segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Revista Freestyle (Balanço)

A Freestyle, revista portuguesa de Hip Hop, com periodicidade bimestral, vai no seu 3º número. É portanto uma altura propícia para se fazer um primeiro balanço e uma medição do impacto que esta revista trouxe. Irei assinalar, numa opinião pessoal de leitor, aspectos negativos e positivos que tenho encontrado na Freestyle.

PONTOS NEGATIVOS:

- As capas. Sendo a Freestyle uma revista com poiso nas bancas, logo com fins comerciais como qualquer outra, estranha-se que tenha vindo a apresentar capas tão pouco atractivas. Parece ser uma espécie de constrangimento para a Freestyle a presença de um artista em foco na capa. Saliente-se que só agora neste 3º número é que a Freestyle decidiu colocar imagens de artistas na capa mas em tamanho reduzido e conjugadas numa composição artística. Ora, parece-me que a pretensão de sobriedade para a capa da revista esbarra no pobre apelo gráfico para quem compra. A capa não será a coisa mais importante duma revista, mas tem a sua relevância.

- Ausência de oferta multimédia. É certo que a net já permite a divulgação de maquetas mas o prestígio, diga-se assim, dum som de um mc, que procure dar-se a conhecer, ser incluído num CD duma revista é diferente da promoção que pode fazer na net. A eventual oferta multimédia seria ainda interessante para alojar fotos de eventos ou outras iniciativas que não sejam seleccionadas para a revista e fotos de graffiti, por exemplo, de modo a que houvesse mais espaço nas páginas da revista para outros conteúdos. Em alternativa à oferta multimédia física, vulgo CD, a Freestyle poderia abrir um espaço na net onde alojasse esses brindes e os oferecesse aos seus leitores.

- Problemas de distribuição. Há ainda gente ligada ao Hip Hop que ou não conhece a existência da Freestyle ou se conhece nunca lhe deitou os olhos em cima. Mesmo nas grandes cidades é, por vezes, árduo encontrar a revista nas bancas. Já visitei algumas papelarias na área do Grande Porto que desconheciam por completo a revista.

- Pouca abertura ao Hip Hop internacional. É bom que se dê uma especial incidência no que é nacional, mas o Hip Hop estrangeiro de qualidade também merecia tratamento ao nível de artigos. Seja Hip Hop americano, francês ou espanhol, mas também o brasileiro, o angolano ou o moçambicano, até por questões de ligação histórica e por a língua ser a mesma. É que a Freestyle pode estar a incorrer numa possível incongruência. Ou então a atitude da Freestyle pode ser entendida – o que eu acharia óptimo – como uma abertura ao que é do exterior. Passo a explicar. No 1º número da Freestyle, consta no "Estatuto Editorial" que os «conteúdos informativos» serão «cem por cento nacionais». Porém, desfolhando as páginas dessa mesma edição de estreia deparamo-nos com factos relacionados com o estrangeiro, quer ao nível de notícias e de álbuns. Por exemplo: as seis críticas a álbuns presentes na Freestyle nº1 são todas de álbuns do exterior! Que fique bem assente: acho muito bem que haja o tratamento ao Hip Hop americano e ao dos países lusófonos, só penso que era dispensável a revista afirmar no seu "Estatuto Editorial" que era puramente nacional. Será muito mais interessante a revista e poderá captar mais leitores se não tiver quaisquer pruridos em tratar e em encontrar um equilíbrio entre o nacional e o internacional. Ainda no "Estatuto Editorial", a Freestyle afirma que pretende ajudar ao crescimento do Hip Hop, dando-o a conhecer ao público. Deste modo, seria extremamente importante que a revista desse a conhecer as origens do Hip Hop em Portugal mas também que fizesse o enquadramento do seu nascimento na América. Logo, faria todo o sentido a revista tratar o que é nacional e o que é internacional.

- Desaproveitamento do espaço. Este é um flagrante problema da Freestyle. Todavia, penso que a equipa da Freestyle adoptou como política ter uma foto de página inteira sempre que apresenta um artista ou grupo, na sequência de um artigo ou entrevista. Digo política da revista no sentido de ser uma opção tomada nos 3 números já editados. Um exemplo perfeito do esbanjamento do espaço da revista: o índice ocupa 2 páginas! Tantas páginas quantas as que são dedicadas à crítica de álbuns, onde o espaço é exíguo para se comentarem 6 discos, não se podendo fazer uma análise pouco mais do que superficial. Na minha óptica, convinha que o espaço fosse mais rentabilizado, o que conferiria a possibilidade de existirem mais assuntos para escrever ou, pelo menos, poderia dar-se mais extensão aos assuntos que são abordados. Proliferam, sem nexo, fotos de página inteira nos 3 números.

- Reduzido espaço para álbuns. Parece-me que uma área vital merecia mais atenção por parte da Freestyle. Esta secção deveria ser encarada como primordial. É preciso ter noção que raramente há na imprensa musical (ou mesmo generalista) portuguesa análises a álbuns de rap português. Logo, uma revista da especialidade não deveria descurar este ponto. Pelo contrário, seria de todo o interesse que aumentasse o número de críticas a álbuns, em geral, e a discos portugueses, em particular. Outro apontamento: na secção 3 mic’s e na secção do e-mail recebido a equipa da Freestyle achou por bem diminuir o tamanho da letra de modo a que aumentasse o texto. Por que não fazer o mesmo na secção dos álbuns? E por que não ter menos páginas com uma foto inteira dum artista para que conseguisse ter, pelo menos, mais uma página para a análise dos álbuns? Fica a sugestão.

- Predominância do Hip Hop da área metropolitana de Lisboa. Num momento em que há outras zonas do país tão activas e trazendo tanta qualidade ao Hip Hop, em todas as vertentes, não se percebe como há este privilégio dado a Lisboa. Quer dizer, entende-se numa lógica de localização, pois a Freestyle está estabelecida na Capital. Mas isso não justifica tudo. Tanto o Norte, como o Centro, Algarve e até algumas zonas do interior do país estão a dar cartas no Hip Hop e mereciam por isso atenção. No fundo, já sabemos como isto funciona quase sempre a muitos níveis: Portugal é Lisboa e o resto é paisagem.

PONTOS POSITIVOS:

- Ser a única revista portuguesa de Hip Hop. Saúda-se naturalmente a iniciativa, a coragem e o empenho de um conjunto de pessoas que lutou para que este projecto fosse uma realidade. Acredito que não deve ser nada fácil construir uma revista sobre esta cultura e que deve ser ainda mais custoso cimentá-la nas bancas e torná-la apetecível para o público. É fundamental que todos possam comprar a Freestyle pois só assim garantiremos a sua continuidade, devendo salientar-se que ela é muito importante para o nosso Hip Hop. Não há quaisquer dúvidas sobre isso.

- Associação a causas sociais. É preocupação da Freestyle ligar-se a lutas sociais de modo a desmistificar ideias feitas sobre o Hip Hop. É muito boa esta envolvência da revista com a sociedade civil, provando que o Hip Hop pode e deve ser muito mais do que uma manifestação artística. Ele pode servir efectivamente como instrumento privilegiado de intervenção social. Esta iniciativa trará não só benefícios e prestígio para a Freestyle mas também para o próprio Hip Hop português.

- Sintonia entre as 4 vertentes do Hip Hop. Nota-se um esforço da Freestyle em dar a mesma importância a cada vertente. O rap normalmente é o actor principal e talvez exista sempre essa supremacia, mas regista-se a dinâmica de congregação que a equipa da Freestyle procura efectuar entre o MCing, o DJing, o Graffiti e o Breakdance.

- Rubricas Falo por Mim, Memória, 3 Mic’s e 20 Barras. São secções bastante interessantes. Falo por Mim é um espaço de opinião bastante pertinente. Memória é fulcral pelo desfiar de histórias que nos remetem inevitavelmente para os primórdios do nosso Hip Hop. Esta rubrica é essencial, assim como mais artigos sobre o começo do Hip Hop Português, pois só se pode crescer se se souber o que está para trás. As 20 Barras são um modo agradável de se fechar a revista, numa componente de descontracção e divertimento até.

- Agenda. É positiva a ideia de facultar as datas dos eventos que irão acontecer no país. Com certeza que a Agenda tenderá a melhorar e a conseguir incluir a indicação de mais iniciativas Hiphopianas. Saliente-se que é um espaço aprazível, pese embora a gralha da edição nº2.

- Artigos e Entrevistas. Há um bom, muito bom até, tratamento destas temáticas, que têm sido autênticos bastiões para a Freestyle. Nota-se uma pujante determinação em fazer bons artigos e boas entrevistas. A equipa tem-se desmultiplicado em várias entrevistas em todas as vertentes e o resultado tem sido sempre bastante satisfatório. Destacaria o excelente artigo, na edição nº2, do Pedro Calado, que é interessante até para reforçar a ideia do quão importante e proveitoso pode ser a abordagem do que é estrangeiro.

- Review. O relato dos eventos que acontecem em Portugal tem paulatinamente aumentado o seu terreno na revista, o que me apraz sobremaneira. É óptimo que quem não tenha podido estar presente num evento consiga através da leitura do artigo pulsar o que aconteceu.

- Festas de lançamento da revista. Iniciativa bastante interessante que visa promover o lançamento de cada edição, com a preocupação de reunir pessoas de todas as vertentes do Hip Hop e de ter a actuar artistas que constem das páginas da Freestyle. Muito boa ideia.

Termino este comentário sobre a revista Freestyle, reforçando que esta é uma opinião meramente pessoal, que teve como única motivação a emissão duma análise baseada na minha experiência de leitor. Esta não é uma posição do blog HIPHOPulsação, é uma opinião minha apenas, sublinho. Não procurei aqui denegrir ou endeusar a revista. O meu intuito é o de ajudar ao melhoramento e crescimento da revista. Referi aspectos negativos e positivos, com a preocupação de procurar fundamentá-los. Resumindo, deixei as minhas objecções e as minhas sugestões de leitor atento, interessado e sobretudo fiel. Desejo à revista Freestyle o maior sucesso e a maior longevidade pois isso significará a consagração e a maturação daquilo que amamos e por que tanto lutamos: o Hip Hop português. Um grande bem-haja a toda a equipa da revista Freestyle.

7 comentários:

  1. Boa critica, e agora uma dúvida, visto que falas-te no grande Porto, sabes onde posso adquirir a revista? é que sofro desse mesmo sintoma que falaste. Um abraço e continua com o excelente trabalho.

    ResponderEliminar
  2. outro ponto negativo. o prexo demasiado cara po conteudo......

    ResponderEliminar
  3. Jonas, penso que pela zona da Areosa ou Antas deves encontrar a revista. Obrigado pela consideração.

    Quanto ao preço, nem coloco tanto em questão pelo facto de a revista ser bimestral. Mas é uma opinião, que eu respeito, e não é certamente a primeira vez que alguém foca esse assunto.

    Já agora, fazia um apelo ao pessoal que possa por aqui andar e que queira fazer um favor a muita gente que não encontra a revista Freestyle. Ou seja, que possam indicar sítios nos mais diversos pontos do país, seja Norte, Centro ou Sul, onde saibam que a revista se encontra à venda. Fica lançado o repto.

    Cumprimentos.

    ResponderEliminar
  4. Concordo com tudo, excepto com um ponto: a predominância do Hip Hop de Lisboa.

    Como já fiz parte das sessões de brainstorming da Freestyle para escolha de conteúdos, posso-te dizer que nunca houve qualquer tipo de favorecimento do HipHop de Lisboa ou marginalização do Hip Hop de outro ponto do país. O que há é a tentativa de cobrir todas as vertentes e esse esforço acontece de facto.

    O que eu posso concordar é que talvez a ausência de alguém do porto na equipa não traga à mesa nomes portuenses com tanta prontidão. Mas o que traz os nomes à mesa é o trabalho que vão fazendo. Por exemplo, eu sei de vários artistas no Algarve que são bons mcs/produtores, mas a não ser que lancem trabalhos ou estejam a fazer qualquer coisa passível de noticiar, não me parece muito linear que apareçam como nomes top of mind para artigos.

    Da minha parte, tenho duas críticas a acrescentar às tuas:

    1 - O que diferencia a Freestyle das outras revistas é ser sobre Hip Hop. E Hip Hop é mais do que as 4 vertentes. Gostava de ver artigos sobre o trabalho social que o Chullage anda a fazer. Sobre a opinião do Valete sobre o rap dos PALOPS e sua relação com o rap português. Sobre a experiência do Martinez com a Matarroa e a sua visão do que está a acontecer na música. Sobre o Blastah Beatz / Madkutz e como eles vêem a "exportação" da produção para o estrangeiro, qual a sua experiência nesse âmbito.

    Tenho tantas ideias para artigos que gostava de ler nem cabem aqui! lol se calhar ainda devia era enviar um mail para eles.

    2 - Em relação ao Hip Hop internacional - acho essencial para a Freestyle dar prioridade a conteudos portugueses, afinal é a única revista de Hip Hop tuga e não podemos ler sobre Hip Hop tuga em muitos mais sítios. Mas no que diz respeito a Hip Hop internacional, há algo que achava importante: que a equipa da Freestyle fosse mais proactiva na procura de colaborações (especialmente de RAP dos palops... não é nada dificil, ha imensos bloggers brasileiros / angolanos / etc que estão abertos a colaborações esporádicas), em vez de se satisfazer com artigos sempre das mesmas pessoas. Colaborações esporádicas trariam uma grande mais valia à Freestyle.

    That's my 2 cents :P

    ResponderEliminar
  5. Joana, em relação à predominância do Hip Hop de Lisboa é um facto! Basta folhear as páginas da revista para se constatar que as matérias tratam muito mais as cenas de Lisboa e arredores do que qualquer outra zona. Ok, acredito que não seja propositado, claro. Até referi que por uma questão de localização da Freestyle existe mais essa facilidade da equipa em tratar as cenas de LX. O meu apontamento neste sentido é o de descentralizar mais. Admito até que se lancem mais cenas aí do que em qualquer outra parte do país, mas é necessária mais atenção a outros sítios. Apenas isso. Ah, e em todas as vertentes.

    Quanto aos 2 pontos que acrescentas estou 100% de acordo! :)

    Cumprimentos.

    ResponderEliminar
  6. Bom artigo, Druco!
    Também estou a pensar em fazer uma súmula destes 3 números no SS, até porque comprei há pouco tempo a HipHop Nation espanhola, e seria interessante perceber o que a Freestyle pode (e deve) aprender com ela.
    Quanto à distribuição, devo dizer que comigo tem sido ao contrário, isto é, tenho encontrado a Freestyle com uma facilidade desconcertante. O nº3 comprei numa papelaria em Moledo, uma aldeiazinha perto de Caminha (!).
    Mas para as gentes do Porto, dois locais onde é seguro encontrar a revista: a papelaria Princesinha (rua de Cedofeita) e a livravria Books & Living no Cidade do Porto.

    Um abraço

    ResponderEliminar
  7. Olá, Francisco!

    Óptimo isso. Cá esperamos com todo o interesse pelo teu artigo sobre as revistas :)

    Bem, então tens sido um sortudo a encontrar a Freestyle! Certamente que as tuas dicas sobre os lugares de venda vão ajudar alguém que nos esteja a ler. Muito obrigado, Francisco!

    Grande abraço.

    ResponderEliminar