicto/ Não há equívoco/ Pois na Invicta o bom produto é típico». Prestação francamente boa de DiOr e GaLaRt que comprovam o carácter especial da inventividade: «Ideias são gotas cintilantes no meu caderno».

“Instante com Decibélicos” é um tema que dada a má prestação do grupo se torna numa dolorosa morosidade que aflige os nossos canais auditivos. O flow é estranho, o que torna difícil a compreensão do que dizem. Existiu pouca sensibilidade da parte deles, na medida em que desprezaram a fácil captação da mensagem por parte dos ouvintes, apostando antes na técnica de cuspir. O produto final redonda numa rajada de rimas muitas vezes imperceptível. Escutar esta faixa de Decibélicos é um exercício penoso.

Se há nítidas dificuldades em Decibélicos, Domínio Verbal, pelo contrário, faz jus ao nome. “Estado Zen” é uma canção que traduz o estilo da sua verbalização, pois diria que o flow apresentado é certinho, balanceado com pausas em conformidade com a batida. Mais do que mero exibicionismo de competência técnica, Domínio Verbal explica a sua motivação para o rap, as experiências daí decorrentes e a visão externa sobre os elementos do grupo e o fenómeno musical. Namorando com a música, há aqui uma aposta em jogar-se simples e o resultado demonstra que se almeja a pretendida qualidade.

Guerreiro é mais um rapper ávido que se dá a conhecer na mixtape. Cheio de apetite pelas rimas, ele está pronto para deglutir o que quer que seja, assim parece. “Escuta com Atenção Mano” é um carril autobiográfico puro e duro. Situações menos agradáveis da sua vida são exibidas sem pudores: «Dizem que um homem não chora/ Por isso é que eu rimo às escondidas». Este som é um desabafo que transparece uma enorme revolta pessoal de alguém que carrega o mundo às costas. Se não nos apetece muitas vezes ouvir os problemas pessoais de alguém, neste caso, gaba-se a coragem de Guerreiro que se expõe tão abertamente.

O single da mixtape é uma cortesia de Poker (Spitz e Noura) com a participação de Sky. Percebe-se que “Mantém a Barra” detém estatuto de ponta-de-lança pois é uma canção com qualidade, com um clima de celebração e de união, que ali é promovido e estimulado. A voz doce de Sky, o flow cool, seguro, harmónico, são reveladores da maturidade desta artista que se move também nos domínios da Soul e do R&B, onde se sente igualmente como golfinho na água. Spitz com o seu sotaque cerrado aperta, por certo, o microfone com a mesma intensidade e dispara rimas direitas ao coração de quem é tripeiro: «O espaço que nos separa/ É em pistas que nos une». Noura segue a tónica da cara-metade de Poker e revela o óbvio para qualquer portuense de gema: «Tudo nesta Invicta me inspira a escrita». Os acontecimentos das suas vidas misturam-se com o Hip Hop e elas acentuam a importância que isso teve na união delas mesmas. «Nós temos o Porto unido/ Mantém a Barra»!

A letra “R” bem podia prenunciar a palavra “revelação” dirigida a estes dois rappers. Refiro-me a Realista e a Roke. Realista apresenta o tema “Poesia Invicta” onde derrama a sua história no rap, os seus sonhos, receios, etc. Prodece ainda a uma vincada homenagem a Fisko, organizador da mixtape. «Um amor, uma mente, um ano», refere Realista, que contou com uma participação muito positiva. Por sua vez, Roke possui um flow sui generis, inflamado de paixão e calor. Sente-se que não poupa no sentimento que transmite. Tal como Realista, é um mc com potencial que poderá confirmar a esperança que nele se deposita para o rap quando tiver mais cadernos preenchidos com rimas.

Som Mudo investe com “Ponto de Fuga” numa reflexão sobre a vida e seus tópicos basilares. É um som que se destaca dos restantes pela sua carga introspectiva e mais elaborada. A abordagem a que Som Mudo recorre, obriga-nos, pelo carácter profundo, a ouvir o tema mais do que uma vez para o interpretarmos fielmente. A repetição é algo que se faz com absoluto prazer, esclareça-se. Som Mudo faz-nos sentir como os convidados especiais da canção. Provavelmente, “Ponto de Fuga” é o tema mais proeminente da mixtape. Há uma marca de maturidade acentuada em Som Mudo e a qualidade existe a rodos. Sobretudo, apraz-me a carga poética por eles incutida. Dizzy e Vírus Mental fazem acreditar que por detrás da neblina há uma boa nova à espreita. E todos nós queremos ver esse sol a brilhar!

Vadio é um mc sem papas na língua, que nos garante que a “publicidade é o processo para alcançar e garantir o sucesso”. Adopta uma posição de escárnio em relação ao próprio movimento: «Yo yo, nigga não sei quê/ És gangsta mas a rimar é o que se vê». “Temática” é uma faixa que aponta para a real filosofia do Hip Hop, com Vadio a sublinhar com traço grosso que o conteúdo deve ser mais importante do que o aspecto. Ele tem garra e se a isso acrescentar a persistência teremos aqui um rapper que se dedicará certamente à (re)descoberta da essência desta cultura nos seus projectos vindouros.

W.R.O.N.G compôs para a mixtape o tema “Poesia”. Começa por situar as suas origens e focar o crescimento do número de praticantes deste movimento na Invicta. Com uma boa margem de progressão, demonstra talento e habilidade, para além duma grande vontade em morder deliciosas rimas. Chega a debitar, durante a sua interpretação, nomes de grupos de rap do Norte que são suas influências e uma constante presença nos seus ouvidos. Ficamos com o todo o interesse à espera de mais novidade de W.R.O.N.G.

A mixtape “Poesia Invicta” é como uma cave escura e humilde que alberga castas que se pode pensar como segredos bem guardados. Após a prova das 11 amostras, o nosso palato toma contacto com a textura de irreverência e jovialidade presente em Vadio, deliciando-se ao mesmo tempo com a intensidade e maturidade de Som Mudo; enlevamo-nos com o aroma frutado de Poker e Sky que se entrecruza com a sobriedade de Domínio Verbal, Realista e W.R.O.N.G.; as papilas gustativas dilatam com o ardor de Guerreiro e de Roke e com a efervescência de Age e só o travo de Decibélicos faz minguar esse festival de bom gosto que acontece na nossa boca. Em resumo, “Poesia Invicta” embriaga-nos pela variedade de gamas aqui presentes e que surpreendem porque eram desconhecidas, na maior parte dos casos. Sobretudo, estão aqui colheitas que o tempo poderá amadurecer na tal cave, acrescentando-lhes uma maior qualidade e tornando-as válidas e atraentes para os consumidores. Para mim, desta amostra, há já dois néctares com excelentes propriedades e com um bom grau de maturação: Sky e Som Mudo. O balanço é positivo, brinde-se à mixtape e ao projecto “Poesia Invicta”!

domingo, 6 de setembro de 2009

Entrevista a Fisko (Poesia Invicta)

A mixtape Poesia Invicta é um trabalho saído há pouco tempo para download gratuito. A mixtape destina-se a celebrar o primeiro aniversário dum espaço - também ele designado Poesia Invicta - que apoia e divulga rappers da região Norte de Portugal. Fisko é o grande mentor desta iniciativa, que merece a nossa vénia. É hora de abrirmos as cortinas e colocarmos no palco, sob as luzes, quem está nos bastidores. Fisko tem a palavra.

1- Fisko, já sabemos que a Poesia é Invicta. Mas conterá ela também partículas de ser Antiga, mui Nobre e sempre Leal? (risos )

Boas. Antes de mais queria agradecer o convite por esta entrevista, é sempre gratificante sentirmos que o nosso trabalho é bem visto, sendo o valor do mesmo reconhecido. Sobre a questão colocada, focando-me principalmente no tema “Poesia” e não unicamente em “Música”, isto hoje em dia é “como o povo entender”. (risos) “Antiga”, sim. Sempre foi uma das mais antigas e importantes formas literárias, desde Adolfo Casais Monteiro (1908), por exemplo, que para mim sempre foi uma via mais directa à poesia “Invicta”. “Mui Nobre” já parte da percepção da própria pessoa. Por exemplo, posso muito bem escrever uns versos, divulgá-los e obter feedback negativo, mas sabendo desde sempre que são “frases” sentidas, que mexem com o lado emocional pessoal, derivado a alguma coisa que se tenha sucedido. Sempre achei que um poeta para ser verdadeiramente “Poeta” não precisa unicamente de escrever umas frases “Potentes” como diz o Fuse - (risos) - mas sim compreender a força das palavras. “Sempre Leal”, sim. Se algum dos poetas que conheço (falando agora de Música, “Poesia audível”) me dissesse hoje que não escrevia mais ou que ia abandonar a “farda”, não me acreditava e era capaz de brincar com a situação. Penso que a Poesia é um “bichinho” que se vai apoderando do nosso dia-a-dia. A gente pega-lhe e não lhe quer largar mais. (risos)

2- Quando e como surgiu a ideia do projecto Poesia Invicta?

É um bocado difícil descobrir quando nasceu ou como nasceu o projecto. Sempre gostei de Música. Seja um Rock, House, até Jazz ou um Fadinho, mas a música Hip-Hop sempre me deliciou o ouvido. Partiu daí principalmente. O “gostar” demais do estilo musical. Depois veio a parte percepcional. Lembro-me de ouvir música Hip-Hop quando era pequeno e da continuidade com que ouvia falar mal de Editoras Musicais, que “comiam” muito mas que faziam pouco por uma carreira musical de um certo Músico. Penso que foi nessa parte da minha vida que me mentalizei que alguém podia dar um “empurrão” e apoiar o crescimento Musical Português. Decidi então apoiar o Nortenho pois nunca me identifiquei com Hip-Hop sem ser o aqui criado. Sempre o achei mais “pensado” ou “sentido”.

3- És só tu o cérebro da Poesia Invicta ou existem mais pessoas envolvidas?

Neste momento estou só eu a conduzir o projecto. Tenho imensos amigos que me perguntavam: “Ei, não queres uma ajuda aí no projecto?”. Mas nunca houve uma ligação musicalmente/sentimentalmente identificável que desse para seguir o projecto como eu queria que fosse.

4- Em traços gerais, define os grandes propósitos desta iniciativa.

A verdadeira natureza deste projecto é mesmo o “dar o empurrão”, “diversão” e o estar bem pessoalmente. Sentir que estou a fazer bem a uma cultura que admiro imenso. Já conheci imensos músicos pelo projecto com quem criei uma grande amizade. O resto vem por acréscimo.

5- De que forma se manifesta o apoio da Poesia Invicta aos artistas?

Inicialmente começou num espaço virtual, num Myspace. Todos os meses colocava faixas ou sets de músicos e a sua Biografia (de onde é, como começou musicalmente, etc) e actualmente com projectos concluídos, como por exemplo a EP das Poker (primeira actualização como projecto e já pondo de parte as faixas e os sets), Logico, etc, e estou agora a finalizar o site oficial e tentar criar um “fundo” que garanta a colocação eterna do site online, mas ainda não tem data marcada.

6- É notório durante a mixtape o elogio dos próprios artistas à organização deste trabalho. Achas que fazem falta mais apoios como o facultado pela Poesia Invicta?

De apoios não tanto, até porque a mixtape foi toda organizada via mensagem pelo Myspace e seguidamente um contacto indirecto pelo e-mail, nunca necessitando de gastos para me deslocar e falar directamente com o artista. Penso que o grande “mal” de certos projectos reside na falta credibilidade sobre o organizador. A falta de conhecimento do próprio projecto também é visto como uma causa da falha de certos trabalhos.

7- A mixtape celebra o primeiro aniversário do projecto. Conta-nos um facto marcante que tenha acontecido neste tempo.

Como respondi numa pergunta anterior, o facto de nos sentirmos “vivos” ao saber que estamos a apoiar de certo modo uma cultura que admiramos, já é um grande ponto marcante. O resto, como disse, vem por acréscimo.

8- A Poesia Invicta terá um exclusivo, digamos assim, com o rap ou está disponível para apoiar artistas de outros géneros musicais?

Penso que só terá um exclusivo para o Rap. Não estou muito a par de outros géneros musicais e, se conduzisse um projecto assim para outros géneros, não era tão “feliz”. (risos)

9- Conheces bastante bem o rap nortenho, como analisas o seu estado?

O rap nortenho está a evoluir a olhos vistos. Lembro-me claramente de há um ano atrás, por exemplo, os Enigma não terem tanto nome como agora, ou de nunca ter visto tantos projectos a saírem ao mesmo tempo como neste ano. E tem de ser assim, manter o “bichinho” para que quando tivermos uns 70 anos, sentirmos que valeu a pena. (risos)

10- O que falta ao rap do Norte para que ele tenha mais expressão em todo o país?

Ouvintes. Acredito que cerca de 80% dos ouvintes do próprio Rap da Invicta sejam habitantes do Norte de Portugal. O Rap do Norte é imensamente diferente do resto do Rap em Portugal. O estilo, a forma como é envolvido, o próprio modo de criar Beats, a escrita acima de tudo. Somos uma cidade que ainda se esconde do resto porque há falta de vontade em mudar na preferência musical.

11- Achas que em Portugal há um tratamento privilegiado dado ao rap de Lisboa? Justifica-nos a tua resposta.

Sim. Penso que deriva do facto de Lisboa ser a Capital de Portugal. Mas estou confiante que se não fosse o terramoto de 1755, já não seria tanto assim. (risos)

12- Qual será, num futuro próximo, o grande desafio para a Poesia Invicta? Que iniciativas/projectos estão na calha?

Já há uns 4 meses que estou a pensar negociar uma grande festa com a Câmara do Porto. Mas prefiro não dar mais dicas e deixar para surpresa. Posso afirmar que se estiver ao meu alcance não custa nada.

Fotos gentilmente cedidas por Fisko, a quem agradecemos pela entrevista,
HIPHOPulsação.