quarta-feira, 25 de março de 2009

Hip Hop + Fado = Excelência



O Hip Hop é um corpo insaciável e curioso. Em tudo bebe, em tudo arrisca e mexe, para se tornar maior e melhor. A experimentação sonora desenvolvida no Hip Hop é bastante saudável, pois a capacidade que ele adquire em absorver os vários géneros musicais oferece-lhe soluções ilimitadas. Não há barreiras, a liberdade é a palavra de ordem. A influência do Funk, do Jazz, da Soul, passando pelos Blues, Rock, música brasileira, música indiana, entre outras, é por demais evidente no Hip Hop, a nível global. Mas então e o Fado, estilo musical marcadamente português, poderá apaixonar-se ou deixar-se arrebatar definitivamente pelo Hip Hop?



Ousando responder, eu diria que sim. A mescla entre o Fado e o Hip Hop tem-se vindo a intensificar nos últimos tempos. Quando os mágicos das batidas dotam o Fado de uma nova vida, o resultado é sempre surpreendente. Inicialmente, à novidade, poder-se-ia chamar “Estranha Forma de Vida”. Porém, tal como diz o poeta, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. O que acontece é que a música transpira originalidade. Deste cruzamento, o Hip Hop sai reforçado em portugalidade, devido aos condimentos únicos emprestados pelo Fado.



Há quem diga que a alma lusitana se encontra na guitarra portuguesa e não nas vozes do Fado. Sem querer enveredar por essa discussão, subscrevo apenas que a fusão quer entre as batidas e as vozes dos fadistas, quer entre as batidas e o choro das guitarras do Fado, fica sempre muito bem. Solta-se uma frescura ímpar. Nesta feliz parceria, há exemplos de canções em que a simbiose é plena. É o caso de Sam The Kid que nos emociona na fenomenal canção “Que Estranha Forma de Vida”. Samuel Mira encantou-nos ainda com o excelente tema “Viva!”, em homenagem a Carlos Paredes, e na colaboração que materializou com Jorge Fernando em “Pois é”. Recentemente, Boss AC e Mariza brilharam em conjunto no poderoso tema “Alguém Me Ouviu (Mantém-te Firme)”. Estes são apenas alguns exemplos, talvez os mais conhecidos, da união entre o Fado e o Hip Hop. O que ressalta em todos é a agradável sintonia e a excelência do resultado final.



Em Portugal, o Fado é claramente um rico e belo filão para os criadores de batidas. No exterior, o Fado, para além de continuar a ser admirado, já despertou a curiosidade de Exile, que usou um sample de Mariza, no tema “The Sound is God”. Sabe-se igualmente que DJ Premier já tomou contacto com o Fado, pois numa visita a Portugal foi presenteado com um disco de Amália Rodrigues, uma cortesia de D-Mars. Espera-se pois ouvir, um dia, um instrumental de Preemo com o Fado como elemento principal. De mãos dadas, Fado e Hip Hop, um matrimónio para vida. Com certeza.

4 comentários:

  1. Sam the Kid melhor que ninguem fez essa ligação que falas, absorveu uma sonoridade tipica o fado, e criou excelentes trabalhos.

    E tanbem concordo que o Hip Hop enquanto musica (Produção), não tem barreiras nem fronteiras, hoje consegue se samplar de tal maneira, as fornteiras sao ilimitadas e samples que hoje conheçem ja batidos muitas vejas sao reutilizados e surgem completamentes alterados.

    Quanto ao facto de terem dado um cd de fado ao Premier não sabia, mas de certeza que o homem ja ouviu e conheçe fado, é mais de que um facto provado que em trabalhos de produtores como Premier Alchemist 9th wonder foram encontrados samples com origem em musica popular europeia, ele não anda a dormir, e nós tanbem não :).

    Bom Post.

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  2. Grande post!

    A nível de Hip Hop nacional já houve outros artistas a pegar na sonoridade do fado, assim de repente lembro-me do KS Xaval ou Keso ou lá como é que ele se chama agora, no ep dele. E claro, o Kooltuga! Enfim, pontualmente ouve-se. Mas é bem verdade que se sente uma resistência visceral (não percebo bem porquê) à produção que inclua ou se baseie no fado. Pessoalmente tenho pena, porque gosto e acho que não há vergonha nenhuma nisso. Se o Marcelo D2 põe e dispõe do samba, porque não havemos nós de cultivar algum revivalismo do fado?

    Gostei do post, keep it up!

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  3. Raizes Urbanas:
    Sem dúvida que o Sam tem conseguido excelentes resultados sempre que trabalha com o Fado. Quanto ao Premier, se não me engano penso que recebeu o disco de Amália aquando da sua actuação no Clube Mercado.

    Nicolau:
    Confesso que quando escrevi este post não me lembrei do KS Xaval. Mas agora que o referiste, de facto, lembro-me de uma faixa dele que veio num CD da HIP HOP NATION. Mas não tive oportunidade de ouvir o EP dele. Kooltuga, sim, tem feito um trabalho admirável! Também gostaria de ouvir mais mistura entre o Fado e o Hip Hop. Gosto muito. É isso, o Marcelo D2 é um exemplo a esse nível.

    Obrigado a ambos pelas palavras. Cumprimentos.

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  4. Canibus Samples Teresa Salgueiro - http://youtu.be/gw1tfzhF_SU

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